É um caso raro de longevidade. É muito difícil imaginar que possa acontecer outra situação semelhante nos tempos vindouros do beautiful game: uma equipa da primeira divisão ter o mesmo treinador ao leme por mais de vinte anos. Arsène Wenger não só já passou essa marca redonda, como renovou o seu vínculo dos os ‘gunners’ para mais duas épocas. Se as cumprir, ficará 23 anos no clube.

“Amo este clube e estou entusiasmado com o futuro, com otimismo e excitação. Estamos a avaliar o que fizemos bem e como podemos ser mais fortes em todas as áreas. Este é um grupo forte de jogadores e com algumas contratações podemos ainda ser mais bem-sucedidos”, explicou Wenger, assumindo que quer entrar na luta pelo título.

O treinador francês, de 67 anos, agradeceu o apoio que lhe foi dado pela administração, em especial o do acionista maioritário, Stan Kroenke, que “está a fazer tudo” para os ‘gunners’ vencerem mais títulos.

“A nossa ambição é vencer a ‘Premier League’ e outros grandes troféus na Europa. É o que adeptos, jogadores, ‘staff’, treinador e direção esperam e não vamos descansar até que isso seja alcançado. Arsène é a melhor pessoa para nos ajudar a fazer isso de novo”, afirmou Kroenke a propósito da renovação do francês.

Desde 1996 no clube londrino, Wenger não vence o campeonato desde 2003/04 e esta temporada terminou a liga inglesa na quinta posição — fora dos lugares de acesso à Liga dos Campeões — ‘salvando’ a época com a conquista, no sábado, da Taça de Inglaterra, a sua sétima.

Um desconhecido vindo do Japão

Quando o francês chegou a Highbury Park, em outubro de 1996, os fãs do Arsenal só se podiam questionar em que planeta viviam. Afinal, este virtual desconhecido do futebol inglês tinha muito a provar quando se mudou do Japão para o norte de Londres. Chegou como o primeiro treinador da história do clube que não pertencia ao Reino Unido. (A título de curiosidade, foi substituído no Nagoya por Carlos Queiroz, ex-seleccionador português e treinador do Sporting CP, que tinha rescindido com os norte-americanos do MetroStars, atuais New York Red Bull da Major League Soccer, nos Estados Unidos).

Em 1996/1997, o clube acabaria em terceiro lugar, mas o novo manager tinha plantado a semente para criar um novo e fresco ADN nos Gunners. E ainda não tinha completado uma época inteira ao leme.

Na época seguinte, ainda que tenha estado a 11 pontos de diferença para o Manchester United numa fase inicial da temporada, uma segunda volta de sonho levou a que o Arsenal conquistasse o título da Premier League quando ainda faltavam dois jogos para o final do campeonato. A época terminaria ainda com a cereja no topo do bolo, duas semanas após o final da liga inglesa, quando o Arsenal juntou mais uma Taça de Inglaterra ao seu palmarés. Desta forma, Wenger conquistava a sua primeira “dobradinha” pelo clube britânico. Não se pode considerar um mau presságio para alguém que era um desconhecido.

Além de transformar o Arsenal em campo, o treinador começou a revolucionar a vida dos seus jogadores fora dele, implementando novas técnicas de treino e novos hábitos alimentares. O francês foi igualmente meticuloso na sua política de contratações, juntando Patrick Vieira, Emmanuel Petit e Marc Overmars a uma equipa que já possuía autênticas lendas vivas do clube, como David Seaman, Tony Adams ou Dennis Bergkamp. Foi também sob a sua batuta que outro veterano de Highbury continuou a encontrar a baliza adversária: Ian Wright.

A seca, até Henry "matar a sede"

Depois da dobradinha, porém, seguiram-se três épocas sem conquistar o título de campeão. Todos perdidos para o Manchester United. Só que em 1999, um tal de Thierry Henry assinava pelo Arsenal e era apresentado como a nova promessa do conjunto. Proveniente da Juventus, o francês tinha marcado apenas 3 golos, mas parecia ser uma aposta forte de Wenger.

