As criptomoedas continuam a fazer manchetes internacionais e ainda há quem acredite que pode ficar rico com elas. E até pode acontecer, mas, muito para lá do investimento especulativo, há um caminho tecnológico que está a ser trilhado e que já ninguém pode parar.

António Vilaça Pacheco tem dedicado uma boa parte do seu tempo a estudar este tema e explica ao Sapo 24 o que podem as criptomoedas e a tecnologia que lhe está associada fazer para melhorar o nosso bem-estar. Afinal, mais do que uma moeda virtual este é um novo setor económico.

Autor do bestseller "Bitcoin" e do podcast "Bitcoin Talks", agora na 11.ª temporada, o empresário traça um cenário do tanto que já percorremos e do muito que está para vir. Uma conversa sobre avanços, recuos e perigos de uma das áreas mais desafiadoras do nosso tempo.

Antes de mais, gostaria de saber como entrou neste mundo das criptomoedas e o que o cativou?

Quando ouvi falar em criptomoeda pela primeira vez só havia a bitcoin, mais nenhuma, estávamos em 2011. A pessoa que me trouxe o tema é um amigo, também empresário, alguém com quem me dou há muitos anos. Temos a tradição de almoçar todas as sextas-feiras e falar sobre coisas, entre elas investimentos financeiros.

Sempre fui mais um empreendedor do que um investidor aventureiro, sempre preferi investir em negócios que consigo prever, é muito mais interessante colocar dinheiro no trabalho e na confiança dos outros - um relatório vale o que vale, estudei gestão e auditoria, sei como se fazem relatórios, não é por aí que decido.

Nesse dia ele falou da bitcoin e, no fim daquilo, eu só via obstáculos. Porque a moeda, como a entendemos e como nos foi ensinada, é governamental e o sistema de pagamentos é bancário. Pensei: os bancos e os governos vão acabar com a bitcoin em segundos, amanhã já não existe. E destrui a teoria dele sobre isto poder vir a ser alguma coisa, o assunto ficou praticamente arrumado.

Mas, ao longo do tempo, a verdade é que o tema voltava.

E em 2014 já havia outras criptomoedas.

A questão era: então mas isto ainda aqui está? De alguma maneira, foi crescendo e deixou de ser uma coisa de geeks, de um nicho de gente alternativa, do pessoal cypherpunk e das pessoas com uma visão mais tecnológica e mais utópica do mundo, que pensou uma moeda justa e que contribui para a igualdade.

E comecei a ficar curioso. Tinha de perceber como é que aquilo não tinha ido por água abaixo e como é que aquelas pessoas, passados três ou quatro anos, já não estavam noutra coisa. Se calhar, havia ali alguma coisa de valor que eu não estava a ver. E fui estudar o tema.

"Percebi que estávamos perante uma inovação que, se calhar, não acontece muitas vezes durante séculos"

Encontrou essa "coisa de valor"?

Valor encontrei. Aliás, estava reconhecido, era uma alternativa ao que temos hoje, que pode estar errado. A moeda que temos hoje tem problemas, tem dificuldades, não funciona bem. Os governos usam a moeda para um conjunto de coisas que até pode beneficiar a sua agenda, mas prejudica a população.

A questão é: que tipo de alternativa é esta?

Podemos ter aqui uma mudança de paradigma. A bitcoin é uma coisa, mas agora temos outras criptomoedas, entrámos noutros campos. E percebi que estávamos perante uma inovação que, se calhar, não acontece muitas vezes durante séculos. E que é uma oportunidade.

Qual é, exatamente, a oportunidade?

Na verdade, estamos a falar de um novo setor económico. A primeira aplicação foi numa moeda, a bitcoin, a primeira moeda mundial. Mas é um setor totalmente diferente e disruptivo a muitos níveis em relação àquilo que tecnologicamente pode mudar no mundo.

"Podemos querer catalogar criptomoedas como o jogo da bolha, mas só por profunda ignorância"

Falar em ganhar ou perder dinheiro com bitcoin, então, é redutor?

É. Enriquecer com criptomoedas até pode ser interessante, mas é uma oportunidade. A bitcoin não nasce com função de investimento, isso surge por culpa dos media, que nunca transmitem as coisas com profundidade, pegam tudo pela rama. Escrevem que muita gente está a ganhar dinheiro porque é o que se ouve nos corredores. Mas isso não é conhecimento.

