Afinal há ou não limites do humor? Estamos a brincar, não é disto que esta entrevista trata.

Nesta semana, no podcast Acho Que Vais Gostar Disto, o lugar de honra foi ocupado por Carlos Coutinho Vilhena, o humorista e autor da ressurreição da carreira do ator João André, na série "O Resto da Tua Vida", com banda sonora de Sérgio Godinho. O comediante revelou de onde surgiu a inspiração para os seus projetos e aproveitou para fazer algum brainstorm para os próximos.

Ouça aqui a conversa com Carlos Coutinho Vilhena (CCV) ou leia a entrevista conduzida por Miguel Magalhães (MM), Mariana Falcão Santos (MFS) e João Dinis (JD):

MM: Eu lembro-me de que tu, no último episódio d' "O Resto da Tua Vida", colocas uma série de perguntas: se é realidade ou ficção, por exemplo. São perguntas que se repetem nesta nova série ou tentaste ir abordar outro tipo de questões à medida que ias estando nessa comunidade onde acabaste por encontrar mais semelhanças do que diferenças?

CCV: Acho que não sei trabalhar de outra forma. Primeiro, porque gosto dessa frequência, e de não fazer de "Samuel", gosto mesmo de abordar os meus dramas e depois colocar bandas sonoras – isso às vezes percebo que seja hilariante porque, ok, "olha um miúdo branco heterossexual, que não consegue ter uma ideia ou não quer aceitar um espetáculo. Ahaha, realmente são problemas fúteis". Eu percebo que existam depois esses ataques, que isto é quase o reality show das Kardashians musicado e com efeitos sonoros. Mas como são os meus dramas, eu acho honesto.

Um dia, se calhar daqui a quatro ou cinco anos, tenho mais densidade, mais camadas e serei outra pessoa, com mais consciência. Mas como os meus dramas são esses, eu decido expô-los. E isso existe também por questões financeiras, porque para eu fazer uma série de época é muito caro: tenho de alugar o Hotel Palácio e roupas, anéis e chapéus de rei. Nós somos uma equipa de quatro pessoas: o diretor de arte, que realizou comigo; o câmara; um produtor e o guionista. Portanto o documentário permite-nos que, quando a câmara desfoca, não haja problema de estarem pessoas a passar. Não dá para estar com figurantes sempre a passar ou com uma casa falsa.

Há esta ideia de que normalmente os artistas alugam carros e casas para não mostrarem as suas coisas. Eu n' "O Resto da Tua Vida" mostrei tudo e até tive problemas porque era uma rua conhecida no centro de Lisboa e tinha miúdos às oito da noite ou às três da manhã a darem-me pontapés na porta e a cantarem a música "O Resto da Tua Vida". "Oh Carlos, anda cá", à varanda. Isto aconteceu [filmar na própria casa] por questões financeiras, porque não dá para alugar outra casa.  As pessoas podem achar que eu estou a ostentar por estar a mostrar uma casa ou um carro que até pode ser melhor do que a maioria. Mas não, é só porque eu não tenho dinheiro para alugar outro. E isso é a realidade. O que nós fazemos (eu e o Pedro Durão [guionista do "Clube da Felicidade"]) é, na edição, tentar tornar aquilo mais ficção. E isso é uma questão de trocar planos e de criar balizas para acontecer o humor.

MFS: Achas que agora a comunidade para onde tu foste vai ter um buzz gigante e vai haver um monte de pessoas a querer ir para o meio do nada? Estarás tu a promover o turismo do interior?

CCV: Não sei, não faço ideia. Mas eu não sei se a minha conclusão será essa. Se eu não curto do sabor das coisas que cultivo, se não gosto de tomar banho de água fria ou se não tiro prazer do desconforto, eu digo que não tiro. "Ah mas não aprendeste nada com esta lição" – não, nada, zero. Eu estava mais confortável aqui, que é o que me acontece muita com viagens. Existe muito, sobretudo agora, uma cultura de desconforto, de sairmos da nossa zona de conforto e tirar prazer e memórias daí. De viajarmos para a Índia, com uma mochila e uma gastroenterite; ou a ideia do hostel com um japonês por cima. E eu sempre fiz isso quando não tinha condições financeiras e, mesmo tendo, os meus amigos levam-me para aí. De repente marcam uma semana em Itália numa caravana em condições... [Percebo que as] pessoas tirem prazer daí: do desconforto, de serem bloqueados e dormirem com mosquitos. Eu nunca tirei. O meu ponto é: ganhei alguma coisa com isto? Ganhava, se estivesse confortável. E eu também exponho isso [no "Clube da Felicidade"]. Não quero criar essa narrativa positiva de que tudo o que é longe da urbanização é o segredo da felicidade.

JD: Eu estou super empático com o que acabaste de dizer. Acho que quando tinha a tua idade fui a Paredes de Coura pela primeira vez. E já trabalhava, numa consultora e ganhava bem – podia perfeitamente não ir acampar. Lembro-me de ter ido acampar, choveu a potes, eu passei imenso tempo dentro da tenda, fiquei molhado e às tantas lembro-me de falar com os meus amigos, que estavam exatamente na mesma condição financeira que eu, e pensar "o que é que a gente está aqui a fazer? Por que é estamos a passar por isto? Nós não temos necessidade, nesta altura, de o fazer".

