“Os vírus que estão a circular em Portugal, que são maioritariamente vírus do tipo A, do subtipo AH3, e aqueles que foram analisados no programa de vigilância da gripe, são antigenicamente distintos daqueles que constam da vacina”, disse à agência Lusa a médica de saúde pública Ana Paula Rodrigues.

Ressalvou, contudo, que isto não quer dizer que a vacina não funcione, poderá é haver uma resposta diminuída.

“Nós não temos ainda os dados dos estudos de efetividade porque não há um número de casos suficientes”, explicou a investigadora do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA) numa altura em que se verifica um aumento de casos de gripe.

Como explicação para esta subida de casos, Ana Paula Rodrigues apontou dois invernos em que praticamente a população não contactou com os vírus da gripe devido às medidas de proteção e ao confinamento, o alívio das medidas contra a covid-19 e ao “frio fora de época” em março.

Apesar de estar a haver uma circulação de vírus da gripe mais elevada do que costuma ser em março, não é tão elevada como se observa nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, disse, sublinhando que, provavelmente, Portugal irá ter “uma epidemia de gripe mais tarde este ano”.

Mas até agora tem sido semelhante ao que acontece nos invernos anteriores, disse Ana Paula Rodrigues, afirmando que as pessoas também estão “mais alerta” para o aparecimento de sintomas respiratórios devido à covid-19.

Também há neste momento testes que fazem em simultâneo o rastreio à gripe e à covid-19, havendo por isso “um maior conhecimento da comunidade em geral e também dos profissionais de saúde da ocorrência desses casos”, observou.

No laboratório responsável pela vigilância epidemiológica da gripe, a virologista Raquel Guiomar acrescentou que nesta altura o período epidémico já estaria a finalizar.

“No entanto, devido a uma circulação muito reduzida nos últimos dois anos e a outras dinâmicas que foram também implementadas”, bem como o levantamento de medidas de proteção individual “o vírus está agora a ter a oportunidade de ser transmitido pessoa a pessoa”, disse a virologista.

Segundo a responsável pelo Laboratório Nacional de Referência para o Vírus da Gripe e outros Vírus Respiratórios, a população “mais suscetível” à infeção pelo vírus da gripe nas últimas semanas tem sido as crianças.

“Esta é uma nova dinâmica dos vírus respiratórios que temos que acompanhar muito de perto porque sabemos que estes dois últimos anos da pandemia interferiram de certa forma também com a circulação do vírus da gripe e de outros vírus respiratórios”, defendeu.

Raquel Guiomar realçou que a gripe tem “um largo espetro de apresentação e sintomas” e que pode apresentar uma doença severa nas populações de risco.

Por esta razão, avançou, o objetivo atual é “alargar a vigilância da gripe, não só no âmbito dos cuidados de saúde primários, mas também reforçar a vigilância a nível hospitalar para avaliar também o impacto na saúde da população e a sua associação com casos mais severos”.

Sobre casos de co-infeção pelo vírus da gripe e do SARS-CoV-2, Raquel Guiomar afirmou que foram detetados 33 casos em Portugal, mas que “não foi documentado uma maior gravidade da doença nestes casos”.

“É um assunto que está a ser acompanhado de perto porque esta situação de dupla infeção é tanto mais frequente, quanto mais frequente for a circulação destes dois vírus”, sublinhou.

Questionadas sobre quando a vigilância da covid-19 vai ser integrada nas redes de vigilância da gripe, as investigadoras explicaram que essa adaptação está a ser feita em colaboração com outras entidades a nível nacional, nomeadamente com a Direção-Geral da Saúde.

“É um trabalho que ainda está a ser desenvolvido para que, pelo menos, no próximo inverno essa integração possa já estar otimizada e melhorada”, afirmou Raquel Duarte.

[Helena Neves, da agência Lusa]

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