Um “clássico” é um “clássico”, todos sabemos. Palco de redenções, de viragens sísmicas, a possibilidade de uma equipa na mó de baixo de superar o rival e, assim, receber uma lufada de alento. Quando equipas como o Benfica e o FC Porto jogam, o desenlace pode ser sempre imprevisível, seja qual for o momento de forma de qualquer uma.

Só que não o tem sido. De há quatro jogos para cá, a equipa de Sérgio Conceição tem sorrido sempre ao fim dos 90 minutos contra os encarnados. Em duas dessas ocasiões, aliás, deu título (a final da Taça de Portugal e, mais recentemente, a Supertaça), e as outras duas (especialmente a vitória no Dragão por 3-2) contribuíram para a conquista do campeonato na época passada.

As derrotas pesam. Pesam na expectativa dos adeptos, pesam na mentalidade dos jogadores, pesam na forma como o treinador prepara a equipa. Por isso mesmo, este era um jogo onde, à partida, Jorge Jesus estaria bastante mais pressionado do que Sérgio Conceição.

Pior ainda: apesar de estarem em igualdade pontual no campeonato, os números escondem os momentos de forma. Ao passo que o Porto iniciou a temporada com uma entrada em falso, mas agora segue bem oleado (chegou a esta partida com 10 vitórias consecutivas), o Benfica fez precisamente oposto, começando bem, mas demonstrando que as promessas de Jorge Jesus de que a equipa aumentaria muito de rendimento face à época transata careciam de resultados práticos.

O Benfica, porém, tinha um enorme trunfo a seu favor, tendo os encarnados defrontado o Estrela da Amadora na terça-feira para a Taça de Portugal, JJ pôde rodar a equipa e sagrar-se vencedor sem suar muito. Pelo contrário, o Porto transpirou bastante para sair da Choupana com uma vitória ao fim de 120 minutos, e ,como o Nacional não é para brincadeiras a jogar em casa, fê-lo com o habitual onze titular.

Todos estes fatores, naturalmente, foram menorizados por ambos os técnicos na antevisão a esta partida. Porque, lá está, um “clássico” é um “clássico”.

Sérgio Conceição, porém, decidiu lançar uma provocação a Jorge Jesus, dizendo que quase que podia adivinhar qual o onze que o Benfica apresentaria em campo. Não sabemos se o técnico encarnado mordeu o isco ou se simplesmente deu azo às suas famosas inovações táticas no que toca a jogos decisivos, mas o treinador portista nunca teria adivinhado o que JJ decidiria fazer.

Mantendo um onze essencialmente parecido ao que tem entrado em campo, Jesus decidiu, todavia, colocar Nuno Tavares a lateral e fazer avançar Alejandro Grimaldo, tomando a ala, uma decisão que foi tão arriscada quanto frutuosa, como se viu. De resto, Waldschmidt foi preterido para o banco — Seferovic assumiu o lugar — e Pizzi voltou a ser titular contra o Porto (não o foi na Supertaça por estar infetado com covid-19). Do lado do Porto, a grande alteração foi a ausência de Otavio, sendo o médio brasileiro a mais recente vítima da pandemia. Perante as circunstâncias, o meio campo portista alinhou com Sérgio Oliveira e Uribe, com Luís Díaz e Jesus Corona nas alas.

Ambas as equipas enfrentaram a noite fria do Porto com o conhecimento de que o Sporting tinha empatado em Alvalade. Sabendo que uma vitória reduziria a distância ao líder a um ponto apenas, ambas as equipas entraram com mais vontade do que engenho. Ou seja, a partida começou com a chamada “batalha tática”, termo que os comentadores tanto gostam de aplicar para definir aqueles jogos intensos mas pastosos, onde se contam mais as faltas do que os remates.

Ainda assim, com as duas equipas bem encaixadas, foi o Porto que foi tendo ascendente, aproximando-se mais da baliza de Vlachodimos. Já o Benfica ia tentando travar os portistas na primeira linha de construção. Alguns ensaios de perigo somaram-se nos dois lados do campo, mas foi a baliza de Marchesin a primeira a ver balançar as redes.

Lance construído pela coligação de esquerda de Jorge Jesus com apoio do centrão, Nuno Tavares cruzou bem para Seferovic que, amortecendo a bola para a frente de Grimaldo, fez uma assistência de luxo para o espanhol. O lateral, feito médio ala, mostrou sangue frio frente ao guarda-redes do Porto e colocou o Benfica na frente do marcador aos 13 minutos.

Anulada a igualdade, os dragões foram forçados a aplicar-se na frente, concedendo mais espaços aos encarnados. Os azuis e brancos, porém, conseguiram converter antes das vulnerabilidades que começaram a expor tornarem-se fatais. Num dos ataques dos dragões, Taremi ainda ficou de frente para a baliza pronto a rematar, mas Otamendi fez a dobra a tempo. No entanto, o iraniano, que já vinha a marcar há dois jogos, não seria novamente negado nesta noite.

