Parece sina, mas é verdade. Em praticamente todas as fases finais que disputou, Portugal teve lesões de última hora, que obrigaram os selecionadores a procurar substitutos. Para o Qatar serão mais dois, face às ausências dos avançados do Liverpool e Wolverhampton, respetivamente.

Se uma lesão é sempre algo que atormenta um jogador, mais ainda se não lhe permite disputar a competição mais importante da modalidade, neste caso o Campeonato do Mundo de futebol. Jorge Andrade, ex-jogador de FC Porto, Corunha e Juventus, entre outros, foi um dos que sofreu com esta sina. Ficou de fora do Mundial de 2006, a pouco mais de três meses do início da prova.

A pergunta, neste caso, é muito simples. Como se lida com esta situação? "É muito complicado, mesmo. Primeiro é o choque, depois a fase de aceitação e depois vem o pior", assinalou Jorge Andrade ao SAPO24.

"[Scolari] Foi a primeira pessoa a quem liguei para transmitir a notícia. Disse-me logo: não importa, vens na mesma. E fui. Foi uma maneira de estar no Mundial, de forma diferente, mas foi muito especial. Foi mesmo a melhor experiência que tive a nível desportivo"Jorge Andrade

Pedro Neto já tinha ficado de fora do Europeu de 2020, que se disputou no ano passado devido à pandemia de Covid-19, e agora é novamente uma carta fora do baralho. Ao contrário do jogador de 22 anos, contudo, Diogo Jota era já uma certeza na habitual equipa titular de Fernando Santos. Ambos revelaram a sua tristeza após a notícia recebida, já em outubro. "A sensação é terrível, como disse, mas há sentimentos diferentes, piores. Pior que a lesão é estar em casa e sentir que podíamos estar lá a lutar por algo grandioso para o nosso país. É muito frustrante mesmo. É um sentimento de impotência indescritível", confessou o ex-internacional português.

Radamel Falcao, ex-goleador do FC Porto e um dos melhores avançados das últimas décadas, falhou o Mundial de 2014, quando, na altura, era considerado o melhor do mundo na sua posição. Um golpe duro, até porque também para ele seria o seu primeiro Campeonato do Mundo. "Lutei contra uma lesão durante muitos meses para poder recuperar, mas infelizmente não foi possível. Não é nada fácil, sobretudo por ser a primeira oportunidade para estar num Mundial e numa altura em que estava muito bem. É normal dizermos que são coisas que acontecem, mas acreditem que ficamos destruídos por dentro", disse o avançado do Rayo Vallecano.

Novas dinâmicas 

Sem Pedro Neto e especialmente Diogo Jota, um habitual titular de Fernando Santos, a turma das quinas terá de mudar alguma coisa do ponto de vista tático, para este Campeonato do Mundo. Pelo menos é essa a análise que Jorge Andrade faz, no lançamento dos jogos que aí vêm a partir de 20 de novembro.

"Sim, Portugal vai ter de mudar, isso é óbvio. O Rafael Leão deverá ser o substituto do Diogo Jota e como são dois jogadores diferentes, toda a dinâmica terá de ser também diferente. A equipa está habituada a um determinado jogador e agora terá de entrar outro. Têm características diferentes, logo forçosamente Portugal terá também de adaptar-se a isso mesmo. Não digo mudar o modelo, mas Fernando Santos vai ter de incutir outras ideias na frente de ataque", assinalou Jorge Andrade.

A ausência de Diogo Jota obrigará então a mudanças dentro das quatro linhas, mas também o balneário terá de 'aceitar' esta baixa.

"É sempre complicado para um grupo aceitar que um jogador titular não possa jogar. É algo que mexe com o grupo. Mas depois encontra-se sempre soluções para superar essa ausência. Ainda por cima num grupo como o de Portugal, que tem tantos e bons jogadores para substituir Diogo Jota", concluiu.

Atenuar a dor, física e mental, é sempre possível. No caso de Jorge Andrade, Luiz Felipe Scolari foi determinante. "Foi a primeira pessoa a quem liguei para transmitir a notícia. Ele disse-me logo: não importa, vens na mesma. E fui. Foi uma mensagem para o grupo. Tinha feito os jogos de qualificação, tinha feito o Europeu e o mister entendeu que eu era importante. Iria dar apoio aos que iam jogar no meu lugar, como o Ricardo Costa e o Fernando Meira. Aliás, o Meira, que até jogava no Estugarda na altura, acaba por fazer um grande Mundial na Alemanha. Foi uma maneira de estar no Mundial, de forma diferente, mas foi muito especial, ver aquilo tudo de outro ângulo. Foi mesmo a melhor experiência que tive a nível desportivo", referiu Jorge Andrade, que dá depois conselhos aos dois craques portugueses que não vão ao Qatar.

