Este não é um artigo sobre o início da comunicação entre dois computadores, em 1969, em que a palavra LOGIN ficou a meio na Universidade da Califórnia em Los Angeles. Nem é sobre os primeiros passos da World Wide Web (e de Tim Berners-Lee) na CERN, em 1989. Ou seja, de como começou a Internet. É, sim, de quando e como ela entrou nas nossas vidas. De cada um de nós.

É certo que no início dos anos 70 nos Estados Unidos já se faziam transações via Internet de substâncias psicotrópicas ilícitas entre alunos de Stanford ou do MIT e que as universidades portuguesas já andavam ligadas à Internet no início da década de 90, mas a comercialização e acessibilidade ao grande público em Portugal só chegou, à maioria de nós, no início de 2000.

Assim, em jeito de exercício de reminiscência, perguntei à equipa do SAPO24 qual a sua primeira memória da Internet. Eu queria uma imagem, um sentimento, um programa. A intenção é que as respostas chegassem sem esmiuçar demasiado, sem recorrer ao Google, mas que ruminassem uma lembrança feliz do baú das recordações. As respostas que me chegaram variam consoante a idade do utilizador, mas o efeito nostálgico é quase sempre o algo em torno do "Eeeeisssh! Pois era". E dá-se um momento de brilho e nostalgia.

Uma das primeiras pessoas a aceitar o desafio foi a Margarida Alpuim. É normal que o leitor não saiba, mas é de frisar que se trata de uma pessoa brindada ao brio (o pleonasmo é intencional). Tanto que não só fez um comentário como até fez um relato... e título! #MargaridaBem

Para cinco minutos de ligação, uma pequena redecoração da casa, eu sentada toda torta e a família inteira sem telefone

Nem jogos, nem chats pré-históricos, nem motores de busca rudimentares. A imagem que me vem à cabeça quando penso nas primeiras vezes que tive Internet em casa é esta:

Ir para a entrada, arredar os bibelôs todos que a minha mãe tinha (e ainda tem) em cima da arca decorativa (e prometer que os voltava a pôr no sítio no final), pegar no tijolão que era o computador, ficar toda mal sentada (mas tinha de ser, porque o cabo não era grande), avisar toda a gente lá em casa que íamos ficar sem telefone durante um bocado, desligar a linha telefónica, ligar o cabo de rede à saída da linha e ligá-lo ao computador. Ouvir uns sons estranhos e estava pronto!

Meia hora de preparação para cinco minutos… nem sei do quê! As minhas primeiras memórias de Internet são um daqueles clássicos em que o empenho e o tempo necessários para a preparação acabam por ser mais significativos e nostálgicos do que a própria experiência. Lembram-se de quando era assim?

Quem passou pelo mesmo não tem como não rir... agora. Custa a crer, mas a vida na rede já foi assim. Mais vagarosa, calma e paciente. Hoje parece que não sobra muito tempo para respirar. Num piscar de olhos o universo já nos passou todo pela frente! E isso é algo que me leva à história da jornalista Isabel Tavares, que fala num mundo de notícias pré-Internet e de como os computadores apareceram nas redações.

Lembro-me de quando chegaram os computadores às redações, isso sim, uma coisas enormes e gordas, pesadonas, que ao mais leve abanão nos faziam perder textos de cinco mil, dez mil carateres, que tínhamos de voltar a escrever. Era assim no Semanário Económico em 1989 ou 1990 - os jornais era feitos numa sala de "maquetagem", os textos (tal como os filets e todas as restantes marcas de página) impressos em colunas em folhas A4, recortados com X-acto, e colados com spray na folha de jornal, cujas provas eram depois entregues na gráfica.

Quase 25 anos depois estava numa redação em que cada pessoa tinha dois ecrãs, um para escrever, outro para pesquisar (ficava doida, pedi logo que me desligassem um) e a escrever diretamente em página, ou seja, no local onde a notícia seria publicada). Hoje seria impossível, como aconteceu no Diário Económico, que uma empregada de limpeza deitasse no fim de semana todo o jornal de segunda-feira no lixo, convencida de que se tratava de restos de papel.

