Diz-se por aí que não se deve voltar a um lugar onde já se foi feliz. É provável que uma pesquisa no Google mostre que a referida tem origem em algum site terminado em “.br”, mas na verdade ela pode ser encontrada na autobiografia de Agatha Christie, a criadora de Hercule Poirot, um dos mais conhecidos detetives do mundo literário (e não só). O que é que isto tem a ver com o jogo que opôs o FC Porto ao Schalke 04? Nada. Mas uma citação não fica sempre bem?

Ok, talvez não seja “nada de nada”.

Os dragões regressavam a Gelsenkirchen pela segunda vez depois da conquista da Liga dos Campeões frente ao Mónaco (já lá vão mais de 14 anos) e a verdade é que, também pela segunda vez, não conseguiram levar de vencida a equipa do Schalke 04. É verdade que o empate a uma bola é bem melhor que a derrota na primeira-mão dos oitavos-de-final desta mesma prova, em 2008, que os portistas não conseguiram depois reverter no Dragão (perderam nas grandes penalidades). Mas não é menos verdade que o momento desde Schalke era bastante favorável a um resultado bem melhor por parte dos comandados de Sérgio Conceição (três derrotas nos três primeiros jogos da Bundesliga).

Hercule Poirot (agora ninguém me para nisto das citações!) disse num dos livros escritos por Christie que o “porquê” nunca deve ser óbvio e que essa é a “questão”. Provavelmente estaria a referir-se ao caso que é a base do livro “Os Cinco Suspeitos” (“brilhantemente” traduzido de “Five Little Pigs”...), mas também podia referir-se à razão pela qual portistas e alemães proporcionaram um jogo morno, sem grandes oportunidades de golo, sem grandes momentos excitantes.

Domenico Tedesco, o jovem treinador italo-alemão de 33 anos, que levou o Schalke 04 ao 2.º lugar da Bundesliga na temporada passada, montou uma equipa intensa fisicamente, que não deixou os dragões respirar. Para além disso, contou na defesa com três autênticas torres: Sané (1,96m), Naldo (1,98m) e Nastasic (1,88m) prometiam não dar descanso “aéreo” aos avançados portistas e também a Casillas (que somou um incrível 168.º jogo na Liga dos Campeões), já agora, nos lances de bola parada.

Começando o jogo com Marega na direita, Aboubakar ao meio e Brahimi na esquerda, (e com Herrera e Otávio à frente de Danilo, no meio-campo), o FC Porto teve oportunidade para passar para a frente do marcador ainda antes do quarto de hora.

Naldo toca a bola com a mão dentro da área, o árbitro assinala penálti e a nação portista rejubila com a possibilidade de se adiantar no marcador bem cedo na partida. Só que não foi isso que aconteceu. Chamado a bater, Alex Telles rematou para o lado esquerdo de Ralf Fahrman (guarda-redes que fazia parte do plantel do Schalke que bateu o FC Porto em 2008, sendo um dos suplentes de um tal de... Manuel Neuer) e o alemão defendeu o remate do brasileiro, deixando o marcador em branco.

E se alguém pensasse que o lance iria animar os alemães, nada disso. O Schalke só criou perigo pela primeira vez aos 20 minutos, num cabeceamento do gigante Naldo por cima da baliza de Casillas, na sequência de um livre do lado direito do ataque da equipa do Ruhr.

À meia-hora, esta estatística do GoalPoint mostrava bem o chamado “deserto de ideias” (quem joga Football Manager perceberá este parafraseamento) que foi primeiro terço da partida, algo que se manteve até final da primeira parte.

Apesar de a toada mais-em-esforço-que-em-jeito se manter, o início da segunda parte foi logo marcado por um lance de perigo por parte do FC Porto. Livre na direita de Alex Telles, que, num lance estudado, não cruza para área mas desmarca Otávio; este, ainda na direita, cruza para a área onde Felipe, na cara do guarda-redes alemão, rematou contra as suas pernas.

Chegávamos aos 57 minutos e já tinham passado 30 minutos desde o último remate do Schalke, algo para o qual Danilo contribuiu quando, pouco tempo depois tirou o “pão da boca” (achavam que este texto só ia ter citações e deixar as alegorias futebolísticas para depois? Nada disso) a Embolo. O avançado suíço corria isolado frente a Casillas e valeu aos portistas a força física do médio português, a fazer lembrar Ricardo Rocha e o seu gesto de musculação de há uns anos para Liedson – a diferença é que o Levezinho pesava quase menos 20 quilos que o possante Embolo.