Hoje parece mentira e praticamente impossível, mas o histórico avançado chegou a suscitar muitas dúvidas sobre as suas capacidades. Primeiro, porque era um extremo que não parecia ter estofo para o lado áspero da Premier League; depois, por ficar em branco nos seus primeiros oito jogos. No entanto, os 26 golos marcados até ao final da temporada dissiparam todas as questões dos críticos, e clarearam as certezas do treinador que o foi buscar. Todavia, as derrotas no final da Taça UEFA em 2000, e na final da Taça de Inglaterra no ano seguinte, ditaram que Henry ainda fosse visto como uma incerteza.

Até que, em 2001/02, a equipa de Arsène Wenger alcançava uma impressionante “dobradinha”, terminando com sete pontos de vantagem sobre o Liverpool na Premier League. A festa do título chegou com uma vitória sobre o Manchester United, em Old Trafford, poucos dias depois de despachar o Chelsea por 2-0 na final da Taça de Inglaterra.

Na época seguinte, o mesmo problema do primeiro ano de campeão: consistência. Conquistaram novamente a taça, mas ficaram-se por aí.

Certo é que, revista a bela história desportiva dos londrinos, que não dá azo a mentiras, conferimos que o francês foi prolífero ao vincar os seus feitos nas páginas de glória do clube: 8 épocas e 228 golos.

"Os Invencíveis": a época quase perfeita, sem derrotas

Em 2003/04, o Arsenal conquista o segundo título em três anos, acabando a liga com 24 vitórias e 12 empates. Uma semana antes de terminar o campeonato, o vice-presidente dos “gunners”, David Dein, dizia que o timoneiro francês tinha um trabalho “para a vida”.

“Chamo a Arséne Wenger o trabalhador milagroso, porque ele conseguiu vários milagres. Tem um trabalho para vida, tão simples quanto isso”, afirmou Dein à BBC. “Ele tem um contrato que o garante connosco durante mais alguns anos. Muito depende do que ele quer fazer, mas estamos esperançados que ele fique em Londres”, continuou.

Então com 54 anos, estava a ser aliciado por alguns dos mais importantes clubes europeus — como os espanhóis do Real Madrid —, mas manteve-se fiel ao Arsenal, conduzindo os londrinos a uma época quase perfeita a nível interno.

Estava há oito anos no comando dos “habitantes” do Highbury Park, e tinha uma espinha dorsal coesa e competitiva, tendo em Sol Campbell (defesa-central), Patrick Vieira (médio) e Thierry Henry (avançado) os seus principais esteios.

O Arsenal bateu o recorde de jogos consecutivos sem perder para a Premier League, entre maio de 2003 a outubro de 2004, tendo estado 49 jogos sem conhecer o sabor da derrota. Foi o primeiro treinador na história da liga inglesa a estar as 38 jornadas que compõem o campeonato sem perder.

Wenger conseguiu chegar a estes números ao contratar jovens de quem ninguém tinha praticamente ouvido falar, monitorizado a sua evolução e acabando por transformá-los em internacionais de renome. Exploramos esta ideia com apenas dois exemplos: Kolo Touré e Ljungberg. O primeiro custou "apenas" 80 mil euros e chegou a Inglaterra vindo directamente da Costa do Marfim para alternar entre o meio-campo e o centro da defesa arsenalista; o segundo, um médio-ala que parecia um trator no corredor direito, custou 4,5 milhões de euros ao Halmstads BK, da Suécia. Hoje poderá parecer algo que os departamentos de prospeção fazem num piscar de olhos, mas à época as coisas não eram bem assim.

11 estrangeiros em campo + 5 no banco

15 de fevereiro, 2005. Wenger não tinha disponíveis para o jogo frente ao Crystal Palace as “estrelas” inglesas habitualmente convocadas, Ashley Cole e Sol Campbell, que estão ausentes devido a lesão e a doença.

Os 38.500 espectadores presentes nas bancadas de Highbury Park verificaram que na constituição dos 16 “gunners” não havia um só jogador de Inglaterra, mas constavam seis franceses, três espanhóis, dois holandeses, um camaronês, um alemão, um brasileiro, um suíço e um marfinense.

Uma época após ter sido campeão, o Arsenal entrava em campo com uma equipa totalmente constituída por estrangeiros para o jogo frente ao Palace, que acabaria por vencer por uns expressivos 5-1.