De resto, lembro-me de, no início, utilizar a Internet sobretudo para ler jornais e revistas estrangeiros, isto ainda nos anos 1990. As pesquisas eram quase sempre feitas através do motor de busca AltaVista, que tinha um sério concorrente de cujo nome não me recordo.

(Quase) todos o faziam

Os dois relatos que se seguem não sugerem qualquer tipo de programas ou incursão pela pirataria. Limewire, Emule ou KaZaA são apenas coisas que os envolvidos ouviram falar e acharam por bem colocar no seu testemunho. Práticas comuns em tempos idos, no fundo.

Relato 1) Do lírico gastronómico da redação, que comeu 95% dos artigos do Wikipedia e que é uma pérola do Twitter, António Moura dos Santos:

Eu era um petiz estava a internet numa fase tardia da puberdade. As minhas memórias mais antigas alojam-se na viragem do milénio, em plena bolha do “dot com”, que me passou completamente ao lado. Na altura, ainda se ouvia a cacofonia do dial-up, mas depressa chegou a banda-larga para arrancar os nossos computadores da letargia em direção ao alucinante mundo das velocidades instantâneas que temos hoje.

O YouTube ainda não existia e o seu criador, a Google, era ainda apenas uma concorrente entre muitas. E nem era a mais fiável, pelo menos no entender lá em casa. O meu pai trabalhava numa empresa de computadores e para ele era o AltaVista o motor de busca de eleição, hoje (mais um) concorrente caído na feroz arena tecnológica.

O meme não era um meme ainda, pelo que a minha dose de humor era inteiramente proveniente de um defunto site de humor brasileiro (que tinha, inclusive, perigosas secções +18). Não cheguei a usar o Napster, mas mais tarde quebrei a lei através do Limewire e do Emule — em minha defesa, também sofri com isso, tal foi a quantidade de músicas mal etiquetadas que descarreguei.

As redes sociais estavam prestes a ser criadas, mas eu também não andei a conhecer desconhecidos em fóruns e chats online. A minha iniciação veio mais tarde com o hi5 e o MSN Messenger, agregadores fundamentais de convivência para os adolescentes dos anos 2000.

Sinto que, como aconteceu a tantos outros da minha idade, um dos eventos mais marcantes da nossa infância foi ver a queda das Torres Gémeas em direto. Foi o maior acontecimento da sua época. Agora imaginem se houvesse Twitter.

Relato 2) O testemunho que se segue é da Mariana Falcão Santos — que jura ter ficado orgulhosa do autor que assina este artigo ao descobrir que o dito não só sabe o que é o "Jersey Shore", como sabe o que significado do acrónimo GTL. Não que seja motivo de orgulho per se, mas até o Dr. House gostava de ver novelas mexicanas. Portanto, vou acreditar que é elogio legítimo.

Sei que comecei a ter acesso à Internet antes daquilo que vou partilhar. Segundo a minha mãe, a primeira internet que tivemos foi em 2004, tinha eu 6 anos, mas não tenho grandes memórias daquilo que fazia, até porque só havia um computador lá em casa e muitas vezes servia para a minha mãe trabalhar.

Se falarmos das minhas primeiras recordações, mas no que diz respeito às primeiras coisas que eu me lembro de fazer, diria que o site Jogos10, Friv e Miniclip disputavam o pódio dos mais visitados. Depois, o clássico MSN, quando comecei a ganhar vida social. Ficava horas a falar com os meus amigos e a enviar aqueles alertas que era uma mão a bater no ecrã.

Lembro-me também de, desde muito cedo, ter tido acesso aos sites piratas, especialmente para sacar músicas (o que nos dias de hoje parece ridículo!) e jogos. O Limewire e o Emule são aqueles de que me lembro melhor. Pelo meio, também apareceu o YouTube, que acompanhei desde cedo, e também tinha um fixação pelo site dos Morangos com Açúcar, que na altura tinha uns minijogos escondidos (quizzes, se a memória não me falha).

Miniclip e Pollys. A Margarida é de uma geração que não dispensava 30 minutos para ter cinco "de nem sabe bem o quê". Já a Carolina Muralha e o Miguel Magalhães sabiam bem ao que iam.

