Sebastião Lancastre é empresário. Engenheiro de sistemas, trabalhava na Unicre até ter uma ideia que não arregimentou apoios — talvez fosse cedo demais. Mas acreditou e por isso saiu. Criou a Easypay com três sócios e teve de esperar sete anos para as regras mudarem e, finalmente, pôr em prática o que arquitetou. Mas o mercado trocou-lhe as voltas (hoje pode dizer "ainda bem") e o que começou por ser uma solução financeira de base tecnológica para pequenas e médias empresas convenceu as grandes que, sendo menos, têm outro capital para investir. A Easypay tem 9500 clientes e passam 500 milhões de euros pelas contas da empresa, cujo principal objetivo é ajudar as empresas a receberem as suas dívidas, "o mais depressa possível".

Escusado será dizer, depois desta descrição, que Sebastião Lancastre percebe de dinheiro — e percebe sobretudo das novas formas que o dinheiro pode ter. Foi por isso que o desafiámos para uma conversa sobre como vamos receber e pagar nos próximos dez anos. "Vamos usar notas e moedas de forma muito esporádica", diz-nos. "Estive quatro ou cinco dias em Londres e não levantei uma libra". Mas a questão não se esgota aí. Se não trocamos prata, ouro, cobre ou papel, certo é que trocamos dados. E a pergunta que se impõe é saber a quem estamos a confiar os nossos "trocos virtuais", quem é que vigia estes fieis depositários e como é que isso vai mudar o nosso dia a dia — enquanto empresas e enquanto indivíduos.

As fintech, que no fundo são empresas tecnológicas que disponibilizam serviços financeiros, chegam ao mercado com essa ambição, a de criar novas soluções. São especialistas em tecnologia, têm uma estrutura "mais light" e por isso mesmo "conseguem responder de forma mais rápida às necessidades que o mercado coloca". Por outro lado, sabem que têm de fazer melhor para ganhar o seu lugar, que a concorrência tanto vem das big tech como da banca tradicional e que a regulação — que "tem de existir" — pode ser "um calvário" e sufocar a inovação.

"E por essa razão é que eu defendo que em Portugal devia haver uma sandbox para a experimentação. Não há risco nenhum de uma empresa tecnológica começar e tratar de pagamentos até 2 milhões de euros. Qual é o risco sistémico disso? É zero", exemplifica Sebastião Lancastre .

Apesar de hoje já ser possível pagar com o telemóvel ou o relógio, o facto é que Portugal, "do ponto de vista do comércio eletrónico, está muito atrás da Europa". "Falta ambição", as empresas estão "acomodadas" e não olham para o mercado europeu; já os consumidores — num país com dificuldade em rejuvenescer a sua população — são pouco dados à mudança de hábitos.

Sebastião Lancastre não esconde — tampouco o diz com alegria — que "se pudesse voltar atrás teria aberto a empresa em Inglaterra" e confessa uma mágoa: "os Governos todos que nos governaram desde o 25 de Abril nunca trataram bem dos empresários".

Mas está cá, para cair e levantar quantas vezes for preciso, "mais nada". Porque a irrelevância neste mercado é uma sentença de morte.



Vou começar por perguntar uma coisa que vai ajudar quem nos ouvir a perceber o quão está dentro deste mundo, não apenas das fintech, mas de toda a revolução à volta do dinheiro nos últimos 10, 15, 20 anos. Como é que começou a Easypay?

De uma forma muito natural, eu trabalhava na Unicre e foi lá que tive a ideia de fazer a Easypay. Aliás, eu quis fazer a Easypay dentro da própria Unicre, no sentido em que queria que a empresa passasse a gerir outro tipo de transações que passavam um bocado ao lado, mas a ideia não foi bem acolhida e, portanto, decidi fazer o meu caminho. Convidei mais três sócios e criei a Easypay no ano 2000. Ainda iniciámos umas operações, mas depois de uma consulta ao Banco de Portugal, fomos informados de que tínhamos de ser um banco, e como não queríamos ser um banco e queríamos ser só a Easypay, parámos a operação, à espera que um milagre acontecesse. E aconteceu, em 2007, quando sai a primeira diretiva sobre pagamentos, e nessa altura eu tirei o projeto da gaveta novamente e iniciei a Easypay. Já um bocadinho diferente, mas sempre com esta ideia de querer levar as empresas a implementarem meios de pagamento eletrónicos, porque eu acredito sinceramente que quando as empresas fazem bem a gestão do seu dinheiro, podem dedicar mais tempo a desenvolver novos produtos e a prestar novos serviços.

