A história já foi documentada, mas nem por isso nos devemos privar de contá-la uma vez mais. Da fornada de jovens talentos a despontar no Sporting, cada um terá a sua história de como veio parar a um clube de primeira liga e ajudou a formar uma equipa que inesperadamente lidera o campeonato quando muito poucos o previam. Poucos, todavia, terão tido uma ascensão como a de Matheus Nunes.

Nascido em plena Expo 98 nessa terra do futebol por excelência que é o Rio de Janeiro, Matheus Nunes tentou a sua sorte do outro lado do Atlântico. Com 13 anos, fez da Ericeira o seu destino e do Grupo Desportivo União Ericeirense a sua escola. Já maior de idade, lançou-se em experiências no Oriental, no Leicester e no Benfica B. No primeiro lesionou-se, no segundo o inédito título de campeão dos ingleses significou fecho de portas e no terceiro foi lhe dito que não tinha nível.

Perante as negas, não desistiu e voltou sempre à casa de partida, na Ericeira, onde trabalhou numa pastelaria em part-time e foi campeão distrital nas horas vagas. Daí até Alcochete foi um tirinho: a equipa técnica que o acompanhou no Oeste rumou para o Estoril e ele, já habituado a viajar, fez as malas. Mal teve tempo de as desfazer: meia época na Linha chegou para convencer o Sporting para desembolsar a duas tranches 950 mil euros pelo seu passe em 2019.

Depois de acumular minutos no ano passado — malgrado a forma como a época terminou para os leões — nesta temporada tem vindo a ser uma peça importante na rotação do meio-campo a dois de Rúben Amorim. No entanto, o mero facto de ser presença contínua no 11, por si só, não seria suficiente para garantir que Matheus Nunes seria o protagonista do derby entre o Sporting e o Benfica. É que o infortúnio de uns pode ser o sucesso de outros.

Expliquemos: Ao levar o 5º amarelo na passada jornada frente ao Boavista, João Palhinha ficou impedido de alinhar nesta partida. O caso fez correr tinta e ainda não acabou. O Sporting pediu ao Conselho de Disciplina da FPF que levantasse o castigo ao médio e este recusou. Os leões recorreram então ao Tribunal Central Administrativo do Sul para levantar uma providência cautelar para proceder à despenalização e esta foi aceite a cinco horas do jogo, apesar do órgão da federação revelar ainda antes da partida que o tribunal não 'suspendeu' o cartão amarelo a Palhinha.

Quais as consequências deste caso inédito? Não sabemos, mas desportivamente o que significou é que Palhinha, que naturalmente teria sido o titular indiscutível ao lado de João Mário, foi remetido para o banco e o seu lugar vago ocupado por, lá está, Matheus Nunes. O brasileiro não se fez rogado e, se já vinha em crescendo ao longo da época, hoje entrou em ponto rebuçado. Mas já lá vamos.

Este duelo tinha o condão de ter o seu habitual vencedor numa posição de menoridade face ao seu habitual perdedor. O Sporting já não vencia em Alvalade frente ao Benfica desde a partida em que Ricky van Wolkswinkel bateu uma grande penalidade contra Artur Moraes em abril de 2012. Passaram-se nove anos de empates e derrotas frente ao rival da Segunda Circular.

Desta vez, porém, o Benfica que se deslocava para o dérbi não era o mesmo de outros tempos. Flagelado pela inconsistência e a seis pontos da liderança, ocupada pelos leões, este apresentava-se para a equipa encarnada como sendo um jogo crucial para relançar a disputa pelo campeonato. Se, por um lado, já sabia que não podia contar com o treinador Jorge Jesus — infetado com covid-19 — ao menos partia bem melhor munida do que para o clássico de há duas semanas disputado com o Porto, em que contou com várias baixas devido à pandemia.

Jesus, apesar de ausente — sendo representado pelo seu adjunto, João de Deus —, mostrou a sua presença na inovação tática no onze. O Benfica apresentou-se com um sistema de três centrais — Otamendi, Jardel e Vertonghen — e dois alas — Grimaldo e Gilberto — ficando o meio-campo ao encargo de Weigl e Pizzi, com Darwin na frente, ladeado por Cervi e Rafa. Já o Sporting apresentou-se igual a si mesmo, com uma defesa tripartida também e onde a única alteração de monta foi a dita substituição de Palhinha por Matheus Nunes, que agarrou a oportunidade como nunca.

