Quando em março do ano passado o bicho apareceu, o R(t) do conteúdo cresceu mais rápido do que o do próprio vírus. “Agora que estamos todos fechados em casa, para vos ajudar a ocupar o tempo” foi a frase messiânica que vários criadores, que nem super-heróis sem capa lutando contra esse inimigo comum chamado Tédio, usaram como desculpa para nos melindrar mais do que o costume.

Podcasts que antes eram semanais começaram a aparecer nas minhas notificações duas, três, quarenta vezes por semana. Pessoas, que antes falavam do exercício que faziam na rua, começaram a fazê-lo em casa e a transmiti-lo em direto através de um telemóvel equilibrado entre um tupperware e uma lata de Pringles.

Multiplicaram-se os Best Ofs que só apareciam sazonalmente no final do ano: Os 10 Melhores Filmes Sobre Pandemias; Os 10 Melhores Podcasts Para Lhe Fazer Companhia Em Quarentena; Os 10 Melhores Exercícios Abdominais Para Se Manter Ativo Dentro De Casa. Artigos que, no fundo, eram armadilhas disfarçadas de saúde mental para nos fazer carregar dez vezes num artigo e maximizar as receitas publicitárias. Só por sorte, uma revista de lifestyle não recomendou Os 10 Melhores Revólveres Para Acabar Com A Sua Depressão.


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A certa altura as coisas mudaram e as pessoas cansaram-se de ouvir falar do bicho. Mais de um ano depois, Bo Burnham vem lembrar-nos que estivemos um ano fechados em casa. Essa é sua primeira grande vitória: toda a gente quer ouvi-lo. Pouca gente me tiraria uma hora e meia do meu dia para me lembrar daqueles meses em que o maior prazer era ir à rua comprar meia dúzia de nêsperas.

A pandemia interrompeu as coisas que tínhamos planeado. Viagens, casamentos, um crédito-habitação, coisas grandes ficaram em banho-maria por causa de uma nano-molécula que se dá bem com ranhoca. A Bo Burnham tirou o regresso aos palcos. Durante cinco anos, logo depois de terminar o "Make Happy", Bo fugiu do stand-up comedy. Os ataques de pânico foram tirando o prazer de atuar e acabou por desistir. Em Janeiro do ano passado, conta ele neste novo "Inside" (spoiler alert), decidiu que estava na hora de regressar. Foi aí que a covid-19 lhe alterou os planos e o fechou no quarto onde, curiosamente, havia terminado o último solo.

Percebemos que os problemas dos americanos são os mesmos do que os dos portugueses. Por exemplo, a acusação que hoje em dia se faz à forma pedagogicamente elitista como a história é contada nas escolas, que por cá tem aparecido na discussão sobre o revisionismo histórico dos Descobrimentos, também está em "Inside". Bo, ao invés do comediante woke que ambiciona salvar o mundo com a comédia (a sua primeira canção do special fala disto), resiste ao humor-ativista e opta por satirizar o olhar enviesado da história, num bit em que usa uma peúga-fantoche para nos dar uma aula de História Para Totós. Faz isto sem nunca ser previsível com este e outros temas que estamos cansados de ouvir falar: a cultura de cancelamento, o mercantilismo da internet, a precariedade dos estagiários, envelhecer, fazer sexo pelo telemóvel trocando emojis de beringelas e pêssegos, tudo.

É esta sua obsessão com a fórmula da novidade que faz dele único. Bo Burnham é o one-man-band deste "Inside". Negando a ideia de que no humor a estética é um acessório, em "Inside" todos os planos foram pensados para dizer qualquer coisa. Há uma velha lengalenga que diz que o humorista não deve ser refém de uma pose, mas em "Inside" a estética também conta a história. Em White Woman’s Instagram, Bo recria vários lugares comuns que estamos habituados a ver no feed: as sessões com grinaldas de eucalipto na cabeça, as luzes quentes da golden hour que batem no diafragma da câmara, os neon vintage da Urban Outfitters. É uma produção que seria ambiciosa de produzir para uma equipa de dez pessoas. Fazê-lo sozinho mostra não só o seu rigor, como alguma obsessão quase maníaca.

Vemos o especial sempre nesta fronteira entre o humor e algo que parece fugir-lhe do controlo. Estará ele bem? O mesmo tipo que num solo anterior nos disse que a arte é uma mentira, aparece-nos num plano frontal com um relógio-despertador a marcar as 23:58, dizendo-nos que dali a dois minutos fará trinta anos e não tem melhor maneira de os celebrar do que ali, de olhar vazio, a encarar uma câmara sozinho.

Bo Burnham constrói este espetáculo para me fazer acreditar que aquilo é verdade. A mentira parece não encontrar lugar na minha cabeça que antes suspeitava de todos os artistas. Aquele take foi gravado a dois minutos do seu aniversário, sim, é tudo verdade, não é o melhor de outros cinquenta takes que foram gravados a dizer a mesma frase.

Não foi só a pandemia que levou Bo Burnham para dentro. Já antes de o obrigarem a fechar-se do mundo, ele vivia encerrado na sua própria arte. A conjuntura só veio colocar milhões de pessoas empáticas com a sua situação. O espetáculo serve como prova documental desse período de clausura. Mostra-nos o seu desespero ao não ver um fim, na pandemia e no processo de gravação do espetáculo, mas também alguma luz nessa infinitude, já que foi todo o processo de criar que o manteve sano durante o tempo em que foi para dentro.


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