Há finais e finais. Todas as que concernem a Taça de Portugal são importantes, pois, afinal de contas, trata-se do Jamor, da “prova rainha”, do título que, mesmo não sendo o campeonato, todos os clubes querem ganhar. O ambiente é sempre fervilhante nesta altura do ano, mas borbulha um pouco mais quando se trata de um Clássico entre Sporting CP e FC Porto, especialmente esta época.

Para os Dragões, a época acabaria numa nota alta com a conquista deste troféu, mas sem nunca deixar de ter um sabor agridoce, tendo em conta o dramático final do campeonato cuja vitória pendeu para o Benfica. Já para os Leões, tratava-se do regresso a um palco traumático, com a derrota perante o Desportivo das Aves no ano passado na final desta mesma competição ainda a pairar depois do ataque a Alcochete, mas cuja vitória pode encerrar esse capítulo.

Manhã cedo, porém, ainda era desigual o ambiente que se vivia junto das hostes dos dois clubes. No Parque 1, destinado aos adeptos portistas, ainda eram poucas as almas a ocupar o espaço. Culpe-se a distância que muitos tiveram de percorrer para aqui chegar, mas quem já aqui estava redobrava esforços para ter tudo preparado para um dia de animação. Contudo, a massa de adeptos azuis e brancos rapidamente aumentaria, fruto do contínuo chegar de carrinhas repletas, de locais como São João da Madeira, Felgueiras, Avintes e Penafiel.

Do outro lado do Estádio Nacional onde as hostes sportinguistas se encontravam, o cenário era outro. Aqui, já o cheiro a carvão, a carne grelhada e a porco no espeto invadia as narinas desde bem cedo, por força de muitos adeptos já se encontrarem avançados nos preparativos. Além dos lisboetas, fruto da proximidade da capital ao Jamor, vieram também adeptos de Évora, Braga, Vale de Cambra, Vilar Formoso e até de Inglaterra.

Fenómeno destinado a gentes de todas as idades, deu para ver um pouquinho de tudo no Jamor, desde famílias a apreciar um repasto simples de farnel em cima da toalha de piquenique — introduzindo crianças ou mesmo bebés ao mundo do futebol desde cedo — até grupos com complicadas operações de logística, contando com os seus próprios grelhadores, sistemas de som, máquinas para tirar imperiais (ou finos, já se sabe) e, nalguns casos, até televisões.

Com o jogo a ocorrer apenas durante a tarde, imperava a necessidade de passar o tempo até os 22 jogadores entrarem em campo. Enquanto uns davam toques com uma bola de futebol — “hoje somos todos titulares”, gritava um sportinguista —, outros iam-se refrescando com variadas bebidas, a mais comum sendo, naturalmente, a cerveja. Foi, no entanto, junto das grelhas, das mesas e dos tupperwares que grande parte da atenção foi sendo dada.

Com muitos a madrugarem para reservarem um lugar privilegiado, o meio da manhã transformou-se em hora de almoço. Acepipes caseiros, presunto e lombo de porco, sandes e quiches variadas, cada um trouxe aquilo que pôde para ir forrando o estômago ao longo das horas. Outros dedicaram-se à nobre arte da grelha para cozinhar salsichas, febras ou entremeadas e houve mesmo quem tenha contratado empresas para prepararem porco no espeto ou que tenha trazido um enorme tacho cheio de tripas para servir uma mesa corrida.

Para o Sporting, é “uma vitória obrigatória”, mas também pode ser “um novo capítulo”. Quanto ao Porto, “não salva a época”, mas “é para ganhar”

A forma como se faz a festa foi diferente para cada um, mas a importância dada à competição não. Quer de um lado, quer do outro, as duas massas adeptas vieram com apenas uma preocupação — ganhar —, se bem que atribuindo à vitória variados significados.

No lado sportinguista, levantava-se a questão de se esta taça ainda teria mais importância face ao que se passou no ano anterior. As opiniões, porém, dividiram-se muito.

