Pouco é conhecido sobre quem desencadeou o ataque. Tudo parece apontar para um só criminoso suicida. Tudo indica que um jiadista - o ISIS já reivindicou. Manchester é conhecida como um campo de recrutamento para movimentos terroristas, foi muito divulgado o caso de duas gémeas adolescentes que há três anos foram para a Síria como noivas de terroristas do ISIS. Estima-se que nos últimos três anos uns 1500 britânicos terão deixado a comunidade onde nasceram para integrarem brigadas fundamentalistas na Síria e no Iraque.

Agora, com o recuo do território do autodenominado “califado”, muitos estão a voltar, multiplicando o risco de ações violentas como retaliação pelo recuo a que o ISIS está a ser forçado. Os cabecilhas terroristas desejarão a multiplicação de violência nestes dias que antecedem o Ramadão. É a ameaça que temos pela frente: um só diabo à solta pode concretizar um massacre. É o gigantesco desafio para os serviços de inteligência em segurança.

Em Manchester, o terrorismo visou, de modo explícito, menores. É um sinal de fraqueza.

Uma vez mais, como no fogo de artifício do 14 de julho na marginal de Nice, como na discoteca de Orlando em 13 de junho, como no Bataclan de Paris em 13 de novembro de 2015, os terroristas quiseram atacar a ideia de festa, o direito à alegria. Esta gente que ficou ruim tornou-se ajeta. Quando rimos, brincamos, bebemos, estamos a afastar as nuvens negativas. Eles tentam destroçar-nos o direito à festa. Há que lhes responder com uma implacável recusa do medo.

A matança em Manchester aconteceu a 17 dias das eleições gerais no Reino Unido. A campanha tem sido dominada pela discussão sobre cortes de apoios sociais. Tende a ser agora desviada para  as respostas ao terror, que também já tinha atacado há dois meses junto ao parlamento de Londres.

2. Voltamos a doses altas de Trump. Ao sabermos o que foi negociado com a Arábia Saudita, um contrato de 110 mil milhões de dólares em armamento e um gigantesco pacote de 380 mil milhões em outros negócios, salta a exclamação: é espantoso o que o dinheiro consegue, e como os princípios são desprezados!

Quatro atribulados meses depois de tomar posse, enquanto em Washington as suspeitas de entraves a investigação judicial sobre os enredos Russiagate estão a pôr a impulsiva presidência a arder em fogo lento com rescaldo incerto, Trump fugiu à tradição e escolheu três estados arqui-religiosos (Arábia Saudita, Israel e Santa Sé) para começar a sua primeira visita presidencial ao estrangeiro.

Começou em Riade, com os sauditas anfitriões de uma cimeira de 50 países do islão sunita e uma pirueta de Trump: somos todos amigos, estamos todos do lado do Bem, o satã é o Irão xiita que alimenta as ameaças e constitui o Mal.

Trump apareceu conciliador, amável, tolerante, com o mundo árabe sunita, falando de mensagem de “amizade, esperança e amor”. Abandonou o binómio que antes repetia e antes associava islão e ódio. Mas incendiou tudo com o Irão ao acusá-lo de modo feroz de ser o promotor do terrorismo no mundo. Trump quer assim alterar bruscamente o complexo equilíbrio entre xiitas e sunitas. Dá o braço aos árabes sunitas e atira pedras contra o Irão xiita. É uma nova fase no duelo Riade-Teerão pela hegemonia no Médio Oriente.

O discurso de Trump em Riade deveria estar preparado há vários dias. Foi pronunciado no domingo. Num dia em que precisamente em Teerão milhares de jovens celebravam na rua a esperança de mais reformas e mais evolução democrática com a clara reeleição do moderado Hassan Rouhani frente ao candidato ultraconservador apoiado por Ali Khamenei, o Supremo Líder religioso, numa eleição reconhecida como livre, fórmula desconhecida para a maioria das autocracias representadas em Riade.