Só que Embolo não se intimidou e aos 64 minutos abriu mesmo o marcador. Num lance que começa num pontapé falhado de Herrera, o suíço aparece sozinho frente a Casillas (após cruzamento de McKennie) e de pé esquerdo abre o marcador. Estava feito o primeiro da partida, sem que os alemães tivessem oportunidades dignas de registo até então, diga-se.

Num jogo em que Brahimi foi tentando lutar “contra o mundo” (não foi a partida mais inspirada do argelino), o FC Porto pareceu também nunca conseguir penetrar a fortaleza alemã sem ser através de lances de bola parada. E foi de bola parada – parada na marca de penálti, de resto – que acabou mesmo por conseguir empatar.

Aos 73 minutos, Marega recupera uma bola no limite da área alemã depois de um corte deficiente de Naldo (o central brasileiro acaba por estar ligado aos dois penáltis do FC Porto) e, depois de a recuperar, passa pelo meio do central brasileiro e de Sané, acabando por cair. O árbitro assinalou penálti, os incrédulos alemães pediram o VAR, que não está ao dispor dos juízes na Liga dos Campeões, e os portistas empatam a partida. Otávio substituiu Alex Telles no papel de marcador do castigo máximo e conseguiu desfeitear o guardião alemão, repondo a igualdade no encontro. Talvez valha a pena referir, contudo, que os jogadores do Schalke 04 parecem ter razão: ninguém aparenta tocar em Marega no momento da queda do avançado maliano.

Até final, nota para um remate perigoso do Porto aos 82 minutos, na sequência de um canto (a bola saiu à figura, mas o guarda-redes alemão teve de aplicar-se porque pareceu não ver a bola partir) e para um corte importantíssimo de Felipe que ia dando golo do Schalke: cruzamento da esquerda, remate de um jogador alemão e a bola desvia em Felipe, desviando-se também do fundo da baliza de Casillas.

Um empate fora de casa raramente é um mau resultado na Liga dos Campeões. Mas fica a ideia que o FC Porto perdeu uma boa oportunidade para carimbar com “vitória” o seu primeiro jogo na competição milionária da UEFA deste ano.

Bitaites e postas de pescada

O que é que é isso, ó meu?

Estávamos na passagem do 11.º para o 12.º minuto de jogo quando Naldo falhou um cabeceamento e meteu a mão à bola dentro da área. Alex Telles foi chamado a marcar e falhou a grande penalidade. É caso para dizer: o que é que é isso, ó “meus”? A falha dos dois brasileiros acabou por prejudicar ambos os conjuntos, numa partida que estava morna até então (e morna permaneceu).

Fahrman, a vantagem de ter duas pernas

Ralf Fahrman estragou este subtítulo roubado a Gabriel Alves e onde Juskowiak era o protagonista. Fahrman defendeu o penálti de Alex Telles com a mão aos 12 minutos e foi temporariamente um herói em Gelsenkirchen, onde há pouco mais de 14 anos o FC Porto levantou a sua segunda Liga dos Campeões. Depois defendeu, agora sim com as pernas, um desvio de Felipe após cruzamento de Otávio. Não teve muito trabalho, mas sempre que foi chamado correspondeu.

Fica na retina o cheiro de bom futebol

Contra-ataque rapidíssimo do Schalke 04 que começa num pontapé falhado de Herrera. Bentaleb recupera, joga na frente, Danilo e Otávio atrapalham-se e Serdar acaba por ficar com a bola e dar rapidamente para McKenny, que depois cruza para o remate cruzado de Embolo que consegue bater Casillas. Agora que acabo de escrever isto, talvez no lance do golo alemão o “cheiro de bom futebol” tenha sido ténue. Mas foi o possível, neste jogo morno na Alemanha.

Nem com dois pulmões chegava à bola

Aquele pontapé falhado de Herrera que depois deu o contra-ataque do Schalke 04 e o golo dos alemães nem precisava dos “dois pulmões” que Roger (esse mesmo, ex-Benfica e ex-Fluminense) queria ter, há uns anos. Só precisava mesmo de pontaria. Mala suerte para o mexicano do FC Porto.

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