E é isso que tem acontecido com alguns clientes que já trabalham connosco há muito tempo. É o exemplo da Unicef, que, se a memória não me falha, começou a trabalhar com a Easypay em 2011, tinha cinco mil doadores e hoje em dia tem cinquenta mil doadores tendo lá as mesmas duas pessoas a trabalhar. Outro exemplo é o da Emel. Também começámos com a Emel em 2013, se a memória não me falha, a desenvolver a primeira app, e hoje em dia a Easypay é responsável por mais de 80% dos pagamentos da Emel. Portanto já não é só app, é a ocupação da via pública, são os dísticos de residentes, são as multas que as pessoas não gostam de pagar (ou as coimas, pronto, tem que ser). No fundo, a nossa relação com os clientes é uma relação muito intensa. Começamos sempre por dar a mão, para resolver um pequeno problema e depois naturalmente acabamos por tomar conta da grande maioria das operações. Portanto, a Easypay o que faz é ajudar as empresas a receberem as suas dívidas, o mais depressa possível.

20/30. 20 perguntas daqui até 2030

O que estamos dispostos a fazer por um futuro sustentável? Vamos ter serviço nacional de saúde daqui a dez anos? A tecnologia faz mal à nossa cabeça? Quando o tema é imigração, quem dita as regras? Vai Portugal perder o barco no 5G?

Este e só o início de uma série de perguntas que o SAPO24 decidiu colocar em cima da mesa para os próximos dez anos. 2020 convida-nos a pensar a década — como é que o mundo vai mudar e como é que nós mudamos com ele — e foi esse o desafio que colocámos a vários convidados nas conversas que serão publicadas em 24.sapo.pt

20/30. 20 perguntas daqui até 2030 é o nome da série em vídeo, texto e fotografia que vai abordar temas como o ambiente, as migrações, a inteligência artificial, o futuro da ciência, relacionamentos e violência, o mar, o 5G, o humor, o futebol, a televisão, o consumo, o Interior, a saúde mental, o Espaço, o Brexit, a educação (para a inovação), as startups o envelhecimento, as redes sociais ou as cidades de amanhã.

Veja aqui todas as entrevistas.

E você, se tivesse de lançar um tema para o debate, qual seria? Envie a pergunta para a década para 24@sapo.pt.

20/30 é um projeto com assinatura MadreMedia no SAPO24, que poderá também acompanhar em 24.sapo.pt, no portal SAPO (sapo.pt) e respectivas redes sociais. Siga-nos no FacebookTwitter e Instagram.

Falando de dívidas, falamos de dinheiro. E falando de dinheiro referimo-nos a um processo que nos trouxe à conversa de hoje que é cada vez mais nós sentirmos que o dinheiro não se vê, ou seja, hoje em dia deixamos de ter um contacto físico com o dinheiro e a maior probabilidade, pelo menos à luz da evolução nos pagamentos e na própria banca mais tradicional, é esta desmaterialização. Acha que no horizonte dos próximos 10 anos a ideia do dinheiro (notas e moedas como nós nos habituamos a pensar) vai ser algo, se não extinto, muito pouco utilizado?

Acredito seriamente nisso. Há já países na Europa em que essa realidade é muito marcada. Recentemente estive em Londres a passar lá um fim de semana comprido e eu não levantei uma libra. Eu entrava no metro com o meu cartão Revolut, fazia tap em cima das portas, as portas abriam-se magicamente, eles sabiam onde é que eu tinha entrado, sabiam onde é que eu tinha saído, sabiam quantos dias eu lá estava e de acordo com o meu comportamento cobraram-me o bilhete mais barato. Isto é extraordinário. Portanto, eu estive quatro ou cinco dias em Londres e não levantei uma libra. Isto já acontece em algumas cidades. Nós também temos exemplos da Suécia, onde já só 18% dos pagamentos são em dinheiro, comparativamente a 70% em Portugal (em relação ao número de pagamentos, não estou a falar do volume). Isto mostra que já há cidades ou países, que estão a velocidades muito diferentes da nossa. Nós vamos um bocadinho mais devagar, e, obviamente pelas razões do costume — não é pela penetração de telemóveis, porque a penetração de telemóveis é muito grande em Portugal, mas é mais pela idade da nossa população. Estamos a ficar um bocadinho para trás, porque não estamos a conseguir rejuvenescer do ponto de vista da população, e claro que as pessoas não gostam de mudar os seus hábitos.