O que estamos a fazer, assim, é a reduzir este setor da economia a uma ideia de especulação, que é nada. Estamos a dizer que não precisamos de saber o que fazem ou para que servem as criptomoedas e a reduzi-las a uma aposta. Ora, casinos conhecemos há muitos anos, não há aqui inovação. Podemos querer catalogar criptomoedas como o jogo da bolha, mas só por profunda ignorância.

Não é por acaso que este é o maior setor de venture capital [capital de risco, investimento em empresas com elevado potencial de crescimento]. Não me parece que a área de venture capital, que é aquela que melhor sabe fazer dinheiro no mundo, que investiu em todas as grandes empresas, com a Google, a Apple, a Amazon ou a Uber, sejam ignorantes e estejam a entrar neste novo setor só pela especulação. O que estão a fazer é a colocar dinheiro num próximo setor da economia, numa próxima disrupção.

"A bitcoin é uma alternativa. Não digo que resolva tudo, mas resolve esta ideia de que é a moeda que financia os impérios, é a moeda que financia as guerras"

Vamos, então, começar pelo princípio. O que é a bitcoin?

Bitcoin é uma criptomoeda. Não é uma marca, não tem um proprietário, é mais uma filosofia. Há criptomoedas com outros nomes, a bitcoin é um modelo específico, um programa, como se fosse um sistema operativo. E esses sistemas operativos têm semelhanças entre si, aproveitamentos, heranças.

Voltamos à questão da alternativa: o que faz melhor e o que pode fazer pelo nosso bem-estar?

O facto de não ser uma moeda governamental tem algumas vantagens. Se olharmos para a política mundial e para a geopolítica percebemos que a moeda tem uma função nos impérios. Atrás de mim está um livro, "A Nova Ordem Mundial, Porque Falham e Triunfam as Nações" [de Ray Dalio], escrito por uma das maiores mentes do mundo na matéria, um dos homens mais respeitados do mundo sobre economia. São 600 páginas de conhecimento que leio e releio e que ajudam a perceber como é que a bitcoin é uma alternativa.

Não digo que resolva tudo. Aliás, penso que tem falhas. Mas resolve esta ideia de que é a moeda que financia os impérios, é a moeda que financia as guerras. Eventualmente, se não houvesse uma moeda de cada império, capaz de criar guerras do outro lado do mundo, vivíamos um mundo mais pacífico. Porque uma moeda é um instrumento de poder, de impor.

Todos os grandes impérios da história tiveram moedas de reserva de valor. Menos um, curiosamente, que, aos olhos do Ray Dalio, não está catalogado como império, o português. Achamos sempre que fomos um grande império no mundo, mas não estamos reconhecidos como tal. A nossa moeda nunca foi moeda de reserva mundial.

Desde a Segunda Guerra Mundial, é o império americano que controla. Com a bitcoin podemos ter uma mudança na história e uma mudança na forma como o mundo se relaciona entre si.

Vivemos décadas a achar, ingenuamente, na minha opinião, que as guerras mundiais tinham acabado, que a guerra no campo tinha acabado e que as guerras seriam agora de informação e económicas. No fundo, jogos de poder em que não seria preciso morrerem pessoas. Nunca é, nunca foi.

António Vilaça Pacheco
António Vilaça Pacheco créditos: 24

Ingenuamente porquê?

Tenho 45 anos e nunca vivi uma guerra. Quando olho para a história e faço um zoom out, muita gente viveu 45 anos sem guerra e foi exatamente então que ela aconteceu. Os períodos de paz e de guerra são cíclicos. A guerra física é cíclica, porque só podemos viver a paz depois de perceber o problema da guerra.

Já ninguém se lembrava do que custa uma guerra nas nossas vidas, por isso voltámos a achar que a guerra é aceitável, ficámos disponíveis para a guerra. Quem viveu a guerra sabe que isto é um caminho muito mau para todos, mas quem não a viveu não sabe isso. A minha vida foi toda numa perspetiva de união e globalização, "somos todos amigos".

Neste aspeto de globalização a bitcoin é muito engraçada.

Tem coisas ótimas, mas, como disse, também tem falhas. E podemos ver isso olhando para o euro.