Carolina: A minha primeira memória da internet é de quando tinha seis, sete anos (ou seja, 2004, 2005). Eu e a minha prima, quando não nos apetecia fazer brincadeiras da nossa imaginação, tínhamos a sorte de poder ter acesso ao computador do nosso avô paterno, que na altura tinha instalado o “mega rápido” Windows XP. Na altura, a velocidade do computador não era algo a que se desse importância. Desde que pudéssemos ir ao Google pesquisar jogos das [bonecas] Pollys, para poder brincar, estava tudo bem!

Miguel: Até aos 7/8 anos não ligava muito aos computadores e a minha vida era passada entre jogar à bola na rua dos meus avós depois das aulas e ver o Oliver e Benji antes de ir dormir. Contudo, por volta dessa idade, passei a usar a Internet para jogar nos primeiros sites que funcionavam como agregadores de diferentes tipos de jogos como o Miniclip, o Minijuegos, o Click, entre outros, que hoje já não têm o mesmo design que tinham quando jogava na altura, nem a mesma importância que agora pertence às diferente app stores que termos nos tablets e smartphones onde jogos para crianças passaram a ser mais jogados.

Lembro-me perfeitamente de passar horas no Miniclip a jogar um jogo em decatlo nos jogos olímpicos, super rudimentar, em que tinha de superar uma série de provas. Lembro-me que o Minijuegos tinha um jogo de carros também de qualidade questionável, hoje em dia, mas que na altura era a melhor coisa. Fora destes sites também jogava um jogo de ténis num site chamado "Flash Tennis" e que queria ser uma versão do torneio feminino de ténis.

mIRC

Ora, isto não é só pedir carateres aos outros. Convém também dar o exemplo. E a minha primeira memória vem de um tempo onde o termo redes sociais não estava no dicionário do quotidiano. Eram tempos de Internet, mas sem Facebook, Twitter, Snapchat ou Instagram.

Nos Estados Unidos, a Netflix era uma gigante distribuidora de DVD's à porta. Motores de busca? Havia vários: AskJeeves, Yahoo, AltaVista, Netscape Search — e, claro, o Google, mas não era o que é hoje. Por cá, o portal SAPO era um anfíbio digital de respeito. Ainda assim, não haviam muitos vídeos. E, por isso, o rei, para mim, era outro. (Além do site do filme "SpaceJam" — aquele com personagens do Looney Tunes e o Michael Jordan — que continua em altas rotações desde 1996 e que ainda se encontra ativo.)

créditos: Space Jam

Certo é que nunca saberei bem responder à questão "porquê é que passaste tantas horas nisto?". Refiro-me a ficar horas e horas a falar com estranhos no IRC. E, não. Não se trata do Imposto sobre o Rendimento de Pessoas Coletivas. O borbulhento Abílio desse tempo nem sabia o que isso era. Falo de IRC, sim, mas mais concretamente do mIRC — que este ano até faz 25 anos e tudo.

A minha experiência não é um relato exato do comportamento sociedade — e dos jovens nascidos no final da década de 80 — daquele tempo. É só isso mesmo: a minha experiência. Por isso, vale o que vale. Mas vamos por partes.

Antes do mIRC, já havia o IRC — sigla para Internet Relay Chat, coisa que já existe desde 1988, antes mesmo da World Wide Web. O IRC foi criado pelo finlandês Jarkko Oikarinen enquanto aluno de Mestrado de Engenharia Elétrica na Universidade de Oulu. E Oikarinen queria comunicar em tempo real com o seu departamento. Então, criou um sistema de texto comunitário. Isto é, um chat. Mas um chat que acabou por saltar da universidade de Oulu para a Finlândia inteira, depois para os Estados Unidos, acabando por espalhar-se globalmente — e de ser utilizado para dar notícias em tempo real da Guerra do Golfo (1991) ou reportar sobre a crise política da russa (1993).

Já o mIRC é o cliente (programa) que permite aceder ao IRC. Foi criado pelo britânico Khaled Mardam-Bey em 1995, que achou que se conseguisse tornar o acesso ao IRC mais fácil e com uma navegação mais intuitiva, este podia apelar a uma audiência geral. Hoje sabe-se que a ideia não estava de todo errada: em meados dos anos 2000, tinha criado um dos programas mais populares de Internet. Perdeu fulgor e popularidade com os passar dos anos e com o aparecimento de outras plataformas de comunicação, mas não deixou de ter o seu momento de glória e de ficar para a história.

