Uma das escorregadelas no processo Lava Jato ocorreu quando o juiz Sérgio Moro concedeu um mandado de condução coerciva (que obriga o acusado a acompanhar os agentes policiais, caso se recuse a fazê-lo) para que Lula prestasse depoimento. Pelo olho jurídico, essa condução só conseguiu dividir juristas de todo o Brasil sobre a legalidade da medida. Para piorar, não rendeu uma linha para as investigações. Mas o que o olho político viu foi Lula ressurgir com mais energia do que nunca de uma letargia que o fazia acusar os golpes das descobertas sobre os desvios de verbas durante o seu governo, e o de sua sucessora, sem ter o que dizer.

A Operação Lava Jato teve início com uma investigação para desmontar um esquema de branqueamento de dinheiro, mas tornou-se uma coisa grandiosa ao se ter descoberto que esse desvio circulava por mãos poderosas do governo. Claro que um caso destas proporções faz com que as lupas dos media no Brasil e no mundo se direcionem sobre os seus protagonistas.

E é exatamente nessa altura que teve lugar mais uma das escorregadelas: quando há excesso de publicidade, o diabo, astuto, investe no exibicionismo. Assim, a irresistível atração pelas câmaras de televisão transformaram alguns dos procuradores em personagens fáceis do quotidiano dos telejornais, Deltan Dallagnol foi o primeiro a ganhar notoriedade. Nascido em 1980 na cidade paranaense de Pato Branco, comanda hoje a maior operação de investigação no país. Dallagnol deu-se bem com as câmaras, na verdade deu-se mesmo muito bem. Entre centenas de presenças nos media, foi ao Programa do Jô e, embora seja especialista em crimes contra o sistema financeiro e branqueamento de dinheiro, além de possuir mestrado em Harvard, deixou a impressão de possuir tanto conteúdo quanto um prato raso.

Isto não ajuda a fortalecer a imagem das investigações, ao contrário, abre espaço para críticas.

Em seguida houve a publicitação das gravações de ligações telefónicas interceptadas pela Polícia Federal entre Lula e Dilma. Como o Supremo Tribunal Federal (STF) mandou suspender o processo e remetê-lo àquela instância por conta do foro privilegiado da então presidente, os procuradores ‘deixaram’ sair gravações sobre as articulações para enfraquecer o Lava Jato e manter Lula longe das mãos do juiz Sérgio Moro.
Se juridicamente isso fez Moro receber uma reprimenda até dos juízes do STF, com quem se desculpou dias depois, politicamente fizeram um barulho ensurdecedor num momento em que se pedia o impeachment de Dilma. Foi uma estratégia de risco. Foi uma jogada política. Mais barulho entre juristas com críticas fervorosas.

Eis que veio a longa acusação liderada pelo próprio Dallagnol, que posicionou Lula como comandante máximo de um esquema de corrupção acusando-o formalmente por corrupção e branqueamento de dinheiro, sem apresentar uma única prova, apenas suposições e frases do tipo: “não existe outra conclusão possível” e “não dá mais para Lula dizer que não sabia de nada”.

É pouco, ou ao menos parece ser. Assim como é pouco provável que Lula se livre de uma condenação mais adiante, mas é preciso que essas investigações tenham reunido provas e evidências suficientes para tal. O juiz Sérgio Moro acolheu ontem a acusação do MPF e no seu despacho observa que o “juízo de admissibilidade de acusação não significa juízo conclusivo quanto à presença da responsabilidade criminal”. É preciso que as acusações sejam provadas.

Na verdade, durante a apresentação da acusação, Dallagnol acusou estrabismo discursivo ao não conseguir olhar a peça apenas com o olho jurídico, fê-lo várias vezes com visão política. Em alguns momentos parecia um parlamentar a discursar, tamanha a conotação política que emprestava ao caso. Desnecessário dizer que esse papel não cabe ao MPF. E mais barulho entre os juristas do país foi assim criado.

Para a sua própria sorte, Sérgio Moro não estava no Brasil no dia da acusação do MPF e ganhou tempo para decidir sobre o acolhimento da mesma. Como acolheu, devemos acreditar que vem chumbo grosso contra Lula, recheado de provas irrefutáveis às quais o juiz já teve acesso. Depois de tantos deslizes, não cometeria um erro tão grosseiro. Aqueles que estão sedentos pela prisão de Lula não conseguem entender que só na legalidade é possível fazer com que haja justiça. E se com justiça haverá contestação, sem ela seria a implantação do caos. Espera-se muito barulho pela frente, com ou sem provas.

Durante os próximos dias Lula ganhará mais espaço para fazer suas intervenções nos media. Logo após as acusações do MPF, disse-se perseguido, alegou que a classe média ressente-se das conquistas que alcançou para os pobres. Chorou em público e aproveitou para atirar com: “Provem uma corrupção minha que irei a pé (à delegacia para) ser preso”.

Por enquanto, como disse o juiz federal, Lula apenas se tornou réu, ainda não foi julgado. Mas com a possibilidade de fazer essa caminhada até a delegacia a se aproximar, Lula já deve estar a articular sua temporada no inferno das prisões.

Se isso ocorrer, o diabo que se cuide.

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