Tendo tido a sorte de poder conhecer diferentes ecossistemas associados ao empreendedorismo — os seus empreendedores, investidores e startups — nos Estados Unidos, Brasil, China, Reino Unido, Irlanda, Alemanha, França, Espanha, Finlândia e naturalmente Portugal, chegado a África a matriz que desperta os empreendedores, na minha opinião, é a mesma: o sonho, a visão, os desafios da execução, a aprendizagem com os testes na abordagem dos produtos ao mercado, as críticas e sugestões, acesso a financiamento e escalabilidade das suas jovens empresas.

Tudo isto com uma "pequena grande" diferença: a larga maioria dos negócios surge de uma necessidade do mercado / clientes disponíveis para pagar ou comprar produtos, desde o primeiro dia. Se depois esses negócios sobrevivem à regulação (sobretudo à nova e/ou futura), se há estabilidade política e fiscal, como lidam com a competição e lobby local, este são alguns dos riscos, associados a jovens democracias com desafios complexos ao nível da educação e saúde, entre outros, mas com uma gigante oportunidade, uma demografia jovem e diversificada, e em crescimento, o que naturalmente significa que o risco é dirimido com mercados gigantes e é nesta intersecção do risco e um mar de oportunidades, que claramente os investidores estão "parados" a tentar perceber para onde e como devem ir, porque há oportunidades perdidas e muitas vezes um risco complexo de aferir ou medir, mas sobretudo interpretar, porque é culturalmente diverso e obriga a contextualização e abordagens novas.

Uma coisa me parece certa, num continente em que a banca em média tem um custo médio (juros) entre 15% a 30%, o custo do dinheiro é demasiado caro para os jovens empreendedores, mas essa é a oportunidade de entrada de investidores com experiência em trabalhar com empreendedores, porque podem potenciar e acrescentar valor a pequenos negócios, porque os jovens empresários em muitos casos o que mais precisam é de mentoria e acompanhamento para não cometerem erros que outros já fizeram em diferentes geografias, e sobretudo alavancar as suas receitas e perceber se elas se podem transformar em oportunidades individuais, locais, regionais, continentais ou globais.

Nas diferentes jovens empresas que conheci no bootcamp do Seedstars Africa houve coisas que são "normais" noutros eventos semelhantes que não ouvi, como por exemplo: "necessitamos investimento para criar comunidade e/ou gerar tracção" ou "ainda não temos receitas". São dois pequenos exemplos do que os levou a empreender: identificaram uma oportunidade que o mercado validou com vendas, sendo que o que mais precisam estes jovens é suporte para percepcionarem melhor o valor das suas ideias, produtos e planificarem execuções com a melhor rentabilidade.

Esta iniciativa, no presente, tem de ser "alavancada" por privados e por exemplo o StandardBank, patrocinador do Seedstars Africa promove iniciativas junto das suas jovens PMEs para capacitação de competências formais de negócio e informais, porque acreditam que apoiando na formação e capacitação dos seus clientes, jovens empresários, potenciam necessariamente os seus negócios e percepcionam com mais clareza a evolução da actividade dos negócios dos seus clientes. Assim, apoiam a análise de risco com informação, que suporta os desafios de liquidez para gestão de clientes e fornecedores. Esta ideia de ser a banca (e agentes privados) a promover eventos de formação e capacitação gratuita junto dos seus clientes empreendedores, na ausência de estruturas governamentais públicas, mostra como há espaço para novas abordagens aos modelos não subsidiados por fundos públicos de negócio das incubadoras e co-work's. Foi uma aprendizagem muito interessante perceber a visão neste caso de um dos maiores bancos do continente africano o StandardBank. Uma incubadora de empresas em África não é exactamente o mesmo que na Europa, por muitos motivos.

A UX é uma startup moçambicana com um track-record fantástico, entre prémios e clientes locais, regionais e globais, é obviamente um dos embaixadores de África, e o seus fundadores (Fred e Tiago) os principais culpados por eu estar em Maputo no Seedstars. Estes meninos começaram na "garagem" e hoje têm investidores, produtos e mercado, um dos exemplos que comprova que é possível, mas sobretudo que é real!

