De todos os tópicos a discutir na antevisão a esta partida entre o FC Porto e a Juventus, um dos que foi incontornável ao longo da semana foi como Cristiano Ronaldo atuaria no regresso à cidade do Porto. Isto porque, recordemos, da última vez que defrontou os azuis e brancos do Dragão, apontou um daqueles golos de antologia, destinado a ter lugar cativo nos seus milhentos vídeos de highlights no Youtube.

O ano era 2009, disputando-se a segunda-mão dos quartos de final da prova depois de um empate a 2-2 bolas em Inglaterra. No centro do meio-campo portista, Ronaldo baleou a baliza de Helton aos seis minutos e encaminhou o Manchester United a chegar à final nesse ano, ganhando o prémio Puskas inaugural pelo meio.

Esta crónica, todavia, pouco ou nada irá versar sobre Ronaldo, porque muito pouco se viu o astro português em campo nesta noite, longe dessa noite de abril onde o instinto goleador ainda não estava tão apurado, mas a irreverência era outra. À parte de um lance ao cair do pano em que pediu grande penalidade, o que ficará na memória foi o momento em que o seu drible foi calma e friamente impedido por Manafá.

Não, este texto vai abordar antes a forma como Sérgio Conceição conseguiu reduzir os eneacampeões italianos a uma sombra de si mesmos, incapazes de criar perigo senão num par de ocasiões.

Antes, porém, há que fazer uma ressalva: esta Juventus que se apresentou no Dragão não só entrou em campo sem jogadores como Morata, Dybala (que, estranhamente, não chegou a sair do banco), Arthur e Juan Cuadrado (ambos lesionados), como tem vindo a mostrar uma pálida figura este ano face à hegemonia prévia. Em quarto lugar, a oito pontos do primeiro Inter de Milão, ainda que com menos um jogo, e somando um empate e uma derrota antes de viajar para Portugal, mas, mais que tudo isto, demonstrando um futebol insuficiente para o gabarito do elenco (o que não é um exclusivo deste ano, diga-se).

Não se pode dizer, porém, que o Porto viesse com muito melhor forma. Tal como a Juve, os dragões são campeões em título, mas encontram-se longe do topo e encararam esta partida com quatro empates seguidos registados, por entre polémicas desgastantes e casos de arbitragem do dúbio ao descaradamente incorreto. Para além disso, se o histórico de confrontos vale de alguma coisa, a equipa azul e branca nunca tinha vencido os bianconeri em provas oficiais, somando quatro derrotas e um empate. Até hoje.

É que Champions é Champions e Sérgio Conceição tem vindo a habituar-se a fazer sucessivas campanhas de bom nível na prova (exceptuando o descalabro do ano passado), pelo menos quando encarando a realidade do desnível entre as grandes ligas europeias e “o resto”. Aliás, este ano o FC Porto é a única equipa fora do top 5 a competir nesta fase e — depois de uma fase de grupos quase irrepreensível — hoje demonstrou porquê.

Depois do empate contra o Boavista, o técnico promoveu quatro alterações no seu onze inicial, saindo Diogo Leite, Malang Sarr, Fábio Vieira e João Mário para as entradas de Chancel Mbemba no eixo da defesa, Zaidu Sanusi para a lateral, Otávio a ocupar uma das alas e Matheus Uribe (que estava castigado) a assumir o miolo do terreno a meias com Sérgio Oliveira. Do outro lado, Andrea Pirlo processou três mudanças depois da derrota com o Nápoles, com destaque para a entrada do jovem sueco Dejan Kulusevski para a frente de ataque e para o norte-americano Weston McKennie, substituindo Federico Bernardeschi.

Na antevisão para esta partida, Pirlo admitiu que este seria um jogo “muito difícil” pelo que pediu aos seus jogadores para “ter muita paciência” e jogar “com muita cabeça". Ora, isso foi tudo o que não aconteceu mal soou o apito.

Estava a partida a passar do primeiro para o segundo minuto quando os azuis e brancos deram razão às palavras do antigo regista. Bentancur, pressionado pelos jogadores do Porto, faz um passe displicente para Szczesny, que não chega a tempo de a receber porque estava lá Taremi para fazer o primeiro dos dragões e também o seu primeiro na competição. O uruguaio ficou pessimamente na fotografia e, a avaliar pelos comentários dos adeptos da Juventus nas redes sociais, nem foi a primeira vez que tal aconteceu, mas foi a mais letal.

