Abelão, como é carinhosamente chamado, é um treinador boa gente. Nunca foi considerado o melhor do país, mas a sua experiência (é treinador desde os anos 80) e habilidade de inspirar os seus jogadores já o levaram a muitas conquistas. Abel é muito bem visto por onde passou e é considerado um paizão pelos jogadores. O seu caráter nunca foi questionado, mas os seus últimos anos foram bem difíceis.

De uma carreira de sucesso como defesa central por Vasco e Fluminense, PSG e Cruzeiro, sendo suplente no Mundial de 78, Abel Braga foi sempre um homem do futebol. Começou a carreira como treinador no Goytacaz, clube onde pendurou as botas como jogador. Teve destaque em Portugal, ao comando do Famalicão, do Vitória de Setúbal e do Belenenses, nos anos 90. Passou também, anos depois, pela França e pelo mundo árabe.

No Brasil, Abel treinou todos os grandes do Rio, criando um vínculo maior com o Fluminense, onde foi campeão brasileiro em 2012. Passou por outros grandes clubes, mas foi no Internacional onde encontrou a sua casa. Está na sua sétima passagem como treinador do clube e teve, em 2006, o seu auge. Foi campeão da Libertadores e venceu o forte Barcelona, de Ronaldinho Gaúcho, no mundial de clubes.

Nos últimos anos, após fazer bons campeonatos com uma equipa limitada no Fluminense, Abel viveu uma tragédia pessoal. Em 2017, o seu filho caçula, João Pedro, teve uma convulsão e caiu da janela do seu apartamento no Rio e acabou por falecer. Abel, após uma licença curta, enfiou a cara no trabalho para encontrar forças. Em 2018, acertou o seu regresso para ingressar no Flamengo, clube que apresentava um projeto ambicioso de investimento para vencer tudo. Era uma oportunidade de ouro.

Com o plantel que viria a ganhar vários títulos com Jorge Jesus, Abel não conseguiu encantar. Sofria críticas por um jogo pragmático e por não colocar em campo todas as principais contratações. Não resistiu à pressão e acabou demitido, abrindo caminho para o sucesso do português. Abel nunca foi um primor tático. As suas equipas são marcadas pela competitividade. E esse Flamengo precisava de uma caudal ofensivo que não era sua a marca.

Claramente abalado pela perda do filho, Abel ainda procurava no trabalho o escape da tristeza. Mas as escolhas que fez a seguir pareciam indicar o fim da sua carreira. Ver Jorge Jesus fazer, rapidamente, o que ele não conseguiu no Flamengo e assumir um moribundo Cruzeiro rumo à segunda divisão, sugavam ainda mais energia de um treinador muito querido por todos. Críticas choviam da imprensa e apontavam Abel como um treinador ultrapassado.

Em 2020, resolveu assumir um Vasco da Gama falido e falhou mais uma vez. Outro clube do seu coração, o Internacional, liderava o Brasileirão quando perdeu o treinador, Coudet, para o Celta da Espanha. Abel foi chamado para substituir o jovem e estrangeiro (duas características na moda no futebol brasileiro) no comando do Colorado. E o seu começo, com derrotas e eliminações, mesmo que sem o treinador no banco, com covid-19, foi o suficiente para ouvirmos, mais uma vez, a sentença de que Abel já era.

Abel voltou ao Internacional, como ele mesmo disse, em busca da felicidade. Voltou para casa para ajudar um clube deixado na mão pelo treinador. Incrivelmente, após um começo duvidoso, Abel encontrou um caminho e não para de vencer. Simplificou o jogo de Coudet e não traz grandes invenções táticas, mas, mais uma vez, criou um espírito de guerra para um plantel que tinha perdido a confiança. Lançou jovens talentos, recuperou jogadores criticados. Foi Abel.

Na última semana voltou para a liderança do Campeonato com um sonoro 5-1, na casa do adversário e antigo líder, o São Paulo. Venceu, no fim de semana, o clássico contra o Grémio após o adversário levar a melhor nos últimos 11 jogos. Devolveu a confiança para um clube que não vence o Brasileirão desde os anos 70 e que tem um plantel esforçado, mas sem grandes estrelas.

Num campeonato onde os líderes oscilam demais, o Inter parece estável na hora certa. Vai enfrentar o Flamengo, outro candidato ao troféu, no Maracanã, na penúltima jornada e pode dar ao treinador a chance de vingar 2019. Mas Abel não pensa nisso. Abel reencontrou a felicidade ao voltar para casa e pode encerrar, nos seus próprios termos, uma carreira com muito para se orgulhar. Não, não virou um treinador "moderno" e nem é o melhor treinador do Brasil. Mas é Abel, um homem do futebol e merece o nosso respeito.

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