"É uma frustração ficar às portas de um Mundial, ainda por cima numa idade muito boa [Neto tem 22 anos e Diogo Jota 25] para poder estar em grande nível. Todos gostam de participar numa competição destas, pelo que é difícil para ambos, especialmente para o Diogo Jota, que é já um dos habituais titulares. Mas os dois são muito jovens, vão ter outras oportunidades. Seria mais complicado, por exemplo, para o Pepe, que esteve lesionado, e devido à sua idade [39] dificilmente conseguiria ir a outro. Agora é trabalhar para recuperarem rápido e pensar já na próxima grade competição. Uma ajuda dos portugueses também os ajudará. Aliás, nunca me senti tão querido pelos portugueses. Quando soube que não ia ao Mundial, recebi milhares de mensagens. Senti muito apoio, espero que eles também. Que se foquem no próximo objetivo", salientou.

"Não é nada fácil, sobretudo por ser a primeira oportunidade para estar num Mundial. É normal dizermos que são coisas que acontecem, mas acreditem que ficamos destruídos por dentro"Radamel Falcao

O apoio é, assim, fundamental para o sucesso da recuperação, mas Falcao salienta que a própria "mente" é o grande trunfo. "A força vem de dentro de nós. É um choque receber uma notícia destas. Dizerem-te: 'não vais jogar o mundial', é algo inimaginável, só algumas horas depois compreendi o que iria acontecer. Depois é trabalhar muito com a nossa mente, isso é determinante. Recuperar fisicamente é mais fácil, mentalmente é uma luta", assinalou o jogador, dando depois um conselho a quem vai ficar de fora do Qatar. "Não é fácil, mas eles têm de saber que isto é algo que pode acontecer na carreira de um jogador. O que posso dizer é que tudo passa e que o truque é regressar ainda mais forte. É começar a trabalhar na recuperação o quanto antes e trabalhar muito".

A má sina das lesões

É sina, não duvide. Se pensa que a seleção portuguesa só perdeu jogadores importantes para o Mundial2022, está enganado. Em praticamente todas as fases finais que esteve presente, a turma das quinas foi assolada por lesões.

Comecemos pela primeira, concretamente no Campeonato do Mundo de 1966, em Inglaterra. Portugal até acabou por fazer uma boa prestação, alcançando o terceiro lugar, com Eusébio ao leme dos magriços. Contudo, Fernando Mendes não pôde dar o seu contributo, pois lesionou-se durante a fase de apuramento. Seguiu-se depois o Europeu de 1984. E aí houve mesmo uma grande baixa, nomeadamente o capitão Humberto Coelho. Portugal, ainda assim, caiu apenas nas meias-finais, perante a França.

Depois houve boas notícias, concretamente três fases finais sem baixas significativas devido a problemas físicos, Mundial de 1986 [apenas Veloso ficou de fora devido a um teste anti-doping positivo] e os Europeus de 1996 e 2000.

Dois anos volvidos, no Japão e na Coreia do Sul, mais duas lesões determinantes: Simão Sabrosa e Ricardo Sá Pinto. Chegava depois o Europeu organizado por Portugal, em 2004. A equipa nacional perdeu apenas na final, diante da Grécia, numa competição onde Ricardo Quaresma ficou de fora.

Em 2006, no Mundial da Alemanha, o grande ausente foi então Jorge Andrade, um habitual titular de Felipão. Teve a 'companhia' do guarda-redes Bruno Vale. No Euro2008 foi o guardião Quim que a dias do início da competição, já em pleno estágio, lesionou-se e foi substituído, então por Nuno Espírito Santo.

O pior registo de lesões, contudo, estava guardado para o Mundial da África do Sul, em 2010. Se antes do início dos trabalhos o então selecionador Carlos Queiroz já sabia que não podia contar com Bosingwa, Silvestre Varela e Ruben Micael, em plena preparação da prova ficou sem o determinante Nani, que se lesionou a festejar um golo num treino.

Já no Europeu de 2012, na Ucrânia e Polónia, foi Danny o principal ausente. Em 2014 chegava o Mundial dos Estados Unidos, de má memória para Portugal, que não passou da fase de grupos, e para os laterais Miguel Lopes e Sílvio, que não jogaram por lesão.

O Campeonato da Europa de 2016 ficará para sempre nas nossas memórias, com Portugal a garantir o primeiro grande título. Quem não pôde levantar a taça foram Danny, o tal que havia falhado o Europeu de 2012, e Fábio Coentrão.

Meses antes do início do Mundial de 2018, na Rússia, foi a vez do habitual selecionável Danilo Pereira ficar de fora, que sofrera uma rotura do tendão de aquiles. Tal como agora, no Europeu de 2020, que só se realizou no ano passado devido à pandemia de covid-19, também Pedro Neto se lesionou e não foi opção.

Mas não são apenas portugueses que vão falhar a presença no Qatar. Por exemplo, na seleção de Inglaterra, Chilwell e Reece James estarão de baixa; Corona não viajará com a equipa do México; Paul Pogba, Kimpebe, Kamara, Maignan e Kanté são os ausentes pela França; Maxime Crepeau ficará de fora no Canadá; Wijnaldum pelos Países Baixos; Arthur Melo e Coutinho pelo Brasil; Lo Celso será o ausente do lado da Argentina; Mikel Oyarzabal não jogará pela Espanha; e Timo Werner e Marco Reus do lado dos alemães. Entre muitos outros casos menos mediáticos.

O SAPO24 é a marca de informação do Portal SAPO, detido pela MEO, que neste Mundial se associou à Amnistia Internacional numa campanha pelos direitos humanos no Qatar.

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