O euro é a melhor ideia sobre isto, sobre o caminho para uma coisa comum. A Europa uniu-se e o que precisou de fazer? Criar uma moeda comum. A moeda deve ser global, circula entre todos [21 dos 27], faz da União Europeia uma geografia unificada. A bitcoin faz isto no mundo.

E é a única moeda que funciona na Internet, primeiro porque é a única moeda digital, todas as outras são físicas, segundo porque é a única moeda que não é de um país, é de todos. A bitcoin é uma moeda criada pelo povo, gerida pelo povo, decidida pelo povo e utilizada pelo povo.

As criptomoedas existem sem qualquer regulação. É uma das falhas?

A bitcoin um sistema de pagamento e é puramente digital, transfere-se a si própria no seu sistema, em blockchain, de carteira para carteira. Não precisa de nenhuma entidade e não responde a nada que tenha a ver com questões governamentais. Se o país dá para o torto, é um problema do país, não desta unidade de valor que serve para fazer trocas.

Há pessoas que recebem o seu salário em bitcoin, é legal. Tranquilo, há um recibo, pagamento de impostos, tudo. Porque algum motivo, optaram por recebem em bitcoin em vez de receber em moeda governamental.

A verdade é que é só um número. De um lado chama-se euro, do outro chama-se bitcoin. Mas tem tudo a ver com uma coisa: onde cada um acredita que está o valor. Há quem ache que é no euro, em dólares ou em bitcoins. Há quem não aceite fechar negócio em moedas de determinados países, só em dólares.

Por que motivo os governos ainda não assumiram a bitcoin ou outras criptomoedas?

Porque lhes retira poder, claro. Os governos têm uma ferramenta que se chama política monetária e que podem usar, sobretudo, para corrigir erros.

No caso de Portugal já não tem.

Portugal já não resolve problemas monetários nenhuns, delegou isso na União Europeia e no Banco Central Europeu, que, supostamente. resolve os problemas europeus. A bitcoin tem uma vantagem: ou resolve os problemas mundiais ou nenhuns. Não está aqui para satisfazer uma geografia em especial, é igual para todos. É um algoritmo que não distingue pessoas, por exemplo, se é um africano do país mais incumpridor do mundo e precisa de dinheiro para comprar sementes.

Bom, de qualquer maneira é preciso ter dinheiro para adquirir bitcoin.

As pessoas conseguem adquirir bitcoin da mesma maneira que conseguem adquirir qualquer moeda - para ter dólares tenho de os comprar com euros ou vice-versa. Ou posso fazer mineração, uma coisa que pouca gente faz, que é pagar eletricidade para processar transferências dessa rede e ser remunerado por isso em bitcoin. Portanto, a única forma de adquirir dinheiro é com trabalho ou com valor.

A diferença é que as regras da bitcoin estão escritas desde o dia em que apareceu e são sempre aquelas. As regras das moedas governamentais alteram-se, seja com a impressão de moeda, seja com medidas de quantitative easing [mitigação], seja com outras.

É importante que as pessoas percebam que quando os governos emitem ou retiram moeda do mercado estão a tentar estimular ou contrair a economia, aquecer ou arrefecer, por interesses que são cíclicos, económicos e governamentais, mas que não têm a ver com o interesse das pessoas. Nós, consumidores, temos zero interesse em ter inflação, porque estamos a perder poder de compra, estamos a empobrecer constantemente.

Estava aqui a pensar que ainda há poucos anos havia instituições públicas a pagar salários em dinheiro vivo, dentro de envelopes de papel pardo. Hoje nem vemos o dinheiro.

Isso. Mas as empresas são obrigadas a ter contas bancárias, o que para mim é questionável. Afinal, o dinheiro físico é ou não é dinheiro? Temos de nos perguntar porque é que o setor bancário é privilegiado, porque só representa despesa.

E as pessoas a título individual também porque, viu-se recentemente, quem não tem conta bancária não recebe determinadas ajudas do governo.

Temos aqui os governos de mãos dadas com os bancos, algo que não é exclusivamente português, é do mundo inteiro. Uma parceria entre governos e bancos bastante fechada em relação ao dinheiro. Uma vez mais, porque governos e bancos perceberam que dinheiro é uma forma de poder muito forte. Ter uma licença bancária não é fácil, devíamos questionar isso.

