A imortalidade é algo que, de uma maneira ou outra, todos já pensámos que seria algo giro de ter. Sentirmo-nos imbatíveis e ter a consciência de que nada nos pode fazer mal é um sentimento poderoso, capaz de seduzir o indivíduo com a melhor das vidas. Contudo, há um problema. A imortalidade só é boa se todos formos imortais.

Esta reflexão filosófica faz parte da mais recente aposta da Netflix “A Velha Guarda” (“The Old Guard” na versão original), baseado na novela gráfica de Greg Rucka, que também foi o argumentista do filme. Este não é, no entanto, uma obra observadora, mas sim mais um registo de ação na senda de filmes do género que a plataforma de streaming tem lançado nos últimos meses. “Operação Fronteira”, “Underground 6” e “Extraction” são títulos de ação para ver num domingo à tarde, mas apresentam-se desprovidos de qualquer mensagem ou tentativa de explorar um tema. Em “A Velha Guarda”, a típica história de ação está toda lá, com a diferença que há uma preocupação em colocar as personagens que participam na trama a refletir sobre a realidade que os afeta e não apenas em derrubar inimigos e esgotar armas em cenas infindáveis.

No filme, somos apresentados a uma equipa de quatro imortais que não têm uma resposta para a sua condição. Há vários séculos que participam em missões para tornar o mundo num lugar melhor e se há algo que aprenderam com a sua vasta experiência foi parar de procurar um porquê e aproveitar o facto de terem alguém com quem possam partilhar a sua “forma de vida”. Andy, protagonizada por Charlize Theron, é a imortal mais velha com mais de mil anos e líder da equipa. Nicky e Joe lutaram em lados opostos durante as Cruzadas e descobriram a sua imortalidade enquanto se matavam um ao outro. Booker fazia parte do exército de Napoleão quando descobriu que não podia morrer.

Em pleno século XXI, a equipa volta a reunir-se para mais uma missão, desta vez encomendada por um ex-agente da CIA, Copley, que contrata os imortais para uma importante missão de resgate. Porém, esta não é mais do que uma cilada de um CEO de uma empresa farmacêutica, que contratou Copley para que este arranjasse provas da existência de Andy e dos seus colegas, que tinham passado pela História mais ou menos despercebidos ou, pelo menos, assim eles pensavam. O seu objetivo é extrair o código genético dos quatro “velhotes”, a qualquer custo, para salvar vidas vidas… e claro, lucrar com isso.

Ao escaparem, os imortais são obrigados a lidar com mais uma cilada, desta vez do destino, com o aparecimento de mais uma imortal, uma marine de seu nome Nile Freeman, que descobriu a sua nova natureza ao morrer em serviço no Afeganistão. Depois de estarem muito tempo por sua conta, a chegada de um potencial novo membro para a sua equipa, fá-los novamente questionar o seu super poder e ficar ainda mais preocupados em esconder o seu segredo para que este não caia nas mãos erradas.

Um filme de ação diferente do habitual

Há várias razões que levam a que o filme resulte. Começando pela realizadora Gina Prince-Bythewood, que faz um trabalho de câmara exemplar trazendo a subtileza para um género onde isso não costuma ser comum: os filmes de ação e super-heróis. Há espaço para grandes cenas de ação que são necessárias, mas há também uma humanização das personagens que as torna importantes, tanto em modo combate como quando estão a interagir umas com as outras. As falas não são apenas tempos mortos enquanto esperamos pelo próximo grande momento de carnificina, mas sim espaços para ficarmos a conhecer melhor estas pessoas, o que sentem e como pensam.

Depois, há é a performance de Charlize Theron. A atriz sul-africana já pode ser considerada uma especialista em filmes de ação, e este nem é o primeiro em que desempenha uma imortal (mas vamos esquecer o pouco memorável “Hancock”, que protagonizou com Will Smith). Depois de “Mad Max”,  “Atomic Blonde” e presenças na saga "Velocidade Furiosa", Theron aparece no filme como alguém que sabe exatamente o que está a fazer ou que pelo menos, tal como a personagem que representa, já viu um pouco de tudo e sabe o que esperar. A cena em que explica à novata que o problema da imortalidade “não é aquilo que o tempo rouba, mas sim aquilo que deixa para trás” pode ser considerada como o momento alto do filme.

O terceiro motivo são as diferentes camadas que a narrativa consegue navegar. Há camada superficial de um filme de ação em que um grupo de agentes do bem tem de derrotar um inimigo que os tenta eliminar. Há a camada da imortalidade, que o filme explora inteligentemente e que não dá como um elemento que a audiência tem de dar por garantido. E há a camada em que introduz novas temáticas num género que por norma tende a ser pouco inclusivo, sem tocar nelas diretamente.

O racismo não é um dos temas abordados, mas é bom ver o destaque dado a uma personagem feminina e afro-americana como Nile Freeman, algo que tem sido raro neste tipo de filmes (desafio o leitor a pensar numa personagem semelhante com visibilidade parecida nos últimos anos).  A homossexualidade também não é um assunto central da trama, mas Nicky e Joe são provavelmente o primeiro casal imortal gay de Hollywood e a inclusão da sua relação é feita de uma forma tão natural que, nas palavras da review da Vanity Fair, “parece ser um momento significativo quando não devia ser”.

É bom que Hollywood e a indústria do cinema e das séries, de um modo geral, esteja também a ser influenciada por movimentos civis pela luta de mais direitos e representatividade como o Black Lives Matter e o LGBTQ+. Existem histórias que são importantes partilhar sobre pessoas e grupos que durante muito tempo não tiveram uma voz e que agora têm a oportunidade de partilhar a sua versão dos acontecimentos. Mas uma forma de dar a estes temas a importância que merecem é incluírem-nos em histórias onde estes não são o foco, mas que são reconhecidos como parte do nosso dia-a-dia.

Depois de pequenos símbolos de inclusão (que pareceram mais jogadas de marketing) em sagas como "Star Wars", com um beijo lésbico de um segundo ou a Marvel com o relato de um homem gay numa terapia de grupo em que estava Capitão América, é bom ver um filme de ação a não ter medo de “apenas” se adaptar ao século XXI.

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