Em pelo menos seis dos estados (Colorado, Kansas, Mississipi, Oregon, Utah e Wisconsin), os estudantes têm direito a estar no dormitório acompanhados pela sua arma de fogo. Acontece várias vezes que uma discussão mais inflamada, até pode ser um tema de estudo, Emily Dickinson, T.S. Eliott ou as origens do universo, acompanhada por excesso de vodka ou outro álcool, subitamente acabe a tiro.

A Segunda Emenda da Constituição dos Estados Unidos da América protege o direito individual de cada cidadão à posse de armas de fogo. O espírito da lei é suposto consagrar o pleno direito à autodefesa. É uma cultura que, como tem sido evidenciado, abre caminho a que o desvio da agressividade humana para episódios de distorção comportamental violenta, mesmo em pessoas consideradas normais, desencadeie acontecimentos trágicos tratados a tiro. O acesso fácil, generalizado, a armas de fogo, está a colocar os EUA como palco de sucessivos ataques terroristas.

O massacre na semana passada na escola de Parkland, na Florida, é um ataque terrorista. Não é o terrorismo em nome de fanáticos que pretendem matar em nome de Alá, é o terrorismo de perturbados criados dentro da generalizada cultura permissiva das armas nos Estados Unidos.

A arma usada para a matança na escola de Parkland é uma AR-15. Os peritos explicam que as balas da AR-15, disparadas de perto, não entram no corpo humano. Devastam-no. A AR-15 é uma variante civil de uma arma do exército dos EUA. Há dez milhões de civis dos Estados Unidos que têm uma AR-15.

Na escola de Parkland, uma AR-15 na mão de um atirador solitário, matou 17 pessoas e feriu 15.

Também foi uma AR-15 a arma que, em dezembro de 2012, um só atirador usou para matar 26 pessoas, crianças e educadores na escola de Sandy Hook. É a pistola também usada no massacre de 49 pessoas, em junho de 2016, na discoteca Pulse, de Orlando. O mesmo tipo de arma na matança de 14 pessoas, em dezembro de 2015, em San Bernardino, mais outras 14 vidas levadas na chacina em Aurora, Colorado.

O atirador isolado que em outubro passado matou 58 pessoas e feriu 515 num hotel de Las Vegas estava equipado com 23 armas para matar, entre elas 16 AR-15.

A AK-45 pode ser comprada com grande facilidade nos Estados Unidos. Sem sequer ser necessário comprovar boa conduta. Em alguns dos estados nem é requerida a apresentação de algum documento do comprador.

Nos apenas 50 dias deste 2018 já houve 18 incidentes com disparo de tiros em escolas dos Estados Unidos. Nos últimos cinco anos estão contabilizados 290 tiroteios em escolas dos EUA.  A maior parte dos casos envolveu o atirador e apenas uma outra pessoa como alvo. Quase sempre um ajuste de contas, por exemplo na disputa de uma namorada.

Cerca de 50% dos homicídios nos EUA com armas de fogo, pistolas e espingardas, são atribuídos a pessoas com menos de 25 anos. Têm acesso à compra de armas como a AK-45.

Sucessivos estudos de opinião mostram que, apesar da cultura americana de uso de armas de fogo, a maioria da população dos EUA defende restrições no acesso às armas. Mas a maioria dos que pensam assim estão no grupo que, tradicionalmente, não vota. Os legisladores, tanto republicanos como democratas, não ousam afrontar o poderosíssimo lóbi das armas, encabeçado pela NRA, que financia muitas das campanhas políticas. Mas a cumplicidade dos políticos não poderia funcionar se não estivesse instalada entre a cidadania essa cultura das armas de fogo.

A cada matança há lamentos e orações. No tempo de Obama, o presidente chorou em Sandy Hook e quis ação firme. Mas o Congresso não deixou. Agora, Trump, o presidente que proclama querer a América grande outra vez não ousa sequer um gesto de condenação do sistema de livre acesso a armas que expõe as crianças de escolas nos EUA a sucessivos atos de terrorismo.

É legítimo perguntar: o poder da National Rifle Association (NRA) é maior do que o do presidente dos Estados Unidos da América? A América está desarmada frente ao lóbi das armas.

VALE VER:

O documento filmado de uma semana da guerra neste fevereiro, na Síria.

A vida nos campos de refugiados Rohingya.

O guião das galas do cinema de 2018 segue constante: mulheres vestidas em negro de protesto, denúncia de abusos sistemáticos, desigualdade e assédio sexual, com base no género e no poder. Foi assim nos Globos de Ouro, ontem, nos BAFTA, e é o caminho traçado para os Óscares.

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