"O tempo médio de vida útil de uma moeda é 27 anos. Acreditar que nunca mais na humanidade haverá uma moeda melhor que esta não faz sentido"

Enfim, em Portugal também não é assim tão difícil, por isso assistimos a bancos a cair que nem tordos.

[Ri] Pelo mundo fora caem. Mas até isso é uma ferramenta, porque caem para poder ser absorvidos pelos maiores. É um movimento de concentração sobre o poder. Quem tem poder quer mais poder.

"A percentagem de americanos que tem bitcoin é superior a 10%. Mais de 30% dos millennials tem criptomoedas"

Mas estávamos a falar de os governos ainda não terem assumido a bitcoin...

A questão, aqui, é que a moeda nunca parou de evoluir. Acharmos que o modelo de moeda que temos hoje é definitivo é, mais uma vez, ingenuidade. O tempo médio de vida útil de uma moeda é 27 anos. São mais os países do mundo que mudaram de moeda nos últimos vinte anos do que aqueles que não mudaram. Acreditar que nunca mais na humanidade haverá uma moeda melhor que esta não faz sentido. Acredito que, provavelmente, vai aparecer uma coisa ainda melhor do que bitcoin. E bitcoin ainda não é aquilo a que chamamos mainstream [tendência dominante]. Mas, ainda assim, já conquistou mais gente do que a maioria das pessoas pensa.

Que números tem?

Por exemplo, a percentagem de americanos que tem bitcoin é superior a 10%. Se formos para gerações, mais de 30% dos millennials tem criptomoedas. Todos os jovens de 20 e poucos anos com quem falo nesta área têm ou vão comprar bitcoin.

A literacia financeira dos portugueses é baixa, estamos na cauda da Europa, segundo um estudo da União Europeia. Porque é que acha que isso acontece?

Somos os últimos em várias coisas. Não gosto de dizer mal de Portugal, acho que temos valores incríveis e que não encontro noutros lugares do mundo. Mas somos maus em indicadores como na literacia financeira ou como na leitura - e, como editor, para mim isto é uma dor. A Islândia tem pouco mais de 300 mil habitantes e cada islandês lê em média oito livros por ano.

Também não têm muito mais para fazer...

Essa é sempre a desculpa.

"É tudo futebol; há os que são do Porto, os que são do Benfica e os que são do Sporting. E para cada um os outros são sempre os maus, os que enganam, os que compram, os que corrompem. Votamos nos políticos da mesma maneira, por cores"

Era uma chalaça, percebo o que diz, mas não resisti. Embora muitos portugueses tenham uma vida assoberbada, tantas vezes com mais de um trabalho e um salário baixo. Os livros são caros e, mesmo podendo recorrer a bibliotecas, é preciso a disposição.

Porque é que os americanos jovens têm claramente o hábito da leitura - e nós achamos que são superficiais? Têm milhares de solicitações, mas também leem. A taxa média de leitura é muito superior à um português (14 livros por ano contra três a cinco). Isto é algo que me indigna.

Mas tem a ver com aquilo por que os portugueses se interessam. Acho que tem a ver com a falta de curiosidade, com uma certa arrogância. E depois há pessoas que dizem que leem sobre assuntos... na Internet. Tenho dificuldade em explicar a diferença entre uma e outra coisa, mas tem tudo a ver com profundidade. Vamos imaginar que é verdade aquele número que diz que um bom CEO [Chief Executive Officer - presidente executivo] deve ler 50 livros por ano... O que vou constatando é que aqueles que leem têm uma visão diferente do mundo daqueles que não leem. E a falta de literacia financeira vem da maneira superficial como abordamos os temas.

Sinto, não é um estudo, é a minha evidência empírica, que há demasiado interesse por telenovelas, ou seja, por futebol. Há muita política superficial, muito bate-boca, e achamos que é giro, divertido e suficiente. Somos todos muito entretidos por conversas superficiais, entretemo-nos a tomar partidos. Por isso digo que é tudo futebol; há os que são do Porto, os que são do Benfica e os que são do Sporting. E para cada um os outros são sempre os maus, os que enganam, os que compram, os que corrompem. Votamos nos políticos da mesma maneira, por cores. É tudo futebol.

