Quando março chegou, trazendo com ele a primavera, já com a pandemia em pano de fundo, a humanidade recolheu e parecia estar unida para a luta que só poderia ser feita em conjunto. Palmas às janelas para os profissionais de saúde, agradecendo-lhes a coragem e vocação para estarem na linha da frente contra um vírus ainda mais desconhecido do que agora; arco-íris às janelas de casa, hashtags nas janelas dos browsers, para nos motivarmos a seguir em frente, mesmo que isso implicasse parar com tudo o resto. Por momentos, ia ficar tudo bem, íamos valorizar o que realmente importa na vida; íamos deixar de ser mesquinhos com coisas insignificantes que à luz de uma ameaça à humanidade e ao nosso estilo de vida, ainda mais o pareciam. “Esta pandemia vai unir-nos enquanto humanidade” diziam muitos, até eu acreditei, por momentos deixei o meu cinismo de lado e tive esperança na nossa espécie, mas foi palermice. Vai ficar tudo bem, mas é o catano.

Basta abrir o telejornal e as redes sociais para vermos que a nova normalidade pode ter coisas novas como máscaras e distanciamento social, mas tem coisas antigas como o ódio de sempre. Por cá temos discussões norte vs sul sobre quem tem mais infectados, norte vs tvi, actores invejosos vs Bruno Nogueira, o André Ventura recomeça a ser tema, seja a odiar pessoas, seja a ser odiado por outras, inclusivamente tem um beef com o Agir o que parecia impossível há uns temos. Tudo isto e o futebol ainda agora recomeçou. Lá fora temos os protestos e motins; população vs polícia, população vs população, esquerda vs direita, cima vs baixo. A nova normalidade é normal, no final de contas.

Vai ficar tudo bem, está bem, está. Primeiro, sempre achei esse slogan uma desconsideração para quem estava a ver morrer familiares ou a ver os negócios onde investiu a irem à falência sem hipótese de os salvar. Vai ficar tudo bem para alguns, tudo mais ou menos para muitos e tudo na merda para outros tantos.

Isto não vai lá com pandemia. Isto só vai lá com uma ameaça externa, mas não pode ser um asteroide que isso ia haver mais motins e tudo a violar-se nas ruas em desespero. Isto tinha de ser uma ameaça extraterrestre que nos colocasse a todos no mesmo saco, estilo recebermos uma mensagem de uma nave a caminho da terra:

- Daqui fala Zorg, o capitão da raça Biugo do planeta Farinhequens e vamos invadir a terra porque os humanos são todos uma cambada de labregos.

Aí, talvez, nos uníssemos e pensássemos em “nós” enquanto espécie: “Nós? Labregos? Vais ver do que os humanos são capazes, vais engolir essas palavras à chapada, ó Zorg”. Depois, éramos exterminados porque se uma espécie alienígena tem capacidade de chegar ao nosso planeta, vinda de outros sistemas solares seria como um bebé a lutar contra um campeão de MMA. É KO nos primeiros segundos do primeiro round e bastante sangrento. Mas acho que só assim ficaríamos mais unidos enquanto espécie, tal como quando vem um estrangeiro dizer mal de Portugal, conseguimo-nos unir em torno desse inimigo em comum que no fundo só disse aquilo que nós dizemos todos os dias no café, mas uma coisa é dizermos que o nosso filho é feio, outra é vir o vizinho do lado constatar o mesmo, é logo para andar à bulha.

Por isso, por muito que me esforce, a melhor piada de 2020 já foi feita: isto da pandemia ainda nos vai fazer ficar mais unidos enquanto humanidade. A melhor piada até agora e está a envelhecer bem.

Para ver: Documentário sobre Jeffrey Epstein, na Netflix

Para comer: Restaurante Mexicano Izcalli, Lisboa

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