Quando questionado acerca da sua decisão, o treinador francês esclareceu que a nacionalidade não é um fator que tenha em conta na hora de optar pela constituição da sua equipa, mas admitiu nem sequer se ter apercebido desse detalhe.

“Não me tinha dado conta do facto até me terem chamado a atenção para isso. Não olho para o passaporte dos jogadores, mas sim para a sua qualidade e atitude”, respondeu Wenger às críticas.

O Chelsea, que à época era orientado por José Mourinho, tinha batido em 1999 o recorde para clubes ingleses relativo ao maior número de jogadores estrangeiros em campo, quando alinhou de início com 11 futebolistas originários de outros países, mas com quatro ingleses no banco de suplentes.

O jogo que foi repetido a seu pedido na estreia de Kanu

Em 1999, a 13 de fevereiro, o encontro entre o Arsenal e o Sheffield United, a contar para os oitavos de final da Taça de Inglaterra (FA Cup) terminou com uma vitória para os londrinos, por 2-1. No entanto, este acabou por ser repetido, depois da federação ter aceite o pedido... do próprio Wenger.

Esta situação, sem precedentes, deveu-se ao desportivismo do treinador francês, reconhecido pelos responsáveis federativos. Tudo porque o golo da vitória do Arsenal, apontado por Marc Ovemars, aos 76 minutos, esteve envolvido por uma enorme contestação.

O lance nasceu numa altura em que um jogador do Sheffield United, Lee Morris, se encontrava deitado no relvado, com a bola a ser enviada para fora do terreno a fim de permitir ao atacante dos forasteiros receber assistência médica.

Na reposição, Ray Parlour enviou o esférico na direção do guarda-redes adversário, Allan Kelly, mas o nigeriano Nwankwo Kanu, que por acaso até se estreava nesse jogo, interceptou a bola e serviu Overmars, que atirou para a baliza deserta, perante a incredulidade dos jogadores do Sheffield.

Depois deste lance, o encontro esteve mesmo interrompido durante cerca de cinco minutos e o técnico do Sheffield United, Steve Bruce, instigou mesmo os seus pupilos a abandonar o relvado.

No final do encontro, Wenger explicou que não tinha outra opção que solicitar a repetição do jogo, reconhecendo que a atitude dos seus jogadores não se enquadrou no espírito da Taça de Inglaterra.

Apresentada a proposta, o director-executivo da federação inglesa, David Davies, e o responsável máximo da comissão da Taça de Inglaterra, Terry Annabel, demoraram cerca de meia-hora para aceitar a sugestão.

"É uma situação sem precendentes. Todos aceitam de bom grado este gesto desportivo de Arsène Wenger", afirmou um porta-voz da federação.

O segundo jogo realizou-se apenas dez dias mais tarde. Porém, o resultado seria o mesmo: 2-1 para a equipa do francês. Overmars e Bergkamp foram os autores do golos. O Sheffield United acabaria por reduzir perto do fim.

Mais de 1.000 jogos à frente dos Gunners

Em 2014, aos 64 anos, Wenger tornou-se apenas o quarto a alcançar os 1.000 jogos como treinador de uma equipa inglesa, depois de Matt Busby e Alex Ferguson, ambos no Manchester United, e Dario Gradi, no Crewe Alexandra, o terem feito.

“O clube sempre me apoiou. O tempo dirá se ajudei a transformá-lo num clube melhor do que era quando cheguei, mas espero que sim”, observou Wenger, em conferência de imprensa no centro de estágio do Arsenal, a norte de Londres.

Como não podia deixar de ser, José Mourinho, quando estava na segunda passagem pelos ‘blues’,  mandou nova bicada naquela que se tornou uma dança a dois entre ambos treinadores que marcaram uma parte da história da Premier League.

Este expressou a sua “admiração” por Wenger e pelo Arsenal, lembrando que “não é possível fazer 1.000 jogos se o clube não for também fantástico”.

“Em especial na forma como [o clube] apoia o seu treinador, especialmente nos momentos maus e especialmente se esses momentos maus forem muitos”, acrescentou o treinador português.