Mas o inverso também é verdade, ou seja, os mais novos acham estranhíssimo ter que ter dinheiro.

Exatamente, não tenha dúvidas nenhumas. Sabe aquele vídeo muito célebre que passa no YouTube em que os pais desafiam os filhos a fazer uma chamada num telefone de disco e eles olham para aquilo e estão ali dez minutos a tentar e não conseguem? Vai ser tão estranho usar dinheiro como é nesse vídeo tentarem fazer uma chamada telefónica. Claramente que daqui a 10 anos, vamos usar notas e moedas de forma muito esporádica.

"Há mecanismos que nós temos de ver a acontecer e o papel é um deles, faz parte da confiança: saiu o papel, a transação ocorreu"

Do ponto de vista da segurança e da confiança, que são coisas diferentes, se nós deixarmos de ter dinheiro físico na carteira, com notas e moedas, o célebre carteirista dos transportes públicos também será uma espécie em vias de extinção, mas, por outro lado, há um outro tipo de carteirista, ou um outro tipo de roubo que pode acontecer, que tem a ver com os nossos dados em sistemas nos quais nós depositamos aquilo que é esse novo dinheiro digital (não físico). Como é que olha, pela experiência que tem e pelo negócio que tem, para estes temas, por um lado a segurança e por outro lado a confiança?

Sabe que a primeira coisa vem logo da parte da usabilidade, e isso é a primeira barreira que nós temos de ultrapassar. Eu comecei a fazer pagamentos com o meu relógio e a experiência é extraordinária. Primeiro as pessoas perguntam “mas vai pagar com o relógio?” e eu digo “vou”. Depois dou dois toques no meu relógio, agarro no TPA [multibanco], aproximo do meu relógio e está pago. Ponho o TPA outra vez em cima da mesa e magicamente sai o talão. Também poderia haver essa evolução de nem sair o talão, porque já está tudo registado e por isso não preciso do papel. Há aqui às vezes mecanismos que nós temos de ver a acontecer e o papel é um deles, faz parte da confiança: saiu o papel, a transação ocorreu. Mas, o tema da confiança é de facto um tema determinante, mas acho que vem mais pela experiência. As pessoas têm de experimentar, veem que funciona e começam a utilizar mais. Outro tema, que é o tema da segurança, alguém me pode roubar o telemóvel, mas a partir do momento em que eu tiro o relógio do pulso ele deixa de funcionar. Portanto, há mecanismos, e isto é o jogo do gato e do rato, obviamente, que nos vão protegendo, mas claro que isto não evita que haja um certo controlo. Nós temos de ter esse hábito de olhar para os estratos das nossas contas, sejam elas bancárias ou de pagamento, com alguma regularidade, e ver se há algo suspeito, porque os ladrões andam aí. O carteirista vai deixar de ser carteirista fisicamente e passar a ser carteirista virtual. Portanto sim, fraudes e burlas vão acontecer. Antes de entrar aqui no estúdio estava a ler uma burla que tinha acontecido com o Airbnb ao fazerem sites iguaizinhos — eu acho que estou a alugar aquela casa em Nova Iorque, aquele apartamento maravilhoso, mas não, estou só a dar os meus dados ao larápio que os vai usar de forma abusiva.

"O que é que estas fintechs trazem ao mercado? É serem especialistas. (...) Se eu quero mesmo comer sushi, eu vou a um japonês, e se quero uma pizza vou ao italiano"

Ainda bem que falamos no Airbnb porque é uma boa ponte para a questão seguinte, que tem a ver com o facto de muitos destes sistemas de pagamentos estarem assentes em empresas que são tecnológicas. São as tecnológicas os novos bancos, ou seja, os bancos como nós os conhecemos ao longo da história vão transformar-se em tecnológicas? Ou algures temos aqui uma nova espécie a surgir que sai da fusão destas duas áreas?

