A Guerra na Ucrânia já não domina o ciclo noticioso de 24 horas nem domina as manchetes, mas não é por isso que o conflito parou ou o sofrimento amainou na zona flagelada pela morte e a violência.

O enfoque dos combates no Donbass — região que, recorde-se, encontra-se em conflito desde 2014, não obstante os acordos de Minsk — não só diminuiu o “fator novidade” como tornou-se mais difícil de acompanhar do que noutras zonas da Ucrânia. Além disso, passou a travar-se em batalhas aguerridas sem avanços muito significativos de qualquer um dos lados.

É mais pelas consequências e as polémicas que a guerra tem permanecido na consciência comum — desde a limitação concertada do consumo de gás na União Europeia ao recente relatório redigido pela Amnistia Internacional, cujo parcial enfoque em responsabilizar as forças ucranianas pela morte de civis levou a representante da organização no país a demitir-se.

Há, no entanto, um novo-velho problema a surgir e agravar-se. Logo nos primeiros dias do conflito, a guerra foi levada para junto da central nuclear de Zaporijia, com as imagens de combates e explosões a percorrerem mundo. Apesar da conquista russa do complexo, o pior evitou-se — não houve nova “Chernobyl”. Mas o perigo está de volta.

Um dos reatores da central nuclear de Zaporijia foi paralisado, anunciou este sábado a empresa ucraniana de energia atómica. Porquê? Porque foi alvo de bombardeamentos.

"Devido ao ataque à central nuclear de Zaporijia, o sistema de proteção de emergência foi acionado num dos três reatores em funcionamento, que foi desativado", anunciou a Energoatom. A empresa afirmou que os bombardeamentos provocaram "danos graves" a uma unidade que armazenava nitrogénio e oxigénio e a um "edifício anexo".

"Ainda há riscos de vazamentos de hidrogénio e substâncias radioativas. O risco de incêndio também é alto", disse a Energoatom.

Quem foi o responsável? As duas partes repartem culpas. Na sexta-feira, as autoridades separatistas russófonas de Enerdogar, perto de Zaporijia, alertaram para novos ataques das forças ucranianas contra a infraestrutura, com Kiev a replicar e a atribuir as ações militares às tropas russas.

Os responsáveis locais consideram que o exército ucraniano atacou deliberadamente as linhas elétricas em território situado perto da central nuclear de Zaporijia com o objetivo de criar uma ameaça para a população da zona. Numa reação oposta, a Ucrânia acusou os russos de ataques perto do reator nuclear.

Mas o real problema por apurar não é que foi responsável — até porque, numa guerra, a culpa nunca morre solteira —, é perceber o que vai acontecer à central.

O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Grossi, veio a público deixar uma nota alarmista. "Estou extremamente preocupado com os bombardeamentos de ontem [sexta-feira] da maior central nuclear da Europa, o que sublinha o risco muito real de uma catástrofe nuclear que ameaça a saúde pública e o ambiente, na Ucrânia e não só", advertiu Grossi numa declaração divulgada em Viena, considerando que se “está a brincar com o fogo".

O chefe da agência das Nações Unidas para a energia nuclear considerou "completamente inaceitável" a colocação da central em perigo e argumentou que visá-la militarmente é "brincar com o fogo", podendo ter "consequências potencialmente catastróficas". "Apelo veemente e urgentemente a todas as partes para que exerçam a máxima contenção nas proximidades desta importante instalação nuclear com seis reatores", escreveu.

O diretor da AIEA expressou em junho a sua vontade de visitar a central controlada pela Rússia, mas a Ucrânia criticou veementemente esses planos, alegando que a viagem do funcionário argentino da ONU poderia ser entendida como uma legitimação da ocupação russa.

Enquanto os jogos políticos impedem uma forma concertada de avaliar a central nuclear, o risco permanece — oxalá não signifique um regresso a 1986.

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