Com a bola a rolar, interessava perceber como é que a inovação de Jesus resultaria frente a uma tática idêntica, mas o mundo ficou privado de ver este embate em todo o seu esplendor, já que aos 11 minutos, ainda estavam as equipas a começar a carburar, os planos benfiquistas foram por água abaixo. Com Jardel a lesionar-se, Weigl foi forçado a descer para a sua posição e entrou Gabriel para assumir as funções do alemão.

Sucedendo-se os minutos, rapidamente ficou percetível que este clássico seria muito idêntico ao que os encarnados disputaram no Dragão, caracterizado mais por choque e disputas a meio campo do que propriamente rasgo e lances de perigo. O Sporting, sem conseguir ligar setores pelo centro do terreno, apostou em lançamentos longos pelas alas. Já o Benfica, tentou levar a bola em posse. Ambas as estratégias anularam-se, com ligeiro ascendente leonino

Se nos primeiros 20 minutos, o jogo esteve taco-a-taco e até foi o Benfica a dispor da melhor oportunidade  — Vertonghen subiu ao meio-campo, recuperou a bola e o lance resultou num remate de Pizzi a rasar o poste —, durante o restante período foram os leões a comandar as operações, ainda que sem concretizar.

Com uma linha defensiva muito disciplinada ora a apanhar Darwin constantemente em fora de jogo, ora a secá-lo, os leões foram ganhando os duelos a meio-campo — Matheus Nunes e, surpreendentemente, João Mário muito fortes neste capítulo — para lançar bolas longas para as costas da defesa benfiquista, tendo quase sempre por alvo um Tiago Tomás frequentemente tragado pelos possantes centrais encarnados, mas também capaz de se escapulir. Foi assim que o Sporting finalmente rematou, se bem que sempre sem perigo.

Sporting Benfica
créditos: © 2021 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

A equipa de Rúben Amorim, contudo, podia ter ido para o intervalo em vantagem. Fruto de um canto, Tiago Tomás desviou no primeiro poste e Neto, isolado ao segundo, atirou ao lado com a bola a passar em frente à baliza de Vlachodimos. De resto, n’as pas de oportunidades e o derby foi com um nulo para intervalo.

A segunda parte, todavia, foi ainda pior no que toca à qualidade do jogo jogado. Espelho dos tempos covid-19, a jogar em estádios vazios com o ruído das multidões substituído pelos gritos dos jogadores e das equipas técnicas, a partida caiu em aborrecimento, com muita intensidade a meio-campo mas poucas oportunidades de golo.

Darwin aproveitou uma bola longa logo ao apito da segunda parte, mas o ângulo apertado resultou em defesa fácil para Ádan. Para além deste lance, o Benfica praticamente só incomodou o guarda-redes espanhol com um remate à figura de Rafa. Do outro lado, uma carambola de Gabriel podia ter resultado em auto-golo não fosse Vlachodimos esticar-se todo e um remate cruzado de Palhinha à entrada da área passou rente ao poste.

À exceção destes fogachos, o jogo seguiu aos tropelões com sucessivas tentativas de ataque goradas de parte a parte. O Sporting com boa circulação de bola entre Matheus Nunes, João Mário e (mais tarde) Palhinha mas sem conseguir quebrar a linha defensiva encarnada, o Benfica a atacar com a velocidade de Rafa e a magia de Taraabt (também entrado na partida) mas ora a apostar em cruzamentos falhados ora a ter tríplice sportinguista a negar-lhe oportunidades.

Um pouco à semelhança do que aconteceu no passado fim de semana na final da Taça Libertadores, as duas equipas pareciam contentar-se com o empate à medida que os minutos se avolumavam, mas tal como a sorte de Abel Ferreira foi definida por um lance, também aqui a de Rúben ficou definida por um momento. Um lance individual de Jovane Cabral — saído do banco — desestabilizou a defesa encarnada, a bola sobrou para Pedro Porro que a centrou para saída incompleta de Vlachodimos. E quem é que se encontrava no sítio certo à hora certa? Não é difícil adivinhar, foi mesmo Matheus Nunes, que selou a vitória leonina com uma cabeçada certeira aos 92 minutos.

Só Matheus Nunes vai pagar Rúben Amorim”, disse o presidente do Sporting, Frederico Varandas, na passada temporada. A frase é bombástica e arriscada, prestando-se a infortúnios e talvez colocando excessiva pressão no jogador. Mas mesmo que o valor do médio brasileiro não chegue para cobrir o generoso montante despendido pelo seu treinador, já foi suficiente para o Sporting levar de vencida o eterno rival e passar mais uma difícil etapa na sua improvável escalada ao título. Isso, talvez, seja mesmo impagável.

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