Eu não sei bem, não tenho a bola de cristal e não sei o que vai acontecer, mas o que não há dúvida nenhuma é que as tecnológicas (chamadas fintechs), ou seja, as empresas financeiras e tecnológicas, conseguem crescer a velocidades enormes. Este ano, só para vermos aqui a dimensão do crescimento da Easypay, nós vamos passar de 180 milhões de euros para 500 milhões de euros. É um crescimento significativo, e isto só é feito porque conseguimos entregar soluções simples e de forma muito rápida. Portanto, as empresas pelo facto de terem uma estrutura mais light, conseguem responder de forma mais rápida às necessidades que o mercado nos coloca. É uma luta um bocado desigual, porque os bancos têm aquele peso significativo. Eu costumo dizer que dentro dos bancos joga-se muito o jogo do telefone [estragado], a mensagem que é dita cá em baixo quando chega lá a cima vai completamente distorcida. Porquê? Porque eles têm muitas layers de decisão e, portanto, quando a mensagem chegar lá acima não vai chegar da mesma forma como é na minha empresa, que tem apenas duas layers de decisão e em que a mensagem nos chega muito rapidamente. Eu até gosto de falar com as pessoas e gosto de as ouvir e de saber. No caminho para cá, estava a falar com mais um potencial cliente e ele estava a dizer-me: “tive umas conversas com a tua equipa e não sei se eles me entenderam bem” e eu “então, explica-me lá”. E numa pequena conversa da viagem de carro até aqui, eu consegui perceber exatamente o que é que eram as necessidades dele e, no fundo, ajustar a minha oferta, que é enorme. Nós já temos 9500 clientes e portanto é uma oferta muito grande. Não vou dizer que são todos diferentes, porque alguns são parecidos, mas nós temos de nos conseguir ajustar. Portanto, os bancos vão ter o papel que conseguirem ter, mas o que não há dúvida nenhuma é que as fintechs conseguem ir a determinados nichos, que que de repente já não são bem nichos. Veja-se o exemplo do sucesso do Revolut em Portugal. Já não é propriamente um nicho, eles já dizem que querem crescer 2 ou 3 vezes no próximo ano e, portanto, isto significa claramente que há outros cartões que vão sair da carteira, e que cartões vão sair? Os bancários.

E porque é que os bancos não conseguem fazer uma coisa igual? Por muitas razões. Pode ser uma razão de posicionamento, mas eu acho que a principal razão é porque não são especialistas. O que é que estas fintechs trazem ao mercado? É serem especialistas, e o tema é: eu quero um generalista, ou quero um especialista? Eu quando quero comer japonês, vou a um restaurante italiano ou vou a um restaurante que faz desde o bife à portuguesa até à pizza? Eu não tenho nada contra esses restaurantes, mas se eu quero mesmo comer sushi, eu vou a um japonês, e se quero uma pizza vou ao italiano. Portanto, acho que as fintechs vão responder um bocadinho dessa maneira, e não nos podemos esquecer que há as bigtechs, ou seja, os Facebooks da vida, Apples, Googles, que estão por cima. Portanto, os bancos estão no fundo ensanduichados entre as fintechs que estão por baixo a tentar explorar algumas atividades e as bigtechs que estão por cima e que têm acesso a todos os consumidores e que conseguem entregar alguns produtos que às vezes fazem muito sentido.

créditos: Rodrigo Mendes | MadreMedia

Do ponto de vista da Easypay, e do seu ponto de vista estando à frente da empresa, considera-se mais próximo culturalmente do mercado financeiro ou do mercado tecnológico?

Do mercado tecnológico. Primeiro porque sou engenheiro de sistemas e acho que essa foi a grande vantagem, ou seja, as soluções que fazemos são todas tecnológicas. Repare, quando desenvolvemos a solução para a Prio, para poder ir a um posto de abastecimento e pagar sem sair do carro (ainda não é abastecer sem sair do carro, para já é só pagar sem sair do carro), a solução era altamente complexa porque tínhamos de falar com a empresa que gere o software dos postos, que é a Gasodata. Tínhamos ainda de falar com a empresa que estava a desenvolver a app que era a Bliss Applications, tínhamos de falar com a própria Prio e coordenar com a Easypay e os seus sistemas de pagamento. No fundo eram quatro empresas e tinha que haver aqui um maestro a coordenar isto tudo e a pôr estas empresas a falarem umas com as outras. O pagamento é a etapa final, nós garantirmos que o dinheiro chega de facto ao sítio certo, que cobramos a comissão certa, que sai a fatura. O pagamento é o fim da linha e então isto é muito mais tecnológico do que propriamente sobre pagamentos.

