Em março de 2020, fomos confrontados com circunstâncias totalmente novas e desconhecidas, uma série de acontecimentos para os quais não estávamos preparados. Aquilo que pensávamos ser uma exceção de duas semanas ou três semanas, tornou-se um novo quotidiano que, dentro de pouco mais de um mês, completará um ano. Contudo, aquilo que muitos intitulam como “nova realidade”, eu gosto de ver apenas como uma “realidade temporária”.

Exerço funções na área do exercício e bem-estar e, tal como muitos outros trabalhadores, tive de me adaptar às novas circunstâncias, muito pela dinamização do meu trabalho através do meio digital.

Quando decidi estudar Desporto, optei por mergulhar de uma forma detalhada na ciência e na peculiaridade do funcionamento do corpo humano, em contexto de exercício. Ser Personal Trainer significa lidar com a complexidade e a individualidade de um ser. Significa adaptar o exercício à anatomia do indivíduo, que por norma é caracterizada por múltiplas variações. Significa debater-me com o quão complexo o corpo humano pode ser e desafiar-me diariamente, através do estudo e compreensão. Tudo isto com um objetivo comum: o de proporcionar o melhor que consigo a quem me procura, pessoas que entraram num ginásio e ambicionam mudança.

No meio de tudo isto, dei por mim a mergulhar naquilo que veio a demonstrar ser das componentes mais gratificantes da minha área: o contacto com diversas pessoas, diversas experiências de vida, algo que me ajudou a crescer e a olhar para a vida com uma perspetiva muito diferente. Foi a partir de aqui que me apercebi que uma aula de treino personalizado, ou personal training, é, no fundo, uma troca de experiências, um intercâmbio de energia, que é precisamente aquilo que me faz querer ser melhor todos os dias.

Seria hipócrita dizer que a troca e contacto com todos os meus alunos através de um ecrã se equipara à experiência de um treino presencial. Em nada, o treino online irá alguma vez, para mim, substituir o treino presencial. Das limitações materiais e dos desafios de logística, às correções técnicas que se revelam mais desafiantes online, nada substitui uma rotina em que me posso deslocar até a um local adequado de treino, o ginásio. Presencialmente consigo conviver com todos os meus colegas e alunos e envolver-me na energia e inspiração que me motivam diariamente.

Dar treinos online exigiu uma capacidade de adaptação que me levou à procura de alternativas constantes, de modo a tornar a experiência de treino dos meus alunos a melhor possível. Não nego limitações, especialmente em casos que necessitam de uma abordagem mais analítica, a nível de treino e máquinas ou então de equipamento específico que não se consegue encontrar em casa. Porém, este período só veio reforçar que o meu foco como Personal Trainer é, e sempre será, desenvolver um treino o mais completo possível, dentro dos recursos que estão disponíveis. Manter o movimento significa combater a tendência para o sedentarismo, causada quase automaticamente por este confinamento, e essa é a minha prioridade, neste momento.

Exercer a contração e ativação muscular é sinal de que não baixamos os braços perante as circunstâncias e de que estamos a usufruir do enorme potencial que o nosso corpo tem em criar movimento. O aumento da nossa saúde musculoesquelética reflete-se em tudo, especialmente na maneira como encaramos o dia-a-dia e nas decisões que tomamos. O treino pode tornar-se um dos maiores escapes à rotina do confinamento e do teletrabalho, um período do dia em que conseguimos cuidar de nós e dar atenção ao nosso corpo, às nossas sensações. E, agora que temos o nosso ginásio a dois passos do escritório, não há razão alguma para não usufruirmos dele. A nossa saúde mental agradece.

Aquilo que me dá mais satisfação é acabar o dia com a mesma sensação com que terminaria um dia de trabalho “normal”, no ginásio, com a sensação de missão cumprida, que, no final do treino, permite a cada aluno sentir-se melhor do que quando começou. Os suspiros de fadiga mental, nos primeiros minutos da videochamada, transformam-se, no final, em suspiros de alívio e libertação de stress, sendo que na maior parte das vezes, vêm acompanhados por um agradecimento.

Assim, apesar dos desafios e da solidão que advém da dinâmica de trabalho online, aquilo que me conforta no meio de toda esta situação pandémica, que nos obrigou à troca do presencial pelo virtual, é que, independentemente dos números que apareçam nas notícias e das imagens que nos transportam para os piores cenários do mundo, a minha missão mantém-se intacta e isenta de qualquer vírus. É uma vacina contra todas as estirpes. É garantia do movimento e da saúde preventiva de todos os meus alunos que, agora, precisam mais do que nunca.

Acredito que o cenário pós-pandémico traga mais pessoas a reconhecer os benefícios e a imprescindibilidade de uma rotina de treino consistente, cientificamente suportada, que respeite a individualidade de cada corpo e, acima de tudo, que seja divertida. Eu, e todos os meus colegas, continuamos com essa missão, seja em que formato for.

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