Mário Draghi, um europeísta com intocável robustez ética e sólido pensamento e compromisso democrático, está a horas de ser investido como chefe do governo de Itália. Volta ao topo da Europa passados 15 meses depois de cessar funções como banqueiro central europeu. Emerge com pleno perfil político no ano em que Angela Merkel opta por passar à reforma e pôr fim a 15 anos como líder histórica da União Europeia. Pode vir a impor-se ele, Mario Draghi, como o novo influenciador-mor do rumo europeu.

Ele já conquistou forte crédito. Quando, em 2012, no pico da catástrofe financeira internacional e emergência absoluta com as dívidas europeias, este professor de economia que se tinha tornado banqueiro central, pronunciou aquelas três palavras “whatever it takes”, a garantir que custasse o que custasse a moeda europeia seria protegida e salva, Draghi mostrou que sendo austero em palavras tinha apurado sentido de oportunidade. Ao salvar o Euro salvou a União Europeia, que corria o risco de ficar estilhaçada. Abriu o caminho à recuperação – que continuou a ser dolorosa – dos países mais frágeis, caso de Portugal.

Aquela intervenção em julho de 2012, com recurso a uma arma de política monetária não convencional (com o vocabulário hoje generalizado, podemos chamar-lhe “bazooka”), impôs o presidente do BCE como figura forte no sistema de decisão na Europa. Ele agiu sem esperar pelos chefes de Estado e de governo. Exerceu o poder que tinha. Ao revelar-se um mobilizador, também mostrou instinto político.

Para além de europeísta, em que espaço político está Mario Draghi? Fizeram-lhe essa pergunta quando em 2005 foi nomeado governador do Banco de Itália. Draghi, ao responder “grazie, faccio da solo”, colocou-se como decisor independente, fora de qualquer cor.

Mas em todos os discursos dele há uma marca social. Vai para um ano, em 25 de março de 2020, em entrevista ao Financial Times, logo avisou para a catástrofe económica e social que acompanharia o desastre sanitário da Covid-19 : “Esta pandemia é uma tragédia humana com proporções potencialmente bíblicas.” Acrescentou: “A resposta que teremos de lhe dar comporta necessário significativo aumento da dívida pública”. No ainda muito pouco que se sabe sobre o programa do governo Draghi para Itália, são conhecidas duas prioridades: tratar os efeitos sanitários da pandemia e garantir a coesão social. Também está assumido que aplicar com boa estratégia os 209 mil milhões do colossal apoio europeu à recuperação italiana, protegendo-o do voraz apetite de interesses ligados aos partidos.

O académico Alberto Curzio, economista que trabalhou com Draghi, classifica-o como “figura exemplar do solidarismo liberal ou do liberalismo social ou do liberal-socialismo”. Não há um perfil fechado mas um espaço que não deixa dúvidas sobre o compromisso ao mesmo tempo social e liberal.

Draghi nunca deu algum sinal de proximidade com algum dos partidos na variada cena política italiana. Ele acaba de ouvir os líderes de todos os principais líderes parlamentares e todos declararam apoiá-lo para chefe do governo. A surpresa é o soberanista e anti-europeísta Matteo Salvini apoiar o governo Draghi e querer a Liga a integrar esse próximo governo que aparece como de “unidade nacional”.

Vemos os políticos a abdicarem do sistema que têm cultivado e a entregarem-se à escolha técnica.

A semana começa com a distribuição de pastas ainda em aberto. Draghi aponta para um governo com 20 a 24 ministros. O núcleo duro da Economia, Justiça e Administração Interna é escolha dele. Vai escolher gente de perfil técnico, fora dos partidos. Para a Justiça, a apontada é a primeira mulher que presidiu ao Tribunal Constitucional italiano, Marta Cartabia. Aos partidos é proposto que apresentem nomes que ele tratará de selecionar e distribuir. Está assente uma base de participações que corresponde à representação no parlamento. No caso de gabinete com 24 ministros, três do 5 Estrelas, do Partido Democrático e da Liga, dois do Forza Italia e um de cada um de três partidos mais pequenos.

Está apontado que, em princípio, os líderes partidários não vão para o governo. É medida preventiva para evitar a previsível algazarra entre, por exemplo, Zingaretti (PD) e Salvini (Liga). Mas Draghi quer que estejam figuras de topo dos partidos.

Vai ficar à prova a capacidade de Draghi para conseguir equilíbrio num conselho de ministros com leque muito aberto, da esquerda à direita, até com presenças radicais.

Também fica para se ver que consistência tem a aparente conversão, ou pelo menos adaptação, do anti-europeísta Salvini à exigência europeísta de Draghi.

É seguro que a liderança de Super Mario (Draghi) vai ser forte em competência técnica. Fica para validar a sensibilidade política. Passa por aqui a chave para se impor como líder na Europa, no pos-Merkel.

A TER EM CONTA:

O exército de Myanamar/Birmânia age há 60 anos com doutrina ideológico-militar que o coloca como um Estado-Maior que comanda tudo no Estado. Desta vez, o povo resiste. Os três dedos levantados são símbolo da resistência.
A Catalunha vota no próximo domingo para escolher o parlamento do qual vai sair o próximo governo autonómico com sede em Barcelona. As sondagens anunciam duas possíveis maiorias: a independentista, em torno de eixo identitário, ou a de esquerda, em torno do eixo ideológico. A Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), que sustenta o governo das esquerdas em Madrid, está nos dois cenários. Se a maioria for com Junts per Catalunya, é de esperar radicalização independentista; se for com o PSC, há possibilidades de diálogo. Seja qual for o resultado do voto catalão, repercute-se por toda a Espanha.
A missão de fazer reportagem sobre manifestações na Rússia de Putin.

Um outro lockdown imposto a parte da Europa, este, efeito do nevão: aqui e aqui.

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