E, sendo assim, estamos a falar de um novo mundo onde a regulação também vai ter que ser outra. Na prática, quando não se colocava questões sobre esta miscigenação entre a tecnologia e a área financeira, assumia-se que a área financeira era regulada por entidades como o Banco de Portugal, cujo trabalho, à partida, é olhar para os bancos e ver se estão a cumprir as regras e a garantir a todos os utilizadores, sejam individuais ou sejam empresas, que podem ter confiança no sistema. Mudando este paradigma, quem é que vai ser responsável, ou quem é que acha que vai emergir como responsável desta regulação?

Continua a ser o Banco de Portugal. Não há outra alternativa, porque no fim de tudo estamos a falar de dinheiro. Pelo facto de pelas contas da Easypay passarem 500 milhões de euros, é muita massa, percebo que haja aqui uma preocupação de o Banco de Portugal assegurar que estamos a pôr o dinheiro no sítio certo e a utilizá-lo de forma certa. Portanto, o dinheiro continua a ter aqui um peso muito importante.

"Não tenho dúvidas nenhumas de que a regulação tem que existir e tem de ser adequada, mas o principal é que as pessoas que estão à frente das instituições sejam sérias"

Deixe-me só interrompê-lo, porque agora disse uma coisa e eu achei curiosa, a declaração de idoneidade, por exemplo, acha que fará sentido colocar também ao responsável de uma fintech, que é uma tecnológica e não um banco?

Eu acho que sim. Não tenho dúvidas nenhumas de que a regulação tem que existir e tem de ser adequada, mas o principal é que as pessoas que estão à frente das instituições sejam sérias. Mas isto também é uma aprendizagem, porque, repare, se calhar há uns anos nós não víamos mal nenhum em passar um sinal encarnado e isso hoje em dia tem um peso enorme porque estamos muito mais conscientes das consequências: podemos atropelar, criar um choque ou tirar a vida a alguém, e isso influencia. Por exemplo, no meu caso, na minha declaração de idoneidade, eu também tenho de demonstrar que não tenho multas desse género. Portanto, há comportamentos que nós temos de passar a ter face à responsabilidade que temos à frente da companhia. Portanto, sim, eu concordo que em algumas fintechs também haja toda a parte da idoneidade e que esta devia estar muito presente, porque nós podemos ser tentados de facto a fazer coisas menos bonitas.

As tecnológicas são por definição uma área de grande experimentação e de grande inovação, em que nós sabemos provavelmente menos do que vai acontecer do que mais. Não é uma área de experiência adquirida, é uma área onde nós estamos permanentemente a abrir novas fronteiras, contrariamente à banca que, por definição, é uma área muito mais de experiência acumulada, prudência e de aversão ao risco. Não é um pouco contra-natura?

E por essa razão é que eu defendo que em Portugal devia haver uma sandbox para a experimentação. Ou seja, não há risco nenhum de uma empresa tecnológica começar e tratar de pagamentos até 2 milhões de euros. Qual é o risco sistémico disso? É zero! Já 500 milhões de euros é uma coisa um bocadinho diferente. Portanto, eu defendo a experimentação e defendo uma regulação light para que isso possa acontecer, porque senão não vai haver inovação. Ou seja, se as empresas para inovarem vão ter de passar pelo calvário que nós passamos para obter a licença, então não vai haver inovação. Defendo que tem de haver regulação, mas ela no principio tem de ser muito light porque senão não pode haver experimentação. Eu acho que havendo aqui a criação de um ecossistema, que se chama sandbox, mas que basicamente quer dizer que as empresas podem fazer operações até um determinado montante e volume e podem fazê-lo identificando-se e apresentando um projeto ao Banco de Portugal e dizendo “eu sou esta empresa, quero fazer isto, e não vou fazer operações mais do que 2 milhões”. Depois, se o mercado aceitar, porque quem manda é o mercado...

E se aceitar a ideia seria escalar.

Exatamente, então tem de passar pela casa da partida e mandar os papelinhos todos e as ditas declarações de idoneidade e seja lá o que isso for.