Sei, e convivo com muitos estrangeiros, que os outros também têm as suas dificuldades. Mas há coisas que não são parecidas, como o nível médio de riqueza. As pessoas vivem em Portugal com muito mais dificuldade do que se vive nesses países.

Isto, a dada altura, é mais uma conversa sobre política, mas quais deviam ser os pilares da sociedade?

Os temas cruzam-se, é impossível dissociar uma coisa da outra. Quais são, diga-me?

Na minha visão seriam a educação, a segurança, a saúde. Três pilares. E o que está a acontecer em cada um? Temos os professores mal pagos e em dificuldades, temos a saúde com problemas (estamos a pagar bem e a investir?), e as polícias a mesma coisa, sentem-se elas próprias inseguras.

Investimos nos pilares verdadeiros de uma sociedade para que possa crescer a sentir-se segura, saudável e aspirar a mais, ao desenvolvimento intelectual? Estamos a desinvestir há anos, todas estas áreas estão em falência técnica, todas estão com manifestações, todas estão com as pessoas a sentirem-se mal pagas para aquilo que estão a fazer. Os professores estão desmotivados, os policias estão desmotivados, médicos e enfermeiros estão desmotivados. O que estamos a fazer?

Esta é uma boa altura para lhe perguntar em que é que este novo setor da economia pode ajudar. Que benefícios traz?

Especificamente pode ajudar muito indiretamente. Mas há aqui uma tecnologia que pode ajudar, a blockchain.

"A blockchain traz uma verdade sobre o passado que é inquestionável. Não dá para corromper o que quer que seja. A história é verdadeira perante a história"

Queria chegar aí. O que é a blockchain?

A blockchain é o sistema que serve de base à criação da bitcoin. Não foi inventado pelo inventor da bitcoin, foi inventado por dois matemáticos, mas foi aplicado pela primeira vez com grande sucesso no caso da bitcoin.

A blockchain é um sistema de registo de informação descentralizado. E esse é o interesse. Podemos ter registos numa folha de Excel, mas esses podem ser alterados. O que fica em causa é quem pode alterar, quando e porquê, com que regras. Na blockchain o que acontece é que tudo é inalterável, independentemente do meu nível de autoridade.

É uma informação que fica gravada para sempre.

Isto traz uma verdade sobre o passado que é inquestionável. Não dá para corromper o que quer que seja. A história é verdadeira perante a história. Do ponto de vista financeiro é muito interessante, porque não é possível fazer qualquer tipo de acordo que vá de alguma forma ocultar ou manipular movimentos, por exemplo. É uma cadeia de valor validada.

Esta prova de verdade, se for descentralizada, gerida pelo povo, como a bitcoin, é incorruptível. Qualquer coisa feita não pode ser desfeita. E a verificação para trás compete a quem a quiser fazer, mas está lá a verdade toda. Isto tem um valor muito grande, é uma prova de verdade que não temos em mais lado nenhum.

A bitcoin tem neste momento 15 anos, o paper académico foi lançado há 15 anos e a moeda existe desde novembro desse ano. Em 15 anos, esta prova de conceito é sólida. Portanto, a bitcoin não é só uma moeda, é um sistema de pagamento, mas é também um sistema de verdade.

A blockchain já é muito utilizada? Por quem?

Já é muito utilizada e em Portugal também. Quando recentemente dei formação no Banco de Portugal sobre a área das criptomoedas, projectei um slide um pouco brincalhão, mas que mostra a quantidade de empresas que todos conhecemos e que está a trabalhar com blockchain já hoje, da Visa à Pfizer, passando por empresas de automóveis, por causa da logística, ou de alimentação biológica, por causa da origem dos produtos. As empresas estão a investir milhões nisto, nestas cadeias de validação de verdade.

Agora, ainda não estamos no momento de trazer isto para implementar ao mais pequeno detalhe no dia-a-dia do utilizador. Mas estamos a falar de um sistema operativo que nasceu em 2014, muitas das soluções que estão a crescer dentro dele são de 2019, 2020.

Por exemplo, a área de ticketing, venda de bilhetes, quaisquer que sejam, de avião a concertos, está a ser inovada. Um bilhete pode ser eterno, um concerto pode dar imediatamente um desconto de 10% na compra do álbum xis ou numa viajem aos Estado Unidos e daí podemos criar infinitas derivações. Porque existe uma cadeia de registos, eu sou o comprador original, tenho a partir daí uma história que é controlável.

