O mais famoso artista chinês, exilado desde 2015 e agora residente em Portugal, vai inaugurar esta semana a exposição “Entrelaçar”, no Museu de Serralves, no Porto, onde vai expor, pela primeira vez, a peça “Pequi Vinagreiro”, uma réplica de ferro de uma árvore brasileira com 31 metros de altura.

Questionado pela Lusa sobre o primeiro momento em que a política influenciou o seu trabalho artístico, Ai Weiwei, nascido em 1957, respondeu lembrando o contexto em que viveu os seus primeiros anos de vida: “Cresci numa sociedade muito política, sob o sistema educativo do presidente Mao [Tse-Tung]. Mesmo enquanto crianças era-nos dito que seríamos uma força positiva no futuro”.

“Felizmente, nasci numa família de dissidentes. O meu pai era um poeta, estudou em Paris nos anos 1930, juntou-se à revolução e estabeleceu a nova nação. É o poeta mais respeitado na China, até aos dias de hoje. Mas foi duramente punido por ser um intelectual e mandado para o exílio durante 20 anos. Cresci quando ele não podia escrever. Isso ensinou-me muito”, recordou Ai Weiwei, referindo-se ao pai, o poeta Ai Qing (1910-1996), que foi desterrado e impedido de escrever durante duas décadas.

O artista chinês salientou que, em contraste com a sua vida na China, foi depois para os Estados Unidos na década de 1980, onde esteve 12 anos, na maioria em Nova Iorque, o que lhe permitiu aprender “coisas completamente diferentes”, num contexto capitalista.

“Depois voltei por outros 20 anos para ver a China desenvolver um sistema de capitalismo de Estado, que nalguns aspetos é liberal, mas noutros é uma sociedade severamente controlada”, afirmou Ai Weiwei, nome maior da arte nas últimas décadas e que chegou a fazer parte da equipa que concebeu o chamado estádio Ninho de Águia, em Pequim, mas que se tornou num forte crítico do regime chinês, em particular na sequência do terramoto que atingiu Sichuan, em 2008.

A viver em Montemor-o-Novo, o que considera fazer de si uma pessoa “muito afortunada” tendo em conta o contexto pandémico, Ai Weiwei está “no exílio na Europa”, compreendendo “os dois lados”: “o que é a liberdade, o que é o autoritarismo e por que é que precisamos de direitos humanos”.

“Continuo a denunciar, com a minha voz. É tudo o que posso fazer”, declarou o artista, que recusa que a pandemia de covid-19 tenha implicado qualquer tipo de limitação ao seu trabalho e que recorda que tem “quatro ou cinco exposições a nível global”, neste momento (duas das quais em Portugal), e produziu três filmes em 2020 (“Coronation”, sobre a pandemia, “Cockroach”, sobre a situação em Hong Kong, e “Rohingya”, sobre o maior campo de refugiados do mundo, no Bangladesh).

Para alguém que encara a arte como a “religião moderna”, Ai Weiwei descreve o seu ofício igualmente como “uma jornada”, o que significa que o processo — ou esforço — é tão ou mais relevante do que o resultado.

“A razão pela qual eu faço o esforço é porque penso que devemos respeitar a vida. Todas as vidas. Todas as vidas foram criadas iguais por algumas forças desconhecidas. Todas têm potencial, sonhos, e todos esses sonhos podem ser desfeitos por causa de alguma loucura ou situação selvagem. Respeitar a vida é o objetivo. E nunca esquecer. Isso significa que vimos de um caminho longo, de gerações de pessoas, que fizeram um esforço para chegar até nós hoje. E nós também temos de fazer o esforço pela próxima geração. Exigir certos valores, estabelecer certos valores, dizer ‘não podes tocar nisso, é o mais precioso'”, disse o artista.e

Ai Weiwei, que continua a trabalhar sobre o seu país-natal ainda que de forma remota, gostaria de regressar à China, onde a sua mãe vive, comparando-se a uma planta com raízes que agora foi puxada da terra.

Quando a Lusa se refere à eventual dificuldade de trabalhar sobre a China à distância, Ai Weiwei responde de imediato: “As pessoas dizem normalmente ‘é difícil’. Para mim, a dificuldade é um desafio e é lindo. Adoro que a minha vida seja difícil e só essa dificuldade me dá uma oportunidade de ter liberdade. Não me faz diferença que seja difícil. Depois de fazer um esforço extra, esse esforço significa imenso para mim. O resultado nem tanto. O esforço em direção ao objetivo, esse é o mais precioso”.

A exposição “Entrelaçar” vai estar aberta ao público no Museu de Serralves a partir de sexta-feira, até dia 5 de fevereiro do próximo ano, enquanto as peças expostas no Parque de Serralves vão ser exibidas até 09 de julho de 2022.

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