2017: Wenger Out. Or not

No passado dia 27, o Arsenal bateu o campeão Chelsea por 2-1, na final da Taça de Inglaterra, e tornou-se no clube que mais vezes ganhou a competição, tendo alcançado o 13.º troféu da sua história, sétimo com Arséne Wenger.

No Estádio de Wembley, o galês Aaron Ramsey marcou o golo da vitória dos ‘gunners’, aos 79 minutos, e garantiu o triunfo do Arsenal que, além de ser a equipa com mais presenças na final (20), passou agora também a ser a equipa que mais vezes levantou a taça nos 146 anos de história da prova.

Além de novo recorde na Taça de Inglaterra, o jogo em Wembley podia ter sido o último de Arsène Wenger no comando do Arsenal, após 21 anos à frente do clube londrino. Mas hoje confirmou-se de que assim não seria.

O técnico francês de 67 anos, que chegou aos ‘gunners’ em 1996/97, conquistou três campeonatos, sete Taças de Inglaterra e seis Supertaças.

Foram 457 vitórias para o campeonato. Melhor, só Sir Alex Ferguson. O quinto lugar registado na liga esta época, foi a pior classificação obtida pelo treinador em todos os anos que orientou os arsenalistas. Em mais de duas décadas, nunca tinha ficado abaixo do 4.º lugar.

Segundo alguns jornais britânicos, Wenger terá manifestado a Stan Kroenke, acionista maioritário do Arsenal, a sua disponibilidade para continuar no comando técnico da equipa. Este manteve-se firme no apoio ao francês, mesmo durante o período entre o fim de janeiro e meados de abril, quando a equipa perdeu 7 dos 12 dos jogos disputados em todas as competições.

Devido a esta fase negra da temporada, foi especialmente difícil encarrilar as coisas para os trâmites normais daquilo que era esperado, levando a que os gunners não conseguissem ir além de um lugar que garantisse um acesso à Liga Europa. Foi durante este período que existiu uma maior incerteza quanto à continuidade do manager, muito devido ao agregado de 10-2, no cômputo das duas mãos dos quartos de final da Liga dos Campeões frente ao Bayern de Munique.

Ivan Gazidis, chefe executivo do clube, tinha aqui o seu "catalisador da mudança". Este acreditava que a estrutura e o staff em torno do francês precisava de um novo rumo, com novos interpretes, para que a equipa pudesse melhorar a performance.

De acordo com o The Guardian, foi Kroenke que apoiou o prolongamento do contrato do gaulês até 2019, durante um encontro realizado entre a administração e técnico esta segunda-feira. Na sua opinião, o treinador ainda tem capacidade para lutar pelo título, caso estejam reunidas as devidas condições — contratações de qualidade e renovação dos principais jogadores como Alexis Sánchez, Mesut Özil e Alex Oxlade-Chamberlain —, como sugere a recuperação da equipa na recta final da temporada, onde ganharam 9 dos 10 jogos do calendário, incluindo a supracitada Taça de Inglaterra frente o Chelsea.

Certo é que a administração não acedeu ao apelo de vários pedidos dos fãs que se desdobram em apelos com cartazes a pedir "Wenger Out" (Wenger Fora), em inúmeras demonstrações de descontentamento. No entanto, trata-se de um debate dúbio, visto que o treinador conta ainda com imensos adeptos do seu lado e que apoiam a decisão da direção.

No seu currículo, fora dos feitos em Terras de Nossa Majestade, Wenger também conquistou um campeonato francês (1998) e uma Taça de França (1991) pelo Mónaco. Em 1998, a liga valeu-lhe mesmo o galardão de Treinador francês do Ano. Durante a aventura em solo nipónico, ganhou a Taça do Imperador e a Supertaça Japonesa em 1996, tendo também sido considerado o Treinador do Ano.

O contrato de Wenger terminava no dia 30 de junho.

Porque o seu tempo é precioso.

Subscreva a newsletter do SAPO 24.

Porque as notícias não escolhem hora.

Ative as notificações do SAPO 24.

Saiba sempre do que se fala.

Siga o SAPO 24 nas redes sociais. Use a #SAPO24 nas suas publicações.