Do meu primeiro encontro com José Saramago poderia ter resultado tudo, o pior, o melhor e o assim-assim. Resultou o melhor.

Esse encontro realizou-se nas instalações que a Caminho então ocupava em frente ao hospital dos Capuchos em Lisboa, no início de 1979, ano em que a Revolução de Abril cumpria cinco anos de idade, na sequência de um telefonema do escritor. A esperança que muitos portugueses, entre os quais Saramago, depositavam no futuro da Revolução, ainda estava viva, apesar de ter já perdido as cores vivas dos seus primeiros tempos, em que tudo parecia possível.

Os comunistas, como era o caso de Saramago, passavam um mau bocado. E ele em particular, expulso do Diário de Notícias, jornal onde trabalhara até ao golpe contrarrevolucionário de 25 de Novembro, discriminado por muitas instituições do Estado, ignorado por outras tantas privadas que cediam à pressão generalizada para deixar de fora aqueles que se tinham empenhado de forma mais consequente e mais persistente na defesa e aprofundamento daquilo a que desde então se chama “as conquistas de Abril”.

Nestas circunstâncias adversas, José Saramago voltou a dedicar-se ao trabalho de tradutor para ganhar a vida. Muitas dessas traduções eram encomendas da própria Caminho. Chegou a fazer traduções de livros muito afastados, pelo seu conteúdo, dos seus interesses literários. E entretanto, nas horas vagas ou em momentos livres que inventava, ia escrevendo. Foram para ele anos muito difíceis, marcados por discriminações, ataques caluniosos e dificuldades económicas.

Por esse tempo tinha a Caminho dois anos de vida como editora de livros e tentava sobreviver, ou melhor, não perder (muito) dinheiro publicando livros. Foram tempos difíceis os de todos os que trabalhavam na editora. As vendas dos livros que publicávamos eram reduzidas, a ideologia dominante abafava o sentido crítico e atuava com força contra as ideias de esquerda, o analfabetismo em que o país tinha vivido por quase meio século tornava o mercado livreiro demasiado exíguo. Eu e os meus camaradas que trabalhávamos na editora receávamos que o nosso trabalho na edição de livros viesse a terminar em breve. Por razões económicas sim, mas também pelo efeito negativo que o inêxito comercial exercia sobre o nosso espírito.

Numa sociedade capitalista a difusão da literatura é realizada através da venda do livro como mercadoria, pela ação de um conjunto de atores interessados nessa mercadoria como fonte de lucro. Não há outro meio de o fazer. E, assim, vendas reduzidas significam reduzida difusão, e a reduzida difusão dos livros, se se repete e se se perpetua, leva-nos a nós, editores, e também aos autores, a questionar o interesse do nosso trabalho. Não estávamos, talvez, ainda nessa situação, mas estávamos a caminhar para lá. E o José Saramago, que já uma vez tinha abandonado uma carreira de romancista quando um editor nem sequer lhe respondeu à proposta de edição de um romance com o título de Clarabóia (que só viria a ser publicado mais de meio século depois de ter permanecido esquecido, pelo editor e pelo autor, nos fundos de um armazém), estaria talvez a ponderar fazê-lo mais uma vez.

Faço esta afirmação arriscada, arriscada porque ele nunca me disse tal coisa, pelo facto de no ano seguinte, quando discutíamos o contrato de edição daquele que seria o primeiro romance do José Saramago que conhecemos — refiro-me a Levantado do Chão —, depois de termos acordado o montante a pagar por cada livro vendido, ele fez uma proposta sobre as prestações de contas, semestrais ou anuais, surpreendente para mim. Disse ele: “Não quero prestação de contas. Com a saída do livro vocês pagam-me o correspondente às vendas de metade da tiragem. Depois, se o livro se esgotar, e depois de esgotar, vocês pagam-me o restante, isto é, o correspondente à outra metade. Não quero contas, nem semestrais nem anuais, porque das duas uma: ou o livro tem êxito, vocês reimprimem-no rapidamente e as contas não fazem sentido, ou não chega a esgotar e vocês não me pagam mais nada. Não quero andar anos a receber umas contas que tenho que conferir para chegar à conclusão de que, ao fim de um ano de espera, tenho a receber o correspondente a seis ou sete exemplares vendidos. Ou estamos agora a iniciar um caminho sério e consistente, ou o melhor será ficarmos por aqui". (Vê-se aqui a presença do editor que Saramago também foi). E foi nestes termos que o contrato foi assinado, mantendo-se assim até ao último livro que o autor publicou na Caminho.

Tal era, pois, a nossa – da Caminho e de José Saramago – posição relativa de uma viagem que se prolongou por mais de 30 anos. Mas agora era preciso concretizar este entendimento com a publicação de um livro concreto, e o livro que José Saramago nos entregou foi uma peça de teatro com o título de A Noite. É sabido que é com os livros de teatro, ou melhor, as peças de teatro, que as vendas são mais reduzidas. Poucos editores publicam peças de teatro, e mesmo alguns editores estrangeiros de Saramago, incluindo os mais importantes, nunca publicaram as suas excelentes peças, e se o fizeram foi contra a vontade, porque tinha que ser, ou então incluídas em grossos volumes de obras completas. Mas como poderíamos nós recusar a publicação de A Noite, peça bem construída e bem desenvolvida, que tornava clara para todos a forma como decorreu a queda do fascismo: os movimentos militares fora de cena que chegavam regularmente ao conhecimento da redação, as reações, de aplauso ou de recusa, do pessoal, quer jornalistas quer tipógrafos, a ação coletiva de recusa da censura e a instauração, na redação e nas oficinas do jornal, de um regime que viria a ser o do Portugal livre da ditadura, o regime democrático em que vivemos desde então.

Não podíamos recusar a publicação da peça pelo facto de ser uma peça. E começámos a encará-la de um outro ponto de vista. A sua edição seria uma boa maneira de comemorarmos o quinto aniversário do 25 de Abril e, quanto às vendas, talvez as coisas não corressem tão mal como receávamos. Faríamos um esforço suplementar de promoção e tudo haveria de correr bem. E depois havia outra coisa. Na Caminho ambicionávamos conquistar para a editora romancistas portugueses que agora escreviam livremente, tanto no que se refere ao conteúdo como no que se refere à forma, surgindo novas tentativas de escrever de modo diferente, livre também sob este aspeto. Saramago tinha publicado pouco antes um romance que não desdenharíamos ter no nosso catálogo. Tratava-se do Manual de Pintura e Caligrafia. Um de nós achou mesmo este romance muito promissor, apesar de o autor ter já quase sessenta anos de idade. E assim decidimos aceitar a publicação de A Noite, trabalhando a todo o vapor para que o livro pudesse entrar nas livrarias o mais tardar em meados de Abril.

O resto da história, nos seus traços essenciais, é bem conhecido. José Saramago construiria uma obra literária de valor extraordinário, tornando-se um dos maiores e mais conhecidos e apreciados escritores de todo o mundo, alcançando um reconhecimento universal que a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1998 consagraria. E a Editorial Caminho tornar-se-ia uma das mais prestigiadas editoras portuguesas. O encontro de 1979 entre ambos foi pouco mais que casual. Mas dele resultou que Saramago encontrou uma editora que não o massacrava com contas, que abominava, e a Caminho escapou ao destino de quase todas as pequenas editoras.

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