Os jovens e todos os democratas do Irão tinham sentido no tempo de Obama a ilusão de estarem a encontrar no Ocidente europeu e americano a estrada para saída do fundamentalismo religioso que tanto os oprimiu mas que ia sendo esbatido com Rouhani.

A credibilidade do presidente iraniano ficou robustecida com a assinatura em 2015, com a comunidade internacional, do acordo de Viena sobre o programa nuclear. É facto que as empresas ocidentais não corresponderam tanto quanto o esperado ao vistoso acordo e o desemprego jovem segue alto no Irão. As melhores ilusões caem agora com este golpe de Trump que pretende voltar a isolar o Irão ao fustigá-lo com a acusação de “atiçar o fogo do conflito sectário e do terrorismo” e de “financiar, treinar e armar os terroristas que semeiam destruição e caos pelo mundo”.

Em Riade, Trump evitou todos os temas incómodos para a Arábia Saudita. É certo que impôs que a mulher, Melania, não cobrisse a cabeça nas presenças oficiais – boa opção. Mas não falou de democracia plural e de Direitos Humanos num país que pratica a pena de morte por decapitação, lapidação e até crucificação. Não falou dos direitos da mulher num país em que estas são servas do homem e a quem quase tudo é proibido. Ignorou que a Arábia Saudita é frequentemente acusada de financiar os santuários terroristas, através de organizações salafistas. Também nem lembrou que 15 dos 19 terroristas do 11/9/2001 eram, tal como Bin Laden, sauditas. Trump fez o discurso, considerado como principal em política externa, num país que é a versão mais intolerante e rígida do islão sunita e pouco límpido na luta contra o terrorismo.

Antes, há um ano, Trump era o candidato que proclamava odiar o islão saudita. Numa entrevista em 2016, durante a campanha, à Fox News, Trump disparou: “Quem é que no 11 de Setembro de 2001 atacou o World Trade Center? Não foram os iraquianos – foram os sauditas”. Na mesma entrevista, Trump condenou Hillary por receber fundos árabes para a Fundação Clinton, incitou-a a devolvê-los. Também no ano passado, Trump disse a Anderson Cooper, na CNN: “Os muçulmanos detestam os americanos. Estão cheios de ódio”. Anunciou a intenção de interditar temporariamente a entrada de muçulmanos em território dos EUA. Quando entrou em funções quis barrar a entrada a cidadãos de sete dos países muçulmanos.

Agora, Trump mudou. Não é surpresa porque já nos habituou a reviravoltas: o mesmo presidente que queria expulsar os muçulmanos dos EUA, umas semanas depois chega a Riade e afirma que quer reconstruir as pontes com o islão.

Salta à vista o mágico efeito dos petrodólares para um negócio de 110 mil milhões em aviões e navios de guerra, radares sofisticados e bombas de alta precisão, numa ampliação do arsenal que Riade usa para devastar, por exemplo, o pobre Iémene onde, segundo a UNICEF, uma criança morre a cada 10 minutos por efeito de malnutrição, diarreias e infecções várias decorrentes da miséria.

O que importa isso, como invocar princípios, quando há sobre a mesa um contrato de 110 mil milhões de dólares e a família real a massajar-lhe o narcisismo?

O atroz atentado desta segunda-feira em Manchester vem sugerir que o maior investimento contra o terrorismo jiadista não passa por sofisticados navios e aviões de guerra, mas por eficientes serviços de inteligência de segurança. A par da alteração das condições sociais que empurram tantos para a exclusão da comunidade, processo necessariamente lento.

A TER EM CONTA:

O triunfo, com maioria absoluta, que permite a Pedro Sanchez reconquistar a liderança do PSOE, é um feito notável que merece ser ponderado: os militantes deram-lhe a vitória sobre a candidata que era apoiada por todos os históricos do PSOE e pelo grupo Prisa/El País. Há uma geração que quer outra coisa.

O que esperar do novo Twin Peaks?

Um site escolhido hoje, este do Manchester Evening News...

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