Hoje conheci um empreendedor de Kigali, o Junior Kanamugire Bicura, e a sua startup a PIKIWASH, um negócio de lavagem de motos com recurso à utilização de "uma espécie de contentor" que lava automaticamente os veículos. Um negócio real, com clientes, que necessita um investidor para poder abrir novas localizações no Rwanda e, eventualmente, franchisar o conceito noutras capitais africanas no perímetro com o mesmo desafio. Este "contentor" é o seu "segredo" e "oferta única de valor", porque é automatizado, com reciclagem de águas e mais umas características interessantes, mas o que ele vende na verdade "é tempo", porque a sua competição o faz em 3 a 4 horas, e ele presta o serviço em 30 minutos. Sendo que a maioria dos seus clientes são moto-táxis, ele optimiza o dia de trabalho em mais 2,5 horas, por isso tem clientes e mercado, e bem como crescido! Problema? A banca tem custos insuportáveis para um jovem empresário. Oportunidade? Se vos dissesse quanto é que ele precisa, iam rir-se (sobretudo na comparação com outras startups noutras geografias e as suas receitas antes de investimento).

Um dos negócios mais interessantes com os quais me cruzei foi a IzyShop, fundada pelo Titos Munhequete, em Maputo, Moçambique. Trata-se de um supermercado exclusivamente digital com entrega ao domicílio em poucas horas (média 2 horas), que em breve terá novidades ainda mais surpreendentes. Além do Titos ser um daqueles empreendedores pelos quais geramos quase automaticamente empatia, um apaixonado pelo seu negócio, com profundo conhecimento global dos desafios do e-commerce, mas com o rasgo para adaptar os desafios globais a um contexto local, regional e em breve continental. Se ele inventou a roda? Não! Mas esta roda aqui gira mais rápido, produz mais valor, porque está adaptada a um contexto e validada pelo mercado. Aprendi muito com o Titos e sei agora que este não é um caso isolado mas que há uma geração emergente de empreendedores que nos surpreenderá muito em breve, ainda mais!

Deixamos Maputo e vamos até Luanda onde o Erickson Mvezi criou e gere a TUPUCA, uma plataforma para entrega de comida de restaurantes em casa, que se prepara para alargar o âmbito do seu negócio, com métricas de conversão em mobile muito interessantes. Este exemplo fez-me pensar que há algumas startups zombies no mercado que dificilmente funcionarão em países ocidentais ou asiáticos, mas que com pequenos ajustes (culturais e funcionais) estão ready to go para alguns contextos geográficas em África, e se calhar alguns não "têm de pensar fora da caixa", mas antes "têm de pensar num novo continente". E em alguns casos que me vieram à memória, houve startups que fecharam com as quais me cruzei que agora poderiam ter uma "nova vida".

Como uma vez partilhei numa série de artigos #DiarionaChina, na China, com o WeChat, tudo se paga no dia-a-dia com o telemóvel, do café ao restaurante, compras informais, transferências de dinheiro entre pessoas, enquanto na Europa isto parece um desafio ainda por regular, implementar e massificar. Chego a África e é uma rotina banal pagar com o telemóvel e transferir dinheiro. Em Maputo, com um telemóvel pagam-se pequenas contas e transfere-se dinheiro entre pessoas, entre outras micro-crédito engenharias de investimento informais com um telemóvel. Um dos exemplos, em como a aprendizagem é sempre em ambos os sentidos para quem procura investir e para quem procura investimento.

Um lamento profundo e uma tristeza como cidadão português: o Seedstars Africa é suportado pela Embaixada dos Países Baixos em Moçambique e não houve um cônsul ou embaixador português de um país africano (já nem falo dos PALOP) associado ao maior evento de empreendedorismo em África, ainda mais, tendo como localização Maputo, um país de língua oficial portuguesa. Em Portugal temos o Primeiro-ministro a dar o exemplo ao associar-se ao empreendedorismo, como também o fazia de forma excepcional o anterior cônsul geral de Portugal em São Francisco, Nuno Mathias, ou o Pedro Leão da AICEP na Alemanha, mas em África estes exemplos de "ligação" e "inspiração" parecem ser desconhecidos pelos nossos diplomatas no continente africano. Somos Portugal, e África, por motivos que todos sabemos, ocupa um espaço muito importante da nossa história, mas deveria estar sobretudo no horizonte do nosso futuro, e outros ocupam hoje esse lugar. Moral da história: ouvi muito inglês, francês e holandês, e apenas uns simpáticos "bom dia". Se poderia ser diferente? Devia!

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