Nestes 10 anos, que para si são mais porque a Easypay tem uma história anterior inclusive à década que termina, qual foi a sua maior surpresa? 

Foi as empresas grandes precisarem da Easypay, essa para mim foi a maior surpresa, porque nós aparecemos para resolver o problema das pequenas e médias empresas, que são a grande maioria das empresas portuguesas. Mas quando tenho uma Media Markt, um FitnessHut, ou mesmo a Segurança Social enquanto clientes da Easypay... Nunca pensei que precisassem de uma Easypay para lhes resolver os problemas, sempre achei que internamente eles tinham as pessoas e o know how para o fazerem, mas isso não é verdade porque dentro da Easypay existe um know how imbatível na área dos pagamentos e esse know how depois revela-se nas soluções que desenvolvemos. Somos muito rápidos e desenvolvemos soluções muito boas e isso tanto serve para pequenas empresas como para grandes empresas. A minha grande surpresa foi que as grandes empresas também precisassem desses serviços e, enfim, na carteira de clientes da Easypay posso referir outro nome como a Fundação Calouste Gulbenkian.

Porque é que há 10 anos achava que era mais plausível que as pequenas empresas fossem os vossos clientes? 

Porque não conseguiam ter acesso a esta tecnologia, nem ao preço, nem da forma simples. Repare, se uma empresa quiser oferecer amanhã aos seus clientes, num site, referências multibanco, mbway, cartões de crédito, débitos diretos, transferências bancárias, boleto bancário do Brasil, iDeal, ela pode fazer isso tudo na plataforma da Easypay. No fundo, pode abrir a conta de pagamentos em 10 minutos no site. Uma pequena empresa faz isso, mas uma grande empresa não, porque tem de ser acompanhada por um consultor. Eu achava que todas as empresas quereriam ter este tipo de serviço e isso não é verdade. Ou seja, a Easypay tem vindo a resolver mais problemas de grandes empresas do que os problemas das pequenas empresas.

créditos: Rodrigo Mendes | MadreMedia

O que é uma boa notícia, porque as grandes empresas são clientes interessantes do ponto de vista do negócio, mas, por outro lado, se olharmos para o tecido económico do país, também deve querer dizer qualquer coisa menos simpática. Isso significa o quê? Que há muita retração? Há pouca formação ou informação? É uma questão de capacidade económica?

É verdade. Eu não gostei nada da frase do Ministro dos Negócios Estrangeiros...

Sobre a falta de capacidade gestão

Foi de alguma maneira deselegante para os empresários, mas não há dúvida nenhuma de que há uma quantidade significativa de empresários portugueses - que eu acho que estão a sair porque estão a chegar novas gerações, os filhos, que vêm muito formados e que querem transformar as empresas. Mas [esses empresários] fizeram as empresas e pagaram os impostos, enfim, foi muito duro. Portugal, mesmo do ponto de vista do comércio eletrónico, está muito atrás da Europa, e isso é o reflexo do tecido empresarial, porque sendo nós um país pequeno, temos tudo a ganhar se nos virarmos para fora. Não percebo como é que as empresas não vendem todas online, sinceramente não percebo, porque não é pelo preço nem pelas soluções, é pura e simplesmente porque estão um bocadinho acomodadas e sentem que “o meu mercado é o mercado português”, e não é de todo. O mercado para a grande maioria das empresas é a Europa e é facílimo hoje em dia vender na Europa.

"O dinheiro não está garantido, o crescimento não está garantido. (...) Vou-lhe confessar que há dois meses nós levámos cinco murros no estômago, assim seguidos."

Se essa foi a sua maior surpresa, qual é que é neste momento, para os próximos 10 anos, o seu principal desafio, enquanto empresário nesta área tão dinâmica quanto é a dos pagamentos.

