Diário de um pai em casa. Dia 22


6ª feira. A palavra podia ser mágica. Poderia querer dizer que provavelmente tinha um jantar, quinzenal, mensal, aprazado. Uma saída com amigos. De um grupo, outro ou ainda outro. Amigos mais antigos, mais recentes, mais ou menos chegados, todos igualmente merecedores de me sentar à mesa. A comer e a beber. Sem parcimónia. E partilhar um serão à conversa, sem olhar a horas.

Nada disso tem sido possível, como é notório. Não há jantares rápidos, nem demorados. Por isso, nestes dias de pai fechado em casa à procura de um escape, as tecnologias dão uma ajuda.

Todas as noites “janto” com amigos. Homens. Ninguém sai de suas casas, é um facto. Passamos parte do serão à conversa. Como se estivéssemos lado a lado. Sentados. Partilhando um luxo há muito perdido: como não tivéssemos mais nada para fazer.

Fazemo-lo via zoom, facetime ou outras plataformas de conversa em grupo em que vemos a cara dos comensais. Diálogos que podem ser igualmente via WhatsApp. Ou mais minimalista ainda, através da velha e singular conversa mano a mano, de telefone encostado no ouvido. “Estás bom?”.

Sinceramente, é com o que estiver mais à mão. E depende de quem está sentado a meu lado. Com uns, tenho hora marcada. Outros, nem por isso. Até pode ser antes da hora do repasto.

Cada qual escolhe a sua “mesa”. Há quem vá para as salas, cozinhas, quartos dos filhos, corredores, à janela, todo o local é válido para uma boa conversa. Provavelmente a casa de banho servirá de palco para conversas sem direito a imagem.

Uma conversa sobre política, economia, sobre as empresas e lay-offs, Trump e Bolsonaro, as minudências de Graça Freitas, números e cálculos matemáticos, as boas e más notícias, as medidas pensadas local e globalmente para fazer face à Covid-19 e dos prognósticos de quando é que vamos sair daqui. E, acima de tudo, como.

Acompanhados de copo na mão, de vinho, cerveja, gins, falamos do que cozinhamos, do que estamos a beber e do tinto, ou branco, que recomendamos. Do peixe encomendado e da sugestão do homem do talho que acabará na frigideira ou no fogão.

Entre um copo e outro, mostramos e falamos sobre a barba que cresce dia para dia, sem aparo, ou o cabelo que foi cortado, em casa. Partilhamos as maravilhas do aspirador comprado, não uma aspiração qualquer, mas sim daqueles, robots, que limpam a totalidade do pó nos cantos num estalar de dedos.

Fala-se e escreve-se sobre música. Sobre livros que já lemos ou vamos começar a ler, de filmes que queremos ver ou séries que não podem deixar de ser vistas.

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