Com um handicap destes, qualquer estratégia que Pirlo tivesse para a partida via-se assim ferida de morte. Conceição, pelo contrário, via a marca que quis impor no jogo — pressão altíssima sobre a primeira fase de construção dos italianos  — a colher frutos quase que instantaneamente. Certo é que, com esta vantagem, o Porto ficou como queria na partida e a Juventus mostrou uma incapacidade raras vezes vista a este nível — muito por mérito dos dragões, realce-se.

É de questionar se Pirlo subestimou os dragões e fez alinhar uma equipa que, mesmo marcada por lesões, não pareceu ser o melhor onze possível. O que é certo é que o Porto agradeceu. Da primeira parte pouco há a dizer dos bianconeri que não seja exprimir desilusão, tais foram as dificuldades que apresentaram em construir jogo, inexistente pelo centro e consistindo no bombear de sucessivas bolas para as laterais, quase sempre sem perigo, anulado pela solidariedade defensiva portista. Apenas de bola parada a Juventus conseguiu criar incómodo, e mesmo assim, o lance mais vistoso — um pontapé de bicicleta de Rabiot para uma extraordinária defesa de Marchesín — nem contou, já que tinha havido antes falta ofensiva.

FC Porto vs Juventus FC
Moussa Marega festeja o 2-0. créditos: EPA/ESTELA SILVA

Do outro lado, o Porto também não incomodou assim tanto Szczesny, porque não precisou. A vencer contra um oponente teoricamente mais forte, a equipa de Sérgio Conceição atacou com critério e quase sempre após interromper o jogo italiano com a sua pressão alta. Foi assim que Sérgio Oliveira visou a baliza do guardião polaco após novo erro defensivo, com a bola a desviar num jogador da Juventus.

Ao intervalo, o FC Porto vencia. Depois do intervalo, vencia ainda mais. Mal soou o apito, os jogadores azuis e brancos projetaram-se no ataque e, após uma excelente jogada ao primeiro toque pelo corredor direito, Manafá foi por ali fora, ganhou a linha e deixou para Marega. O maliano — que se estava a distinguir mais pelo trabalho defensivo que outra coisa e que se encontrava há seis jogos sem marcar — ainda dominou a bola antes de atirar entre Szczesny e o poste.

Deja vú para a Juventus, nova demonstração de superioridade do Porto. “Strike First. Strike Hard. No Mercy” (“Bate primeiro. Bate com força. Sem misericórdia”), como defendem no dojo Cobra Kai. Com a defesa italiana aos papéis, os dragões até podiam ter feito o terceiro, não fosse a incredulidade de Sérgio Oliveira a aperceber-se que podia galgar todo o meio-campo da Juventus resultar num remate à figura do guarda-redes polaco.

Refeito do choque e apostado a correr atrás do prejuízo, Pirlo fez entrar Morata para o lugar de McKennie e, mais tarde, Kulusevski saiu para entrar Ramsey — Conceição, qual jogo de xadrez, reagiu ao tirar Marega e colocar Grujić para dar músculo ao meio-campo, sendo que já tinha substituído Otávio por Luiz Diaz — e a “Vecchia Signora” começou a disputar mais o jogo.

A partida caminhava para a reta final e de menção na segunda parte apenas um remate de Sérgio Oliveira para Szczesny e um pontapé de bicicleta de Corona “à futebol de praia”, também ele anulado tal como o lance da primeira parte. Quando parecia que o Porto ia manter a baliza inviolável por mais 90 minutos (fê-lo por cinco partidas consecutivas na Champions), surgiu o golo italiano.

A única falha do plano até aqui infalível de Conceição surgiu aos 82 minutos. Com Zaidu fora de posição, Chiesa — claramente o melhor jogador da Juventus nesta partida — apareceu solto de marcação à entrada da área depois de Rabiot receber na profundidade, lançado por Ramsey. Com precisão clínica, relançou a eliminatória para Turim.

Tal como uma velha senhora sentada no sofá a abrir os olhos quando o filme já vai nos créditos, a Juventus acordou, mas foi tarde demais. Morata ainda surgiu isolado e permitiu defesa a Marchesín, mas os italianos não conseguiram voltar a criar real perigo. Já Sérgio Conceição, com o jogo essencialmente controlado, até se deu ao luxo de lançar Francisco Conceição para se estrear na Liga dos Campeões. Houve cinismo italiano, sim, mas não se conseguiu sobrepôr à “ratice” portuguesa e o Porto vai em vantagem para a segunda-mão.

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