É ser relevante para os clientes, e isso é muito difícil. Repare, a Easypay, que é uma startup e uma fintech, tem de estar permanentemente a reinventar-se. Ou seja, não estou na posição em que os bancos estão, um bocadinho acomodados, mas sim numa posição em que a qualquer momento posso desaparecer. Portanto, o meu maior desafio é tornar-me relevante para os clientes, e para que isso aconteça eu tenho de saber ouvir, eu tenho de estar disponível para ouvir as dores dos clientes, os desafios deles, acompanhá-los e ter no fundo a certeza de que de um dia para o outro eles podem desaparecer. Isso significa que, eu já nem vou dizer que não há almoços grátis, que isso já nós sabemos, mas [vou dizer] é que o dinheiro não está garantido, o crescimento não está garantido e que nada é garantido. Esta maneira de estar é de permanente olhar para dentro e dizer “é isto que os clientes querem, é isto que nós estamos a fazer bem feito, ou temos de voltar a pegar numa folha em branco e começar do principio”. A Easypay nos últimos dois anos refez toda a sua plataforma de pagamentos e uma coisa que nos deu algum gozo foi ser reconhecidos. A nossa plataforma está alojada na Amazon, portanto na AWS, e ser reconhecidos pela própria Amazon que é uma fintech de referência na Europa, pela nossa forma de utilizar os serviços deles, isso enche-nos um bocado o ego — quando vemos o reconhecimento destes big players a virem ter connosco e a dizerem “nós queremos fazer um case study convosco porque vocês são uma empresa de referência”.

"Nós temos de ter esta capacidade de, se amanhã apanharmos uma grande surpresa, nos reinventarmos e irmos à luta"

Mesmo em jeito de remate, essa inquietação e necessidade de relevância e a noção de que, ou é isso ou o preço a pagar pode ser não ter lugar no mercado, fá-lo dormir melhor ou pior?  Ou seja, quando põe a cabeça na almofada, tem mais angústia por esse receio, porque de facto é um mercado muito dinâmico, ou tem mais entusiasmo por precisamente ser um mercado dinâmico e tudo poder acontecer?

Tenho muito mais entusiasmo, mas consciente dos desafios.

O que quero mesmo é ouvir sobre a mistura desses sentimentos, porque na realidade isto é bom para si, saber que está num mercado que está a crescer e onde tudo está para acontecer, mas essa noção do risco, de um passo em falso...

Vou confessar-lhe que há dois meses levámos cinco murros no estômago, assim seguidos. Eu falei com a equipa e disse que isto era uma grande oportunidade para nós, que é reinventarmo-nos, mais nada. "Isto é uma grande oportunidade e por isso vamos aproveitar estes murros que levámos e vamos reinventar o negócio. Vamos fazer um negócio novo em cima daquele que já estamos a fazer". Esta é a única atitude, porque eu acho que desde o momento em que as Torres Gémeas caíram nós deixámos de ter chão. Não há nada seguro e portanto, não vale a pena vivermos nessa ilusão, mas isto é um esforço enorme para nós enquanto humanidade ... Queremos tudo seguro, mas no fundo estamos a iludir-nos um bocadinho, porque de facto isso não existe hoje em dia. Nós temos de ter esta capacidade de, se amanhã apanharmos uma grande surpresa, nos reinventarmos e irmos à luta. Sabemos pensar, sabemos procurar soluções, sabemos desenvolvê-las, temos bons recursos...

Enfim, falta aqui em Portugal às vezes um bocadinho mais de dinheiro, sinceramente é aquilo que eu acho que nos faz verdadeiramente falta. Acho que, não querendo aqui fazer um statement político, os Governos todos que nos governaram desde o 25 de Abril nunca trataram bem dos empresários e a forma como nós precisamos de investir. Essa é a mágoa maior que eu tenho em relação a Portugal. Já disse uma vez no passado que se pudesse voltar atrás teria aberto a empresa em Inglaterra e custa-me dizer enquanto português. Agora estou cá e tento tirar o melhor partido daquilo que estou aqui a fazer, mas eu estaria noutra dimensão se não tivesse feito a empresa em Portugal e a tivesse feito noutro país. Para quem estiver a começar uma empresa hoje, o que é que são as condições que o governo tem de dar para as empresas se poderem desenvolver? E temos também de olhar para os países que estão abaixo de nós, tipo Letónia, Estónia, etc, e que nos começam a comer aqui os calcanhares já e a quererem ultrapassar-nos. Temos de ser um bocadinho mais dinâmicos, e eu acho que este orçamento [do Estado para 2020] já traz alguns sinais disso, mas temos de ser mais ambiciosos. Eu acho que às vezes falta uma certa ambição nos portugueses e portanto, é isso que eu tento fomentar na minha equipa. Quando temos desafios desses é sermos mais ambiciosos. Não há outro lugar.

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