E aqui entramos na ideia dos NFT [non-fungible token (token não fungível)], uma vertente das criptomoedas, um mundo verdadeiramente digital. Até agora vivíamos numa Internet com uma moeda que não é digital, tem câmbio e tudo o resto, é um remendo: para comprar coisas na Alibaba na China compro com euros, mas o que está por trás é muito complexo. Se comprar com bitcoin é zero complexo, sai da minha carteira para a carteira deles imediatamente.

Por que motivo há tão poucas empresas a aceitar bitcoin?

Por causa da volatilidade da moeda. O preço da moeda é muito volátil e, tal como num país queremos moeda estável para garantir que não perdemos valor, aqui também, só que no caso da bitcoin o país é o mundo.

A volatilidade ainda é muito grande por culpa desta especulação que existe à volta da bitcoin, e de que falámos no início desta conversa, que tem pouco a ver com a sua função, mas muito a ver com as nossas emoções como investidores. É uma questão nossa: ora acreditamos, ora já não acreditamos.

E essa é uma questão resolúvel? Como?

É a teoria do copo de água: é muito fácil criar uma onda num copo de água, basta por lá o dedo e agitar. Se fizer o mesmo no oceano, não provoco onda nenhuma. Tem muito a ver com o número de pessoas no mundo a usar bitcoin; enquanto forem poucas e não houver um ecossistema grande o suficiente, qualquer impacto tem ondas, consequências.

Isto é um pouco uma pescadinha de rabo na boca e fica difícil: tem variação porque poucas pessoas estão a usar, poucas pessoas estão a usar porque tem variação. Precisamos de chegar a um lugar em que compreendemos qual o valor da bitcoin, e isto só acontece com informação, as pessoas saberem mais e terem mais respostas.

"É preciso perceber quais são os problemas, os desvios e tentar criar justiça, este é o papel da regulação. Mas a regulação não tem o papel de castrar a inovação"

Voltando um pouco atrás, como surgiu esse convite do Banco de Portugal, qual o propósito?

Foi no sentido de trazer informação sobre uma área que não é tradicional nos bancos, inclusive a nível regulatório. Porque o Banco de Portugal, apesar de tudo, tem uma responsabilidade. Ou seja, para haver regulamentação é preciso saber como é que isto funciona: é um ativo, um investimento, uma moeda, NFTs como a arte, como os enquadramos? Porque serem físicos ou virtuais é irrelevante.

Mas há outra questão: normalmente a regulação traz atraso. Na história vem sempre primeiro a inovação e só depois a regulamentação. Temos um exemplo recente, a Uber. É preciso perceber quais são os problemas, os desvios e tentar criar justiça, este é o papel da regulação. Mas a regulação não tem o papel de castrar a inovação. E esta é a minha preocupação - e não tenho aqui outra função que não a de alguém que gosta de estudar o assunto, acha a ideia inteligente, inovadora e entusiasmante.

"Todos temos um impostor interno: adoramos aquilo que nos parece uma boa oportunidade"

E vê pessoas a tentar perceber, nomeadamente as autoridades?

Muitas mais do que eu pensava. Não tenho nenhuma má experiência de formação, mas a do Banco de Portugal foi muito interessante. Pude ver a disponibilidade para descobrir, mesmo da parte das que querem fazer o que sempre fizeram e regular já, de querer pensar antes de fazer e estar apenas a destruir valor.

Mas há aqui uma grande verdade, neste segmento só obedece quem quer. A bitcoin não é regulável. As grandes corporações não conseguem terminar com o sistema, portanto, temos que o ir absorvendo lentamente, torná-lo aceitável e aprender a viver com ele.

Daquilo que vou percebendo da história e da história da bitcoin, vai sempre haver oportunistas. Parece que estou a puxar a brasa à minha sardinha, à formação, mas acredito mesmo nisto: as pessoas só não são enganadas quando compreendem, não é por haver leis ou regras.

Dou muitas vezes este exemplo: na terra do meu pai, zona de Penafiel, havia um senhor que vendia constantemente o mesmo terreno a várias pessoas e vendia até terrenos que não eram dele. Quando falei nisto no Banco de Portugal vieram logo vários exemplos.

