Chegaram as vacinas e, como seria de esperar, há confusão e indignação. Pessoas que tentam passar à frente nas filas; sobras duvidosas, umas administradas a familiares, outras a quem vende folhados mistos; demissões; um plano que ninguém entende muito bem e tudo o que seria de esperar, tendo em conta a novidade e a falta de preparação de todo o mundo para lidar com a pandemia. Se em países mais evoluídos e organizados é o que é, queriam que Portugal fosse diferente? Aquele milagre da primeira volta foi sorte, agora estamos na liga em que sempre jogámos. Por falar em futebol, no Euro 2004 todos os países elogiaram a nossa capacidade de organização, dizendo que foi dos eventos desportivos mais bem organizados de sempre. Já a organização deste plano de vacinação 2021 parece estar muito aquém, o que só revela uma coisa: nós não somos maus a organizar coisas, o problema é que gostamos e empenhamo-nos mais na bola do que na saúde.

Mas o Governo tem feito boas coisas, atenção, aprovar a eutanásia foi bem jogado. Primeiro porque é um direito básico de dignidade, depois porque liberta algumas camas de hospital e, possivelmente, algumas vacinas. Aliás, muito se tem falado das sobras e o que acontece é o seguinte: lar de idosos inscreve os seus utentes e pede 30 vacinas. Passadas umas semanas a equipa de vacinação vai lá com 30 vacinas e afinal a dona Arminda e sôr Zé já não estão que tiveram de abalar e não foi para uma consulta. Por isso, parecendo que não, uma maior mortalidade é uma bênção para o Governo. Primeiro, na maioria das pessoas é gente reformada e, por isso, vai haver poupança na Segurança Social. Segundo, quanto mais gente morrer, mais rápido se vacina toda a gente porque há menos gente para vacinar. É como ir à Loja do Cidadão, tirar senha e perceber que ainda se tem 52 pessoas à frente, mas depois até anda bem porque a maioria do pessoal desistiu e foi para casa. Neste caso, as pessoas em vez de irem para casa foram para a cova ou para uma jarra bonita, mas a nossa vez chega mais cedo.

Se eu mandasse, as vacinas que sobram eram dadas à força àquelas pessoas que não acreditam em vacinas, só por pirraça. Há um terço das pessoas que diz que se recusa a ser vacinada, uns porque temem os efeitos de uma vacina que pensam ter sido feita à pressa e sem segurança, outros, mais burros, que são aqueles que não acreditam em vacinas de qualquer tipo. Portanto, um terço diz que não tomará, mas relembro que só precisamos de cerca de dois terços da população vacinada para termos imunidade de grupo. Não me parece problema, parece-me até uma bênção que assim depois quem se infectar e morrer foi por culpa própria e, à partida, com QI inferior.

Agora, uma pergunta legítima: alguém com mais de 80 anos, diagnosticado com uma doença terminal, é grupo prioritário? Não estou aqui a querer dizer que o vosso avô com cancro a quem deram 6 meses de vida em Outubro não deve ser prioritário, mas, como é que hei de escrever isto de forma delicada, se o objectivo é a imunidade de grupo pelo verão… que se saiba os mortos são imunes! Aliás, vacinar pessoas que já passaram a esperança média de vida é um bocado estranho. Eu percebo e concordo, atenção, não sou uma besta sem empatia, mas é como um gordo ter prioridade no buffet. Já passaram a média, não sejam gulosos. Por falar nisso, é sabido que a obesidade é um dos maiores factores de risco para desenvolver sintomas graves de covid. Para a lista de prioridades devíamos ter isto em conta e pessoal obeso que não emagreceu (ou pior, engordou) no último ano passava para o fim da fila. Então, tiveram um ano para reduzir o maior factor de risco e não fizeram nada? Querem que os cientistas façam o trabalho todo enquanto eles mandam vir donuts de Uber Eats porque a seguir a comerem uma pizza familiar ainda ficaram com um ratito? Não faz sentido. Isto é o mesmo que os fumadores terem prioridade na lista de espera para os transplantes de pulmões. Não senhores, só para não serem burros ficam para o da fila a seguir à malta da EMEL e dos que andam com máscara com nariz de fora.

Temos tido, também, a questão dos chico-espertos que tentam tomar a vacina antes de chegar a sua vez. Até padres da Misericórdia de Trancoso já foram vacinados, mesmo não sendo prioritários, mas isso até compreendo porque as crianças são dos principais veículos transmissores do coronavírus. Sim, era uma alusão à pedofilia na Igreja, achei melhor clarificar não fossem pensar que eu estava a falar de catequese e perder-se a piada. As pessoas ficaram todas indignadas e espantadas com estes casos e não percebo o porquê. Vivemos num mundo em que o pessoal tenta passar à frente na fila para comprar uma raspadinha e acham que ninguém iria tentar passar à frente para tomar uma vacina? Só fica surpreendido quem é ingénuo. Depois, temos deputados a sinalizar a virtude a dizer que recusam a vacina, todos estóicos! Está bem, teres 40 ou 50 anos e recusar a vacina contra uma doença que mata pouquíssimas pessoas dessa faixa etária não é bem um acto de coragem. Eu queria ver se fosse Ébola, até roubavam do braço de um velhinho. Queres rejeitar a vacina? Tudo bem, mas não precisas de anunciar ao mundo para ganhar uns votos que assim percebe-se a verdadeira intenção.

Eu já podia ter tomado a vacina à chico-esperto. Tenho conhecimentos nas mais altas esferas dos lares de terceira idade que me podiam ter colocado lá como colaborador e estava já vacinado. Não o fiz. Porquê? Porque sou uma pessoa decente ou porque tive medo de ser reconhecido e apanhado? Nunca saberemos.

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