O que mais interessa é o que se passa aqui, pois claro, uma vez que se vai reflectir na nossa economia doméstica, sempre em stress, ou na nossa perspectiva do que poderia melhorar, sempre pessimista. Noutros países, decorrem outras equações, algumas bastante mais emocionantes do que as nossas, mas que, não nos afectando directamente, passam abaixo do radar.

Por exemplo, na Argélia, onde um governo outrora revolucionário se transformou numa lapa agarrada à parede onde todos esbarram.

A Argélia é um país atípico do mundo muçulmano. Foi revolucionário, de esquerda, muito antes de todos os outros e, vencidos os colonizadores franceses depois de uma guerra terrível, tornou-se um centro de apoio aos movimentos de libertação africanos e um incómodo para os colonizadores europeus, abrigando os seus opositores. Foi a Argélia que treinou e financiou, por conta própria, a génese dos movimentos de independência das colónias portuguesas, por exemplo.

Os argelinos souberam, primeiro que ninguém no continente, perceber que os impérios coloniais eram um alvo a abater, e tomaram parte activa, sem sequer recorrer ao tradicional apoio soviético.(o que não quer dizer que , em plena Guerra Fria, Moscovo não se tenha interessado pelo voluntarismo argelino, mas foi uma iniciativa muito independente. Em África, a influência soviética fazia-se sobretudo sentir através do braço cubano.) Até hoje, a Rússia é o maior fornecedor das forças armadas e a proximidade entre Moscovo e Argel passou incólume pelo período soviético, a Rússia republicana e, agora, a autocracia putiniana.

As nações que se libertaram tão valentemente do jugo colonial tiveram destinos muito diferentes. Uma coisa é fazer a revolução, outra coisa é administrar o país. E os exemplos, mais ou menos próximos,  sucederam-se.

Voltando à Argélia. Com 40 milhões de habitantes, 99% muçulmanos, era o exemplo original dum Estado governado à esquerda com um certo sucesso económico e paz interna. Houve lutas iniciais pelo poder, como sempre que a autodeterminação vence; unidos contra os franceses, os argelinos à solta tiveram de esclarecer entre eles quem mandava. Em 1962, finalmente independentes pelo Armistício de Evian – uma iniciativa de De Gaulle, que percebeu o inevitável – formam a República Democrática Popular da Argélia. O nome diz tudo, quanto à forma como se queriam governar. Ben Bella intelectual herói da resistência, tornou-se o líder sob um sistema de partido único.

Um sistema de partido único, seja azul ou vermelho, já se sabe no que dá.

Os heróis da resistência, os chamados deciseurs, formaram uma clique, le pouvoir, fechada aos cidadãos, e até mesmo aos parlamentares eleitos pelos cidadãos.

Um golpe palaciano colocou na presidência Houari Boumédiène, entre 1965 e 1978.

A riqueza nacional vem do gás e do petróleo, institucionalizados na estatal Sonatrach, e a economia continua agrária e pobre, com algumas manchas de burguesia urbana amarrada às funções do aparelho de Estado.

Em 1999 foi a vez do deciseur Abdelaziz Bouteflika. Candidato único, eleito Presidente com 74% dos votos. Os outros seis pretendentes a candidatos bem se queixaram da pressão, apoiada pelos militares, para não se adiantarem. Aliás os militares, discretos mas temíveis, são a constante da política argelina desde a independência.

Bouteflika começou bem e conseguiu apaziguar os numerosos conflitos que assolavam as zonas rurais, com grupos de “radicais” a massacrar aldeias inteiras. Depois de conceder uma amnistia que funcionou, passou a dedicar-se à reputação internacional do país. Mediou um acordo de paz entre a Eritreia e a Etiópia, tentou pacificar a cada vez menos pacífica África sub-sahariana e fez o país entrar num protocolo que se chama “Instrumento Europeu de Vizinhança” (ENI), que consiste basicamente em receber dinheiro da Europa a troco de produzir produtos agrícolas baratos para os supermercados europeus. Em 2003 até foi agraciado por Portugal, consumidor do gás argelino, com o Grande Colar da Ordem do Infante.

Em 2004, Bouteflika entrou no segundo mandato presidencial, com 83,49% dos votos, sem grande contestação e, disseram os observadores, bastante transparência. Em 2008, antes que a limitação de mandatos o impedisse, Bouteflika conseguiu alterar a constituição, mesmo a tempo de ser reeleito em 2009 com 90,24% dos votos. Em 2013 teve um acidente vascular cerebral que o deixou bastante limitado fisica e mentalmente, mas isso não o impediu de ganhar outra eleição. Uma vez que os militares garantiam le pouvoir, o presidente podia ser apenas uma figura de estilo.

Mas pouco depois apareceram os problemas. A Al Qaeda fez-se anunciar na Argélia. E os argelinos começaram a mostrar sinais de cansaço com o poder eternizado dos deciseurs. As manifestações contra a situação política fechada e estagnada têm vindo a aumentar regularmente. Finalmente, em Março deste ano, os militares perceberam que Bouteflika tinha-se tornado um problema e fizeram-no abdicar. Até encontrarem uma solução de aparência democrática e segurança garantida, colocaram como regente um deles, o general Ahmed Gaid Salah.

Salah é da geração que fez a guerra contra os franceses, e desde a independência que tinha um peso enorme no pouvoir, como Chefe do Estado Maior das forças armadas.

Assumindo a presidência a título provisório, começou imediatamente a fazer uma limpeza para cima, mandando prender um irmão de Bouteflika, dois generais e vários ex-ministros, e para baixo, reprimindo manifestações e confinando os líderes sindicais.

Durante alguns meses parecia que a situação ia acalmar, isto é, voltar tudo ao mesmo, com a mudança cosmética habitual. Mas os argelinos, aproveitando a luta pelo poder entre os deciseurs, insistiram que queriam eleições livres e transparentes, com candidatos que possibilitassem uma mudança real no país. Salah começou por rejeitar a ideia, mas, vendo que as ruas não acalmavam e não querendo colocar a tropa contra a população, prometeu as tais eleições.

Prometeu. Se iria cumprir era a dúvida até que, num momento shakespereano, teve um enfarte e morreu a 23 de Dezembro.

Esta é a situação presente. De um lado os deciseurs disputam entre si quem dará a cara pela continuação do regime; do outro, a população quer garantias de que poderá escolher à vontade o próximo presidente.

Próximo capítulo já ao virar do ano, em 2020.

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