Vinda de véspera do Porto, Ana Silva, acompanhada das amigas Mariana e Ana Maria, considerou que a vitória da taça pode “ser um novo começo, um novo capítulo do Sporting", especialmente por “limpar o que ficou por fazer o ano passado". Semelhante opinião teve Miguel, jovem de 21 anos, que veio de direta da Semana Académica de Setúbal para o Jamor. Já com uma réplica de taça na mão, o sadino considerou que “dadas as circunstâncias do que aconteceu na época passada, ganhando a Taça da Liga e ganhando a Taça de Portugal, podemos considerar que foi uma boa época”.

Essa não foi, porém, a visão de Filipe Ferreira, de 37 anos, para quem “as pessoas estão a dar demasiada ênfase a essa situação”. Vindo com um grupo de Vila Franca de Xira — que há duas décadas que faz questão de vir ao Jamor quando o Sporting disputa uma final — Filipe considera que “o ano passado foi um fracasso” e que os jogadores “deviam ter ganhado e não ganharam, independentemente do que aconteceu”, pelo que “este ano é obrigatório ganhar".

Outro vilafranquense do grupo, Luís Pereira, deixou uma nota que dificilmente podia ser contrariada por algum adepto de futebol. “Eu acho que este jogo tem uma envolvência muito mais importante do que só um jogo, dadas as circunstâncias”, até porque este é “o jogo mais bonito do ano".

No lado portista, correu a sensação que, dada a cultura do clube, este seria um título sempre para ganhar, mas que tal não seria suficiente numa temporada em que o Porto esteve em todas as frentes nacionais, especialmente a liga portuguesa, sem, porém, conseguir sagrar-se vitorioso.

Essa foi a visão de Renato Sousa, de 28 anos. Vivendo nas “Antas, mesmo à beira do [Estádio do] Dragão", para o portuense a taça de Portugal é “comer, beber, o convívio e, o mais importante, que o Porto ganhe". Ainda assim, o portista admitiu que o troféu não “vai salvar a época, porque isso era ganhar o campeonato, mas já dá para tapar os olhos, como diz o bom português".

Também António Jorge, de 39 anos, assentiu nesse sentido. Presidente da Casa do Porto de Alfândega da Fé, António trouxe 50 pessoas num autocarro diretamente da vila transmontana até ao Estádio Nacional. "É o Jamor, tínhamos de estar presentes como estamos muitas vezes no Dragão ao longo da época", diz, lembrando que esta "é mais uma romaria” o que, para si para os seus, transmontanos, “é normal", dadas as distâncias. Ainda assim, e considerando que “o Porto foi brilhante”, ver o clube “na final é o culminar de uma época em que não fomos muito felizes no campeonato mas que é sempre um orgulho portista" chegar a esta final.

Uma opinião semelhante chegou também de S. Paio de Oleiros, localidade de onde Miguel Brandão e mais 55 pessoas vieram. Presidente do núcleo do Porto desta vila, Miguel, apesar de realçar que vai a “todos os jogos, no Dragão e fora, com exceção das ilhas”, lembrou que vir “à taça rainha” valeu o sacrifício, até porque muitos dos presentes tiveram de folgar. Para si, “a taça não vai apagar o facto de se perdido o campeonato”, garante que a vitória “dá o tónico para que a próxima época seja diferente”, especialmente porque isso significará jogar contra o Benfica na Supertaça. "Jogar contra aquele clube está sempre acima de tudo", frisa.

Houve, no entanto, adeptos do Porto com uma postura mais descontraída. Para Micael Meireles, por exemplo, o seu clube tem "sempre de ganhar", mas diz que o importante da Taça "é o convívio, e se o clube ganhar, junta-se o útil ao agradável", sendo que se perder "a festa continua até casa". Natural de Paços de Ferreira, Micael veio com o restante grupo numa autocaravana alugada, um plano que se deu fruto "de uma semaninha de trabalho boa". Com sítio para ficar no Jamor durante a noite, deixa uma certeza: "quer ganhemos ou percamos, vamos ficar aqui na mesma". Em festa, claro.

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