#Canais e dd tc

No IRC — e por inerência no mIRC — a comunicação organizava-se por canais, sendo um canal identificado por um cardinal. Ao olhar mais jovem poderá parecer uma hashtag e o princípio até era parecido, mas "no nosso tempo" eram canais e funcionavam como salas de chat. Cada um dos utilizadores andava no #Canal da sua cidade, do seu #Clube ou do seu #Hobbie. Ou seja, andavam no #Lisboa, no #SLB/FCP/SCP ou no #Musica. Eram à vontade do criador e do seu interesse. Podiam ser secretos, públicos, com limite de pessoas. Por fim, havia a possibilidade mais íntima da altura: o pvt — ou seja, falar em privado.

Dd tc (de onde teclas?) m ou f? (este não precisa de grande explicação), op (operador dos canais), nickname (alcunha com que a pessoa se apresentava), canais, pvt (ir falar com uma pessoa privado) ou scripts (versões modificadas do mIRC original) são só algumas terminologias e abreviações que agora muito se assemelham ao latim: não estão bem extintas, porque há quem as estude, diga ou escreva, mas em tempos chegaram a ser tão populares no meu léxico como agora em tempos de pandemia o são as palavras confinamento, covid ou boletim epidemiológico.

Depois era a tal coisa. Nunca fui grande entendido em informática. E escrever comandos como /whois, /me  /away ou  /+q faziam-me sentir como se estivesse num episódio da série "Mr. Robot". No fundo, é a mesma coisa que eu achar que jogar Sims faz de mim um arquiteto e especialista em Autocad.

Mas não estou sozinho. A Inês F. Alves partilha algumas recordações também.

Eu não tinha más notas, mas a matemática era o meu calcanhar de Aquiles e por isso os meus pais decidiram que seria boa ideia ter explicações num centro que ficava relativamente perto da escola que frequentava. Eu chegava cedo, antes da hora marcada, mas o entusiasmo não era pela lição, era pela salinha do computador que ficava em frente à recepção — sim, os computadores nem sempre foram portáteis e nem sempre couberam no bolso de uma mochila ou das calças. E nesse computador a única coisa que interessava era o mIRC. Escolhia-se um nome (e há que ser criativo porque a primeira impressão importa), uma sala, e voilá!

Estávamos na Internet, a falar com dezenas, centenas, milhares de desconhecidos. Linhas de texto seguidas, com várias cores — o que à data de hoje mais faz lembrar um dashboard do que uma sala de chat. Dizíamos olá, como quem mede o pulso ao ambiente, líamos umas coisas e, se a memória não me atraiçoa, podíamos ser desafiados ou desafiar alguém para uma conversa privada numa sala só para nós. Não havia nomes verdadeiros, nem idades, nem fotografias, nem "likes", nem comentários. Só texto — e o imaginário que criamos por detrás das palavras.

Sim, provavelmente havia riscos, mais do que aqueles que a tenra idade poderia antecipar. Mas não havia compromisso. Não era "a minha rede social", era uma sala cheia de estranhos e eu podia sair quando quisesse e voltar na semana seguinte por mais uns minutos, com um novo nome, novas cores, numa outra sala qualquer.

Os tempos eram outros certamente. Mas o exercício engraçado é perceber que a primeira memória de Internet vai ser diferente de pessoa para pessoa. Não se falou aqui, mas existem outros nomes capazes de avivar memórias, como aqueles que precederam as redes sociais que hoje conhecemos: o MSN, Hi5, Fotolog ou MySpace. E ainda há espaço para falar da febre que foi a blogsfera, que marcou parte de uma geração — quem não se lembra de ir quase diariamente procurar novas publicações do blog d'O Meu Pipi?

O virar do milénio viu nascer o YouTube, Facebook e a Wikipedia. Haverá também quem se tenha considerado um verdadeiro engenheiro informático ao fazer um site no Geocities — tal como eu me sentia um hacker no mIRC — para fazer sites pessoais ou de bandas, ou tenha andado pelos Newsgroups a discutir já que não haviam fóruns para o fazer. Mas havia muito mais por navegar pela Internet. Portanto, resta apenas fazer a questão: e quando ao leitor? Qual é a sua primeira memória da Internet?

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