A falta de concorrência à cadeira vaga foi interpretada na academia como uma homenagem à atriz, um dos nomes mais aclamados do cinema, teatro e televisão do Brasil.

“Fernanda Montenegro é um dos grandes ícones da cultura brasileira. Intelectual engajada e sensível leitora do real. Sua presença enriquece os laços profundos da Academia com as artes cénicas. Com ela, adentram, luminosos, tantos, personagens, que marcaram gerações, passado, presente e futuro”, declarou o presidente da ABL, académico Marco Lucchesi.

A artista brasileira foi eleita com 32 dos 34 votos dos académicos, sendo que dois foram em branco.

Com quase oito décadas de carreira, Fernanda Montenegro sucederá ao académico Affonso Arinos de Mello Franco, que morreu em março do ano passado e que ocupava a cadeira 17, das 40 que compõem a ABL.

"Academia Brasileira de Letras é um referencial cultural de 125 anos. Abrigou e abriga representantes que honram a diversidade da nossa criatividade em várias áreas. Vejo a academia como um espaço de resistência cultural. Agradeço a oportunidade", comemorou a atriz na rede social Instagram.

Seguindo o modelo da Academia Francesa, a ABL é constituída por 40 membros efetivos e perpétuos, apelidados de "imortais". Além deste quadro composto por brasileiros, existem 20 membros correspondentes estrangeiros.

Quando um membro da ABL morre, a cadeira é declarada vaga numa sessão denominada "Saudade", tendo os interessados em ocupar a vaga dois meses para se candidatarem.

Fernanda Montenegro inscreveu a sua candidatura em 06 de agosto deste ano, um dia depois do músico Gilberto Gil, outro favorito para integrar a ABL, também se candidatar a outra das vagas disponíveis.

As cadeiras que eram ocupadas por Alfredo Bosi (12), Murilo Melo Filho (20) e Marco Maciel (39) estão livres na ABL.

Fernanda Montenegro nasceu em 16 de outubro de 1929, no bairro do Campinho, no Rio de Janeiro. Pisou num palco, pela primeira vez, aos oito anos de idade para participar numa peça na igreja, mas a sua estreia oficial no teatro ocorreu em dezembro de 1950, ao lado do marido Fernando Torres, no espetáculo 3.200 Metros de Altitude, de Julian Luchaire.

Segundo informações da própria ABL, Fernanda venceu o prémio de Atriz Revelação da Associação Brasileira de Críticos Teatrais, em 1952, pelo seu trabalho em Está Lá Fora um Inspetor, de J.B. Priestley, e Loucuras do Imperador, de Paulo Magalhães.

Mudou-se para São Paulo em 1954, onde fez parte da Companhia Maria Della Costa e do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Com o marido, formou a sua própria companhia, o Teatro dos Sete.

Em 1963, estreou na TV Rio, com as novelas Amor Não é Amor e A Morta sem Espelho. Na recém-criada TV Globo, nesse período, participou na série de teleteatro 4 no Teatro (1965), dirigida por Sérgio Britto e, mais tarde, participou em novelas de sucesso como Sassaricando (1987), Belíssima (2005), Outro Lado do Paraíso (2017) ou na série Doce de Mãe (2014), trabalho pelo qual ganhou o Emmy Internacional na categoria de melhor atriz.

Ao longo da carreira, a atriz participou também de minisséries como Riacho Doce (1990), Incidente em Antares (1994), O Auto da Compadecida (1999) e Hoje é Dia de Maria (2005). No caso da minissérie baseada na obra do académico Ariano Suassuna, Fernanda Montenegro viveu a própria Compadecida.

Em 1999, Fernanda Montenegro foi condecorada com a maior comenda que um brasileiro pode receber da Presidência da República, a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito “pelo reconhecimento ao destacado trabalho nas artes cénicas brasileiras”.

Ainda nesse ano, foi indicada ao Óscar de Melhor Atriz pela sua participação no filme Central do Brasil, sendo até ao momento a única brasileira nomeada para esse prémio.

A artista chegou a ter uma exposição no Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio de Janeiro, comemorativa dos seus 50 anos de carreira. Em 2004, aos 75 anos, recebeu o prémio de Melhor Atriz no Festival de Tribeca, em Nova Iorque, pela sua atuação em O Outro Lado da Rua, de Marcos Bernstein.

Em 2019, para comemorar 90 anos de idade, a atriz publicou as suas memórias no livro Prólogo, Ato, Epílogo. Na obra, Fernanda Montenegro aborda não apenas a sua trajetória pessoal, que começou nos palcos na década de 1950, mas também as suas visões acerca do Brasil.

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