Reynhard Sinaga violou dezenas de homens com recurso a substâncias psicoativas. No total foram contabilizados 159 crimes sexuais contra 48 homens, dos quais 136 crimes por violação. Sinaga foi condenado a prisão perpétua e, em declarações à BBC, as autoridades britânicas descrevem-no como “o violador mais prolífico da história legal britânica”. Mas quem é este Sinaga e como conseguiu violar estes homens sem haver qualquer suspeita?

A verdade é que a polícia desconhecia a existência de Sinaga até um dos homens vitimados acordar durante a violação, ter conseguido fugir e denunciá-lo. Isto aconteceu em junho de 2017 e, até esse momento, as autoridades não imaginavam a dimensão colossal do número de crimes sexuais que viriam a ser descobertos.

Este caso importa, e importa por várias razões. Uma delas é que Reynhard Sinaga tinha uma aparência e um comportamento ditos “normais”. Era bem disposto, social, amigável e, claro, não aparentava ser o violador que na verdade era, o que nos leva à pergunta: haverá alguém que se pareça com um violador? Como é que identificamos um violador?

Estas questões levam-nos à urgência de conversar abertamente sobre a realidade (assustadora, é verdade) de que alguém que conhecemos, em quem confiamos, com quem temos uma relação de amizade, ou até íntima, possa ser um abusador.

Eu conhecia Reynhard Sinaga pessoalmente. Nos anos em que vivi em Manchester cruzei-me com ele por várias ocasiões e jamais suspeitei de que fosse um violador. Nem eu, nem ninguém.

Olhando para essa época, e já na posse de todo este conhecimento fornecido pelas notícias, posso dizer que havia algo nele de excêntrico, que era um indivíduo que vivia uma vida um bocado fantasiada. Mas, sendo ele um estudante da Indonésia, julgava que talvez fosse uma estratégia para o ajudar  a sobreviver num país diferente. Em última análise, parecia ser alguém muito empenhado em arranjar um namorado. Nada fazia suspeitar da realidade oculta de que tinha comportamentos predatórios e que violava homens.

Mas que não haja dúvidas. Tal como Constable Mabs Hussain, da Polícia de Manchester, refere, Reynhard Sinaga é um homem que sabia o que fazia: assaltava homens potencialmente vulneráveis que sabia estarem sozinhos e, segundo Hussain, conversava com as potenciais vítimas, manipulava-as para irem consigo até ao seu apartamento de modo a drogá-los e depois violá-los. Este é o verdadeiro Sinaga. A versão social e afável era apenas uma capa e uma estratégia para não levantar suspeitas. E isso, ele fazia na perfeição.

O importante, para mim, é refletirmos sobre a necessidade de desconstruir algumas ideias estereotipadas da imagem do violador. Precisamos de desmistificar a crença de que é alguém com ar duvidoso, vil ou até mesmo asqueroso, que conseguimos facilmente reconhecer e identificar como perigoso.

Reynhard Sinaga não se encaixava nesta ideia, João Martins também não, Carlos Cruz também não e muitos outros também não. Estes abusadores investem o seu tempo a seduzir as pessoas com quem se cruzam para que não haja suspeitas sobre si, e para que caso alguma vítima fale e denuncie o caso, as dúvidas recaiam sobre a vítima.

E esta ideia também é central. Já li vários comentários no sentido de responsabilizar as vítimas por “aceitarem” ir até ao apartamento de Sinaga. Que não haja dúvidas: estes abusadores são altamente eficientes na sedução e na manipulação que exercem sobre as vítimas. Ignorar esta capacidade é cair no erro de menosprezar a forma como atuam e, de certo modo, permitir que continuem a abusar.

Estes comentários contribuem para o silenciamento das vítimas e para a manutenção desse mesmo silenciamento. Foram dezenas de homens que foram vitimados por Sinaga, e foi preciso haver um que quebrasse o silêncio e denunciasse o caso para que hoje tenhamos o conhecimento dos restantes crimes. Temos de refletir por que razão todos os outros foram silenciados.

Na verdade, estes homens também são silenciados pelo estigma de viverem numa sociedade que não reconhece nem aceita a possibilidade de serem vítimas de violência sexual. E este é mais um exemplo de que, enquanto coletivo, estamos a falhar em cuidar do próximo e a falhar no exercício de empatia pelas vítimas.

Não é fácil para um homem dizer que foi vítima de abuso sexual. Eu sei disso em primeira mão. Passei mais de 20 anos em silêncio até conseguir procurar apoio e sei que não estou sozinho, as evidências apontam que 1 em cada 6 homens é vítima de alguma forma de violência sexual. Os homens violados por Sinaga precisam de apoio especializado (felizmente em Manchester há a resposta dos nossos parceiros da Survivors Manchester) e precisam de uma sociedade que não os julgue. Que este seja um momento de empatia, de apoio e não de ataque aos homens vitimados.


Se foi vítima de alguma forma de violência sexual por favor contacte a associação Quebrar o Silêncio através do número 910 846 589 ou do email apoio@quebrarosilencio.pt. A Quebrar o Silêncio presta apoio especializado para homens vítimas de violência sexual. Os serviços de apoio são confidenciais e gratuitos.

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