Quando Jakson Follmann conseguiu dar os primeiros passos sem se apoiar, sentiu-se como um bebé. Quase três meses depois do acidente, o jogador voltava a estar de pé, sozinho, com uma prótese a substituir a perna perdida no acidente aéreo da Chapecoense, e com uma nova vida pela frente. E o sobrevivente de 24 anos não pensa em deixar passar nenhum momento desta nova oportunidade."Não me caberia estar sentado num canto a chorar, a lamentar-me. Muito pelo contrário. Estou bem, estou muito feliz, e isto foi só uma coisa muito pequenininha que aconteceu", afirmou calmamente.

Depois de semanas mágicas que conduziram a Chapecoense à final da Copa Sul-Americana, o avião da equipa brasileira embateu nas montanhas de Medellin quando se dirigia para o jogo decisivo. O balanço foi trágico: 71 pessoas morreram e apenas seis sobreviveram, entre eles Follmann.

O jovem guarda-rede chegou à equipa em maio de 2016 com a esperança de dar um salto na carreira. Por cada equipa em que passava o sonho de vestir a camisola de um plantel da primeira divisão aumentava. Até que tudo mudou, ou quase tudo.

Depois do acidente "o meu maior desejo foi ficar de pé, caminhar e ir sozinho à casa de banho, escovar os dentes... Essas coisas simples que passam desapercebidas para outras pessoas", explicou com sorriso de quem se lembra bem o quão difícil foram as conquistas.

Mais atleta do que nunca

Com o corpo ainda cheio de cicatrizes e dores depois de várias operações e 56 dias de internamento, Follmann espera instruções do médico José André Carvalho, do centro de reabilitação do São Paulo, onde está a reconquistar a autonomia.

Desde que começou as sessões em fevereiro, o progresso do jovem sorridente avançou mais rápido do que o esperado. Além de amputar grande parte da perna direita, o acidente deixou o tornozelo esquerdo seriamente danificado e Follmann precisou operar as vértebras e recuperar de várias fraturas.

Mas os músculos de atleta não perderam a memória, nem ele."Quando comecei a dar os meus primeiros passos sem muletas eu queria subir e descer escadas. O meu pensamento era de fazer muitas coisas, ainda que eu saiba que não é a hora e que preciso respeitar meu corpo", conta serenamente.

O acidente mudou as suas prioridades, mas não lhe tirou as conquistas que já teve na vida."Eu quero conhecer muitas coisas. Nunca vou deixar de praticar desporto, porque sou amante de desporto. Não me vejo como menos atleta, muito pelo contrário. Eu me vejo muito bem, eu me vejo mais atleta do que antes", acrescentou rindo.

Atento aos detalhes, Follmann não se distrai quando o doutor lhe passa os exercícios de recuperação. Com a mesma concentração que durante tantos anos investiu para se tornar melhor guarda-redes. O espírito lutador poderia levá-lo aos campos como atleta paralímpico, uma ideia que quer pensar com a sua família quando chegar a sua prótese definitiva.

Aproveitando os dias em São Paulo, Follmann visitou o centro nacional de desporto adaptado, onde praticou vólei sentado e saiu cheio de ideias."Pude perceber mais uma vez que as limitações das pessoas estão na cabeça. Se estamos com a mente boa, com pensamentos positivos, podemos fazer muitas coisas", sublinhou.

E ninguém melhor que Follmann para saber disso. O otimismo tem sido o motor da recuperação e devolveu-lhe os passos, mas a luta contra as sequelas do acidente não é fácil."Quando acordei no hospital eu sabia que tinha acontecido algo de grave, porque vi que estava muito ferido. A última coisa que me lembrava era de estar bem, no avião", recordou.

Follmann voltou à consciência pouco depois da família chegar ao hospital San Vicente de Rionegro, onde ficou duas semanas internado. Durante esse período, não queria ver televisão nem saber detalhes, só queria seguir a luta pelos "irmãos" que se foram."Na Colômbia eu chorava muito, estava muito emotivo, mas quando coloquei os pés no Brasil comecei a ter forças para enfrentar as coisas", conta.

Outra vez de pé, Follmann voltou a ser dono dos próprios passos.

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