Antes de tudo, quero fazer uma distinção: não pretendo que o Estado faça nada contra a praxe fora da Universidade. É um assunto entre pessoas adultas. Caso nenhuma lei seja violada, a boçalidade é quase um direito constitucional. O meu debate é sobre o papel da Universidade e o que ela deve deve permitir, promover ou combater nos espaços que são da sua responsabilidade. A liberdade individual não está, para mim, em causa. O que está em causa é o papel de uma determinada instituição e os valores que lhe devem estar associados. E desse ponto de vista, fica já claro, defendo a total proibição da praxe dentro do espaço universitário. Como felizmente já acontece em algumas instituições do ensino superior. E que seja substituída por uma recepção civilizada, com propósitos académicos, culturais e de convívio saudável, aos novos alunos.

A Universidade não é a tropa. De certa forma, é o oposto da tropa. Enquanto a tropa uniformiza e treina para a obediência, a Universidade tem o dever de diferenciar e promover a rebeldia. O bom aluno é o que desafia com ousadia, contesta com preparação e tenta superar com trabalho o mestre. Porque só assim a ciência e o conhecimento avançam. Sendo uma instituição pública, a Universidade também deve promover valores cívicos e democráticos. O que passa pela recusa da obediência pela obediência, de qualquer tipo de humilhação e da resignação. Uma Universidade que promove ou aceita que se promova a cultura do rebanho nega-se a si mesma.

Não é mentira quando os defensores da praxe dizem que ela é um poderoso instrumento de socialização e integração. É verdade que muitos “caloiros”, graças à praxe, ficam a conhecer mais rapidamente as pessoas e mais facilmente se integram na instituição universitária. Sendo um momento de “passagem” este processo de integração é muitíssimo importante. E é por ser tão importante que se torna especialmente grave que ele seja feito por esta via.

A praxe tem uma mensagem implícita e por vezes explícita: a melhor forma de te integrares num grupo, numa universidade, na sociedade, no trabalho, é através da tua adaptação acrítica aos outros. E a praxe treina isso: através da obediência a ordens absurdas, testam-se os limites de quem se quer integrar. Não se testam as qualidades intelectuais e morais do “caloiro”. Pelo contrário, testa-se até que ponto o aluno está disposto a prescindir delas. Até onde consegue embrutecer, apagar as suas características individuais e abrir mão do seu sentido crítico. O prazer da ordem discricionária, que é dada como uma simulação do poder sem freios, é partilhado por quem manda e por quem obedece. Com uma moral implícita: se obedeces hoje amanhã serás obedecido. É verdade que isto tem uma enorme utilidade para o futuro: não brilhar quando nos devemos apagar, nunca pôr em causa um superior mesmo que ele seja o mais imbecil da sala, cumprir ordens absurdas para depois vir a dá-las sem contestação. A integração faz-se por duas vias: a da mediocridade (que é valorizada pelos medíocres) e a da cobardia (que é valorizada pelos cobardes).

Dirão que estou a levar isto demasiado a sério. E têm toda a razão. Aquilo é, de facto, apenas teatro. Mas o teatro é aquele e não outro. A integração faz-se por esta via e não por outra. E isso é outra das coisas que as instituições académicas – todas as instituições, na realidade – devem valorizar e ensinar a valorizar: a importância do simbólico. As tradições (mesmo as inventadas recentemente)  querem dizer coisas e os seres pensantes têm o dever de questionar o que elas querem dizer. Não é por acaso que a praxe é assim e não de outra forma. Aquilo, mesmo sendo uma brincadeira, quer dizer o que parece querer dizer.

Este é o primeiro contacto que um jovem tem com uma instituição que lhe deveria dizer exatamente o oposto do que a praxe lhe diz: nunca te integres no que é medíocre, nunca tenhas medo de sobressair, não temas a diferença, não aceites a autoridade de quem não a merece, luta pelas tuas convicções, questiona sempre a prática vigente e resiste à pressão da maioria quando pensas que a maioria segue pelo caminho errado. Mesmo quando parece não ter importância, a praxe é um treino para a passividade acrítica perante o autoritarismo medíocre. Na sala de aulas, na empresa, no País. E é por isso que a Universidade não a pode tolerar. Porque ela deve representar o oposto do que a praxe representa.

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