Em 1971 a UEFA decidiu tomar conta e reformular a Taça das Cidades com Feira — um torneio iniciado em 1955 que não era regido pelas normas do organismo que tutela o futebol a nível europeu, destinada a equipas europeias de cidades com feiras de comércio.

O objetivo era dar um palco europeu às equipas que ficassem bem classificadas no seu campeonato nacional, uma vez que os campeões nacionais ganhavam ‘bilhete’ para a Taça dos Campeões Europeus e o vencedor da taça nacional garantia a presença na Taça das Taças. A restrição das feiras de comércio caía assim também por terra.

Durante muito tempo a antiga Taça UEFA, assim se designava a competição na sua primeira versão, foi palco de grandes equipas e de grandes confrontos. Não fosse esta espécie de segunda divisão europeia de clubes e, por exemplo, o Nápoles de Diego Armando Maradona nunca teria atingido a glória continental, ou clubes como o Gotenburgo, da Suécia, muito dificilmente teriam a probabilidade de mostrar o seu valor além-fronteiras.

Foi neste palco que, por exemplo, vimos a Juventus, atual hexacampeã italiana, vencer o seu penúltimo título europeu (1992/93). Ou a primeira consagração europeia do Ajax da década de 90.

A agora denominada Liga Europa foi uma competição importante na segunda metade do século XX, e nem a maior abertura da Liga dos Campeões destronou isso. Hoje em dia, a segunda maior competição de clubes europeia é palco de um futebol que não cabe na hegemonia de uma ‘Champions’ largamente dominada pelos grandes clubes europeus, praticamente todos eles com grande poderio financeiro, como é o caso do Real Madrid, Barcelona, Chelsea, Bayern Munique ou Manchester United. A Liga Europa garante que ninguém é deixado de fora.

Num passado mais recente, esta competição foi a alavanca para que o Atlético Madrid integrasse a elite europeia do futebol, assim como catapultou o Sevilha para as bocas do mundo, com a equipa espanhola, na altura orientada por Unai Emery, a conquistar o troféu por três épocas consecutivas. E é isso que Ajax e Manchester United procuram: uma catapulta para um outro palco de onde, certamente, nunca quiseram sair.

Esta quarta-feira, às 19h45, dois grandes clubes, com um vasto curriculum europeu, entram em campo para lutar por um troféu altamente desejado por razões diferentes. Os ingleses procuram a taça que lhes falta no palmarés e a não menos importante qualificação automática para a fase de grupos de Liga dos Campeões na época seguinte — os red devils ficaram em 6º lugar no campeonato inglês, uma posição que apenas os qualifica para a fase de grupos da Liga Europa. Já os holandeses, com a presença assegurada para a fase de qualificação da Liga dos Campeões na temporada seguinte, após o segundo lugar no campeonato holandês, tentam fazer jus à história e recuperar a glória além-fronteiras.

José Mourinho: “A Liga dos Campeões não é a mesma sem o Manchester United”

Desde a saída de Sir Alex Ferguson, em 2012/2013, que o Manchester United nunca mais voltou a ser o mesmo. O escocês que orientou os red devils durante 27 anos deixou Old Trafford com um palmarés recheado, incluindo o último título de campeão nacional, na época de despedida, e o último título europeu do clube, em 2007/08, altura em que o português Cristiano Ronaldo vestia de vermelho.

A pesada herança recaiu, na época 2013/14, sobre os ombros de outro escocês, David Moyes que deixou o Everton para assumir o comando do United. Mas as coisas não correram bem. Uma Supertaça inglesa no meio de uma temporada desastrosa para um clube habituado a lugares cimeiros — ficaram em 7.º lugar na Premier League, foram eliminados nas primeiras rondas da Taça de Inglaterra e caíram nos quartos-de-final da Liga dos Campeões — soube a pouco. Nas duas épocas seguintes, Louis van Gaal foi o escolhido para colocar o United no lugar devido. Mas uma Taça de Inglaterra e nenhuma prestação europeia significativa — na primeira temporada não passaram da fase de grupos da ‘Champions’ e na segunda nem se conseguiram qualificar para participar na liga milionária — foi igualmente pouco. É aí que entra em cena José Mourinho, apresentado em 2016/17 como o novo homem-forte de uma equipa que começava a perder dimensão dentro e fora de portas.

Com Paul Pogba e Zlatan Ibrahimovic a assinalarem o início da sua era em Old Trafford, o português pegou numa equipa com o objetivo de voltar a fazê-la ganhar. Até agora tem conseguido. Venceu a Supertaça inglesa, venceu a Taça da Liga inglesa e, após um campeonato que não correu bem, focou as atenções na Liga Europa para tentar alcançar um lugar na Liga dos Campeões, algo que foge à equipa de Manchester há duas temporadas. Até porque, segundo o Special One, a “Liga dos Campeões não é a mesma sem o Manchester United”.

Ajax: Honrar e reconquistar o passado europeu

O Ajax é uma daquelas equipas que pertencem aos livros de história do futebol. A conquista de três Taças dos Campeões Europeus consecutivas, no tempo de Johan Cruyff, são um marco assinalável no historial da competição, a que a Taça UEFA de 1991/92 e a Liga dos Campeões de 1994/95 deram continuidade.