Isto acontece porque todos temos um impostor interno: adoramos aquilo que nos parece uma boa oportunidade. "Está tão barato...", e pronto, já não vamos validar nada, não vamos conferir documentos. E o vendedor, o típico burlão, pressiona-nos para a venda, senão vai vender a outro. E lá vamos nós. Ganância, vontade de sermos especiais, mais espertos do que os outros. Isto acontece nas criptomoedas, com aquelas promessas de ensinar a ganhar dinheiro rapidamente.

António Vilaça Pacheco
António Vilaça Pacheco créditos: 24

Mas tudo isto dá também uma responsabilidade acrescida ao utilizador.

A bitcoin e as criptomoedas trazem para o nosso lado a responsabilidade. Temos um poder enorme, qualquer pessoa pode ser um banco. Com este sistema, podemos emprestar dinheiro, por exemplo. Os bancos também são prejudicados por aqui, porque perdem negócio. Por isso é tão importante esta coisa de "não me dês um peixe, ensina-me a pescar". Se dou um peixe, crio um dependente.

"Com alguma arrogância pergunto: quem são os nossos políticos? De onde vêm, qual o seu percurso, que exposição têm a estas áreas e como chegaram aos lugares que ocupam?"

Mas são moedas e sistemas que podem coexistir ou não?

Não penso nem defendo um mundo em que só há bitcoin e em que não há moedas governamentais nem bancos. Tem de haver as duas coisas. O que acho é que existe uma distribuição errada de poder e, havendo uma alternativa, quem quiser usá-la tem vantagens interessantes. Quem preferir confiar nos governos, nos bancos e nos serviços financeiros também deve poder fazê-lo. Como sou fã da liberdade, acredito que é bom existir concorrência.

É incrível a quantidade de empresas que estão a criar coisas que nem sonhamos. Há aqui uma inovação imensa. Fiz um e-book sobre 50 áreas que sofrem disrupção com as criptomoedas e é incrível, do ticketing à criação literária, da contabilidade às seguradoras. Porque é que hei de pagar um seguro automóvel anual quando posso pagar só os minutos que estou a conduzir?

Diria que o sistema traz uma alteração de regras e que todos têm de se ajustar. Mas é tendencialmente mais justo para todos. Também um terço dos millennials não tem conta bancária nos bancos tradicionais. E não paga comissões altíssimas e tem bancos inovadores, bonitos, cheios de cor e que fazem outras coisas que lhes interessam. Isto é concorrência.

Estamos a falar do futuro. Porque é que nunca ouvimos os nossos políticos falarem nestes temas? Na saúde continuam a discutir os médicos em vez do código genético, na educação continuamos sem discutir as novas tecnologias e nas empresas apoiam mais bancos do que fintech?

É. Com alguma arrogância pergunto: quem são os nossos políticos? De onde vêm, qual o seu percurso, que exposição têm a estas áreas e como chegaram aos lugares que ocupam? Isto vai-nos mostrando os skills [competências] que têm. Do que vou percebendo, o caminho para a política é a política. Não é a inovação.

Porquê?

Não conheço ninguém no meu núcleo de amigos com qualquer interesse em ser político. A política torna-se desinteressante por dois motivos: primeiro porque para chegar lá é preciso percorrer um caminho sem interesse para quem gosta de criar e de fazer - todo o ambiente à volta da política é de destruição. Segundo porque é mal pago, o retorno é muito baixo para aquilo de que se está a abdicar.

Basta assistir ao canal da ARTV para ver como as coisas funcionam. E honestamente, não queria aquilo para mim nem para as pessoas que trabalham na minha empresa. Tirar o tapete uns aos outros e mais um conjunto de coisas é tudo o que entendo que na minha empresa não se deve fazer.

Depois, há uma inércia nas estruturas acima que não dá autonomia a quem está no terreno. As pessoas que fazem o Orçamento do Estado têm de ser profundas e para isso têm de ir buscar operacionais. Não temos uma cadeia de decisão que inclua quem tem conhecimento das matérias.

Outro caminho seria tentar esquecer esta batalha partidária, criar uma trégua e dar um salto qualitativo ao país, porque temos tudo para isso, mas estamos só a atrasar porque continuamos a brincar sobre nada e cada vez temos menos. E continuamos a trabalhar para indicadores que são uma mentira.

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