Lance fruto de um lançamento de linha lateral, Sérgio Oliveira picou a bola por cima da defesa, Corona dominou-a na grande área e fez o que quis de Gilberto. Livre do homem que o marcava, o mexicano conseguiu localizar o ponta de lança no coração da área e este atirou para fazer o 1-1 no marcador, relançando a partida aos 27 minutos.

Foi o ponto de partida para a fase mais interessante de todo o jogo. De um lado, o Benfica quase regressava à liderança da partida quando Darwin, servido a cruzamento tenso de Pizzi, atirou ao poste quando estava no miolo da área portista. Do outro, Luis Díaz, localizado a passe de Corona, ia marcando um golo dos “seus”, cruzado em arco da esquerda para a direita, mas a oposição de Otamendi fê-lo calcular mal o ângulo.

Até ao final da primeira parte, foi o Benfica a equipa a criar mais perigo, explorando as debilidades defensivas de Nanu no lado direito. Foi por aí que os encarnados fizeram uma, duas, três incursões de seguida, com a mais perigosa a resultar num remate de Darwin que resvalou no peito de Marchesín para fora, ganhando o argentino ao uruguaio no duelo sul-americano. Sem compensação, ambas as equipas foram para o balneário.

Se na primeira parte, houve “Clássico” na forma como ambas as equipas se bateram olhos nos olhos, na segunda também houve mas no pior sentido do termo, com a dita “batalha tática” a tomar proporções épicas, tamanha foi a falta de jogo jogado em comparação à contagem choruda de faltas, casos e controvérsias. Em vez dos nervos advirem do jogo poder cair para cada lado, foram estimulados por jogadores a caírem para o chão de ambos os lados.

O mote foi dado por Pizzi, que após uma falta sobre Sérgio Oliveira, optou por chutar a bola contra o seu colega de seleção quando este se encontrava no chão, espoletando uma corrida de ambas as equipas ao encalço do árbitro Luís Godinho. Um dos jogadores que aderiu ao chamamento, Pepe, foi pedir justificações mais de perto ao colega transmontano na equipa das Quinas e acabou empurrado. Para resolver o diferendo, o juiz da partida deu um amarelo a cada um.

O lance seria o ponto de partida para o futebol em si ser relegado para segundo plano até ao final do encontro, incorrendo ambas as equipas em várias infrações (17 do Porto, 26 do Benfica, totalizando o encontro 43 faltas), com os dragões a saírem mais penalizados. Isto porque, tentando disputar um lance com Otamendi, Taremi, que tinha resgatado o Porto, ameaçou condená-lo quando fez duma falta ofensiva uma ida para o chuveiro. Luís Godinho viu no carrinho por trás ao calcanhar um lance para amarelo, mas o VAR convenceu-o de que a cor devia ser outra.

Benfica Porto
créditos: © 2021 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

No que toca ao Benfica, não só Pizzi arriscou ver o segundo amarelo — tendo sido substituído precocemente por Jorge Jesus para não ter tal destino —, como Nuno Tavares entrou com os pitons sobre Corona, mas não foi sujeito ao castigo máximo. Mais tarde na partida, uma entrada dura de Vertonghen motivou a entrada das equipas técnicas no relvado, mas também foi sujeito apenas ao cartão amarelo.

Explicado por linhas breves o capítulo disciplinar do jogo, o que restou do futebol em si? Manifestamente pouco. Antes da expulsão, o Porto, como tem sido apanágio na era Sérgio Conceição, fez de um livre um lance de golo, com Sérgio Oliveira a lançar uma bola teleguiada para Marega e o maliano, de cabeça, obrigou Vlachodimos a ir ao chão para uma grande defesa. Do outro lado, um cruzamento muito tenso de Seferovic encontrou Grimaldo (costuma ser ao contrário) e o espanhol deixou para Rafa, que atirou para defesa muito apertada de Marchesin.

No entanto, depois de Taremi ir para o balneário, só deu Benfica. O Porto, com o cansaço do jogo na Madeira e reduzido a dez, confinou no seu meio campo e baixou os blocos, só subindo em contra-ataque por um par de ocasiões. Foi assim que, curiosamente, até podia ter selado o rumo da partida logo no rescaldo da expulsão do iraniano, quando Marega só conseguiu bater de barriga na bola a passe de cabeça de Luis Díaz.

Os encarnados, todavia, apesar de tomar as ocorrências do jogo, não traduziram domínio de bola em oportunidades, sintoma do que tem sido esta versão 2.0 do Benfica de Jorge Jesus. Para a estatística ficaram um remate por cima de Everton (entretanto colocado em campo) e um lance em que Marchesin estava fora da baliza mas Seferovic bateu contra Diogo Leite.

Espelho do que foi a partida, Jorge Jesus e Sérgio Conceição deixam por momentos de parte a sua relação de amizade e terminaram o jogo em acesa discussão. Compreende-se a irritação: cansado, o Porto viu-se privado de disputar a partida quando ficou com menos um jogador; frustrado, o Benfica não conseguiu materializar o seu domínio.

No final, o resultado não satisfez nenhuma das equipas, mas também não causou danos de maior, por força do deslize sportinguista. A luta mantém-se tensa num assalto ao pódio, mas neste fim de semana houve tréguas entre todos.

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