Não é uma maldição dos deuses nem, tampouco, um mistério que os cientistas não tenham descortinado. Até ao momento, só foram registadas duas erupções límnicas em todo o mundo, ambas em África, embora muitas outras possam ter ocorrido sem terem sido documentadas. Basicamente, este tipo de erupção, também conhecido como o fenómeno do “lago explosivo”, ocorre quando o dióxido de carbono (CO2) armazenado nas profundezas de um lago irrompe da água e liberta-se à superfície, asfixiando toda a vida animal que se encontra nas suas imediações: seres humanos, gado e outros animais selvagens, nada escapa.

Em 1984, na região Noroeste dos Camarões, uma nuvem de gás libertou-se do lago Monoun e asfixiou até à morte 37 pessoas que viviam nas redondezas. O pior foi o que aconteceu dois anos depois, no vizinho lago Nyos, quando um desastre natural semelhante matou 1.746 aldeões e cerca de 3 mil animais, devido a uma nuvem de 80 milhões de metros cúbicos de CO2 que escapou das suas águas profundas.

Felizmente, as duas massas de água doce são constantemente monitorizadas nos dias de hoje, existindo vários tubos que libertam gradualmente o gás para a atmosfera (sem qualquer perigo para a vida animal), evitando, assim, que se acumulem grandes quantidades com o passar do tempo. O risco, portanto, é que o CO2 se liberte todo de uma só vez, algo que, por agora, é muito improvável voltar a acontecer.

O problema é que existe um lago 1600 vezes maior do que o Nyos que tem a capacidade para acumular uma gigantesca quantidade de gás. Referimo-nos ao lago Kivu, situado entre a República Democrática do Congo e o Ruanda. De acordo com o biólogo George Kling, da Universidade do Michigan, nos Estado Unidos, em declarações à revista OZY, estamos perante a “maior bomba-relógio do mundo”. O nível elevado de gases aí existentes, a crer no investigador, é suficiente para matar cerca de dois milhões de pessoas ao longo das suas margens.

O que provoca todo este perigo? A Coca-Cola explica!

A actividade vulcânica é a grande responsável pelos dois desastres que ocorreram nos Camarões, sendo que o rifte Albertina, uma falha geológica que atravessa a região do lago Kivu, torna-a naturalmente propícia a este tipo de actividade. Daí o perigo.

No lago Nyos, a tragédia começou 400 anos antes, quando uma erupção hidrovulcânica criou a cratera onde repousa actualmente a sua massa de água. Todavia, a vários quilómetros abaixo da superfície do lago a actividade vulcânica nunca parou, gerando gás, principalmente CO2, que se foi infiltrando nas águas profundas, saturando-as. Este CO2, ao misturar-se na água, forma algo semelhante a uma bebida gasosa.

Ou seja, temos uma mistura gasosa, cheia de CO2, que quer sair para o exterior, tal como quando agitamos uma garrafa de Coca-Cola. Ela só não sai porque a massa de água que está por cima desta amálgama, devido ao seu peso, acaba por funcionar como se fosse a tampa da garrafa.

Sendo assim, o que fez com que a tampa fosse “furada” e cedesse, provocando um jorro explosivo de água gaseificada e a libertação do CO2 para a atmosfera? Segundo George Kling, uma forte chuvada ou um tremor de terra podem ser suficientes. Em Nyos, por exemplo, especula-se que a tragédia foi iniciada por um deslizamento de terra numa das suas margens, provocado por chuvas que duraram uma semana: a língua de terra terá furado as águas superficiais e o gás saiu do fundo.

No lago Kivu aconteceu o mesmo processo de acumulação de CO2. Tendo em conta que se trata duma zona de actividade sísmica, o receio de um desastre de grande dimensão é compreensível. Ao contrário do que acontece com os dois lagos dos Camarões, está-se perante uma quantidade de água tão grande que os métodos neles usados para drenar a água gaseificada não bastam.

Entretanto, e enquanto esboça algumas estratégias para evitar que o pior suceda, o governo do Ruanda aproveita o gás natural aí existente, o qual também contém metano, para dinamizar a economia do país. Trata-se, afinal de contas, do quinto maior depósito de metano do mundo.

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