Os holandeses sempre foram conhecidos pela sua academia e pelas sucessivas gerações de grandes futebolistas que pisaram o relvado da Amsterdam Arena. Ainda hoje, em tempos em que o sucesso do clube não tem extravasado fronteiras, encontramos nomes como Cristian Erikssen, Zlatan Ibrahimovic ou Luis Suárez com passagens pelo emblema holandês.

A primeira década desde o virar do século foi, muito provavelmente, a pior da história do clube de Amesterdão, com o emblema a conquistar apenas dois campeonatos e três taças nacionais. As participações em competições europeias foram praticamente nulas.

Após este período atípico, em que o Ajax chegou a estar seis temporadas sem vencer a liga nacional, o clube não só venceu o campeonato em 2010/2011 como alcançou um inédito tetracampeonato, pelas maõs de Frank de Boer, uma das suas lendas vivas e que fazia parte da geração de ouro da década de 90.

Agora, em 2016/17, num ano em que o campeonato fugiu para o Feyenoord, o título da Liga Europa pode ser o culminar da caminhada de um gigante adormecido.

A final da Liga Europa entre Manchester United e Ajax, esta quarta-feira, é também uma grande oportunidade para Paul Pogba brilhar, confirmando todas as expetativas criadas à sua volta, e para o jovem Kasper Dolberg se afirmar como uma das futuras pérolas do futebol mundial.

Paul Pogba, “o peso da etiqueta do preço”

Dentro de campo, o médio ainda não conseguiu provar os 105 milhões de euros que custou aos cofres do Manchester United.

Com José Mourinho, Pogba marcou oito golos e fez seis assistências em 50 jogos, mas as suas exibições ficaram um pouco aquém do esperado, uma vez que estamos a falar do jogador mais caro da história do futebol e especialmente se o colocarmos lado a lado com o seu compatriota N'Golo Kanté, que alinha no Chelsea de Antonio Conte, e que esta época se tornou bicampeão inglês, tendo custado "apenas" 38 milhões aos Blues.

Uma das razões para o seu rendimento um pouco aquém na temporada podem ser os recorrentes problemas físicos. Segundo a imprensa inglesa, o médio tem jogado com dores musculares na perna há várias semanas.

O seu único golo marcado na Premier League foi contra o Crystal Palace, na última jornada do campeonato. A partida pode ser um alento para a decisão, já que o francês também fez uma assistência para o golo do jovem Josh Harrop.

Mas Pogba também sofreu com a falta de sorte. O francês acertou na trave nove vezes durante toda a temporada, "um recorde", brincou Mourinho. "O problema é a etiqueta do preço. Espero que este verão algum jogador seja mais caro e a pressão mude de pessoa", disse o português em conferência de imprensa na semana passada.

O francês passa a assumir ainda mais responsabilidades, devido à ausência do goleador do sueco Zlatan Ibrahimovic por lesão. Ibra era o protagonista perfeito para o encontro decisivo, primeiro por já ter jogado no Ajax e segundo pela decisão ser no seu país.

Kasper Dolberg, o espelho da inquietante geração holandesa

No Ajax, contudo, há outro escandinavo que lembra o estilo do ponta-de-lança do United. O jovem dinamarquês Kasper Dolberg que teve um início semelhante ao de Ibra na equipa holandesa e que depressa se assumiu como uma possível estrela do futebol europeu.

Desconhecido até há bem pouco tempo, o goleador de 19 anos parece querer seguir os passos de Ibra. Dolberg marcou dois golos nas meias-finais da Liga Europa, contra o Lyon, e chamou a atenção dos grandes clubes da Europa, conquistando assim o papel de protagonista da final de Estocolmo.

O agente do jogador, Jens Steffensen, reconheceu que o telefone tocou várias com sondagens de equipas, mas negou que o jogador irá deixar o Ajax: "ele não quer ficar no banco de reservas de um grande clube europeu. O principal não é o dinheiro, mas sim a sua evolução. Kasper fica no Ajax",

O atacante marcou 16 golos no campeonato holandês, 22 na soma de todas as competições. Números que valeram a Dolberg o prémio Johan Cruyff para melhor jogador jovem da Eredivise.

"É parecido com Zlatan. Tem facilidade técnica, presença física e capacidade de jogar de de costas para a baliza", explica o técnico do Ajax, Peter Bosz.

E o atacante não está sozinho. A atual equipa do Ajax tem uma média de idades a rondar os 22 anos e a ambição de fazer lembrar a turma de 1995, campeã da Europa com jogadores jovens como Edgar Davids, Seedorf, Kluivert e De Boer, que se transformaram em estrelas do futebol mundial.

Esta quarta-feira ao final da tarde a bola vai rolar na Friends Arena, em Estocolmo, na Suécia, para uma final que vai tentar fintar os fantasmas do atentado de segunda-feira, na Manchester Arena, no final do concerto da artista norte-americana Ariana Grande, onde morreram 22 pessoas e 59 ficaram feridas, e marcar o seu lugar na história de uma competição que é muito mais do que a "segunda divisão" de clubes europeia.

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