A ideia, acelerada numa incubadora em Palo Alto, Califórnia, foi concebida após uma crise de saúde e a subsequente aprendizagem com as ferramentas que o ajudaram a recuperar.

"Peguei no que aprendi e apliquei-o a um jogo, a que chamei Vybe Life. É uma forma de incentivar mudanças e formar hábitos em torno de certas coisas", disse o empresário à Lusa.

"Repetir algo ao longo do tempo constrói vias neurais no cérebro e cria a probabilidade de um padrão que é, em essência, um hábito", continuou o lusodescendente. "A ideia de recompensa é uma das formas mais poderosas de criar hábitos", sublinhou, explicando que essa é a razão pela qual a plataforma tem uma componente de gamificação, ou seja, uma estrutura semelhante a um jogo.

Os hábitos que a Vybe Life quer incentivar os utilizadores a criar estão relacionados com meditação, prática de atenção plena (mindfulness) e outras atividades desenhadas para melhorar a confiança e consciencialização.

"O propósito da Vybe Life é a pessoa mudar a sua frequência", resumiu João Henriques. "Vemos uma proliferação de coisas como meditação e as pessoas tendem a virar-se para elas quando estão em situações desesperadas. O meu ponto de vista é que não se deve esperar por um momento desesperado para encontrar estas coisas que são tão eficazes e úteis".

No caso do empreendedor, que tinha vários projetos na área de média e tecnologia, o catalisador foi a perda inesperada da visão no olho esquerdo e a projeção dos médicos de que o mesmo ia acontecer ao olho direito.

"Eu tinha um background em psicologia e quis perceber como é que isto podia ter acontecido. Fui fazer pesquisa e redescobri várias coisas, incluindo a epigenética, um campo da genética que olha para a psicologia, e a neuroplasticidade".

Segundo o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC), a epigenética é o estudo de como os comportamentos e o ambiente podem causar mudanças que afetam a forma como os genes funcionam.

Henriques experimentou vários métodos e, ao fim de seis meses, conseguiu recuperar a visão no olho esquerdo. "Foi um momento eureka para mim", contou. A partir daí, começou a desenhar uma forma de levar estas experiências a mais pessoas.

"A ideia era trazer isto para uma aplicação mais abrangente, não apenas para pessoas que estavam a sofrer de alguma maleita", frisou. "Estamos numa epidemia de ansiedade e depressão. Agora, mais do que nunca, as pessoas têm de compreender que há ferramentas simples ao seu alcance para começarem a mudar a forma como veem o mundo".

O desenvolvimento da aplicação foi financiado por investidores privados, incluindo um em Portugal, e a equipa preparava-se para fechar uma ronda de investimento Série A quando a pandemia de covid-19 suspendeu o processo.

João Henriques aproveitou este período para fazer testes com cerca de dois mil utilizadores numa versão beta fechada e testar modelos de negócio. A ‘startup’ norte-americana está inclinada para um modelo de subscrição paga, integrado na gamificação.

"É um sistema de pontos que permite adquirir compensação e poderá ser em criptomoedas. Ainda estamos a polir esses detalhes", disse o empresário.

A Vybe Life será uma plataforma em que os utilizadores são anónimos, o que, para o criador, evitará as armadilhas de validação externa das redes sociais.

A trabalhar com micro comunidades na Austrália e Canadá que estão interessadas na plataforma, Henriques disse que há também interesse em Portugal, "que está na linha da frente numa série de áreas".

Na fase inicial, Henriques antecipa que a Vybe Life vai atrair sobretudo pessoas que já estão interessadas em bem-estar, praticantes de ioga e outras modalidades do género, com incidência nas mulheres na casa dos trinta e quarenta anos. Mas o objetivo é expandir à medida que a aplicação amadurece.

"Há algo muito poderoso em torno da consciencialização. São princípios psicológicos levados a outro nível", referiu, sublinhando a importância da frequência e energia em que a pessoa se encontra.

"Uma das subtilezas é tentar perceber e comunicar esta ideia de que a sua perceção das coisas, a forma como vê e experimenta o mundo, é o ponto mais importante", afirmou. "Temos de elevar a confiança para depois integrar consciencialização. Há uma relação interessante entre estas duas coisas".

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