CCV: Eu tive exatamente essa epifania, o que estás a dizer. "O Resto da Tua Vida" tinha acabado de sair. Eu até já tinha recebido uma chamada do Bruno Nogueira em Itália, que ia fazer o Altice, muito tempo antes. E de repente estávamos nós, numa zona ao pé da Sicília, a dividir uma moeda de 50 cêntimos para tomarmos um banho de água fria. O meu amigo a certa altura diz: "Carlos, para quê? O Sérgio Godinho atuou contigo em palco, acabaste de ter um convite para atuar no Altice e estamos os dois a dividir 50 cêntimos de um duche frio. Para quê?". Eu disse: "eu também não sei". A conclusão? Ah, mas o giro é a história. Epá não é, que eu fiquei todo assado. Eu lembro-me de estar com raiva e não tirei prazer disso. Não voltava a repetir.

Carlos Coutinho Vilhena - Clube da Felicidade

MM: Nas últimas semanas uma das coisas que tem sido mais falado no circuito do humor foi o especial do Bo Burnham [comediante americano, disponível na Netflix]. Eu acho que não vi nenhum humorista a dizer mal e todos elogiaram como um ótimo exercício criativo durante a pandemia, que acaba por ser um bocado o que o "Clube da Felicidade" foi. Vais ser o primeiro humorista a não gostar daquilo?

CCV: Não. Eu adoro tudo o que ele faz. É um misto entre ficar triste, sabendo que nunca vou chegar ali perto, e ficar com esperança. Não sei explicar... ele dá-me horizonte, parece que acrescenta seis quilómetros de estrada e dá para fazer tanta coisa ainda: dá para olhar para uma maçaneta e fazer um bit de stand up sobre isso. Eu adorei aquilo. Fiquei triste às vezes. Há ali várias coisas que nós – eu e o Pedro Durão [guionista] – coisas que a maior parte das pessoas não repara, mas a cena da lua, por exemplo, eu tinha uma plano genérico que era só a lua e que já tirei. Não é que o Bo Burnham me tenha plagiado, mas às vezes parece que o mundo está igual. Ainda ontem estava a ver um episódio do "Dave" [série protagonizada pelo humorista e rapper americano Lil' Dicky, disponível na HBO]  e o primeiro episódio parece que ele está a plagiar o Bo Burnham, porque está no estúdio a fazer uma coisa frenética, quase em depressão, mais magro, a tentar criar e aquilo não dá. Mas não, não é, ele gravou aquilo há um ano. Às vezes acontecem estas coisas e a nossa obrigação é alterar. "Ah mas já está tudo filmado". Pois, mas temos de pagar mais um dia e alterar o episódio. Foi o que me aconteceu numa coisa ou outra.

JD: N' "O Resto da Tua Vida" tu tens uma sequência que é igual, ou parecida, à d' "O Assassinato de Gianni Versace". E isso foi assumido por ti que era assim. Ou seja, se assumires que é parecido ou que estás a copiar propositadamente estás confortável com isso, mas se for uma coisa que até nem sequer fizeste de propósito já te desconforta?

CCV: Sim, porque tem quase a ver com uma ética entre os pares, que é não usar figuras enigmáticas que entram nas mesmas coisas. Não sei se reparam nisso, mas há sempre esse esforço de não repetir convidados. Eu gosto disso, acho que se chama pastiche. Eu vi agora um documentário sobre o assistente do Kubrick, em que ele dizia que o Kubrick não acreditava na criatividade pura – essa coisa de inspiração da alma, que o Lobo Antunes às vezes gosta de explorar, a ideia de repente a caneta se mexe sozinha –, ele acha que é uma série de experiências que tu tens e depois há pessoas que, quimicamente, conseguem fazer mais ligações e têm uma ideia boa. E o Kubrick fazia isso. Ele via todos os filmes, punha prints dos planos e desmontava tudo. Há filmes que eu vejo que me passam qualquer coisa e há um mérito naquilo. Eu depois tento desmontar aquilo tudo e perceber como é que pode resultar em humor, que é o contrário.

JD: Há um documentário chamado "Everything is a Remix" que fala sobre como nós usamos as referências que vamos apanhando. No caso do Quentin Tarantino, isso até é bastante mais óbvio porque tens sequências de cenas que vão beber imenso ao cinema asiático. 

CCV: Eu acho que a única obrigação de alguém que cria produtos artísticos é acrescentar alguma coisa ao que já existe. A vida é tão curta que, se não trouxeres nada de novo, mesmo pegando nessas sequências que já existem, o que é que há de relevante?

MFS: Tu já falaste várias vezes, inclusive com o Pedro Teixeira da Mota, sobre trabalho versus talento. Continuas a achar que o trabalho é mais importante do que o talento? Ou, por exemplo no teu caso, se não tivesses talento estas duas séries não seriam feitas?

CCV: Eu acredito menos naquilo que eu disse. Não é talento que eu acho, talvez sensibilidade. A ideia do talento chateia-me porque é uma coisa divina, que não é palpável, e parece que tira mérito às coisas. Mas eu acho que é tudo químico. Realmente há algo sensibilidade, que eu notei mais nesta série, que eu não sei o que é. Isto de tomar as opções porque sim e porque resulta. E os músicos devem sentir muito isso. O Ricardo Araújo Pereira, numa conversa que tivemos [no podcast Ask.tm, de Pedro Teixeira da Mota], disse que isso também é alguma coisa que eu já vi e o cérebro foi lá buscar, e não é sensibilidade, é uma gaveta. Há pessoas muito mais cultas que eu em termos cinematográficos, de biblioteca, mas depois não conseguem traduzir aquilo em alguma coisa fresca. Não sei se é talento, é a forma como utilizas tudo o que tens lá dentro. Acho que há pessoas que são mais sensíveis.

MFS: Sendo que a sensibilidade também se pode adquirir através do trabalho, ou seja, quanto mais tu fazes e consomes, mais sensibilidade vais ter. Portanto, uma coisa pode estar diretamente ligada à outra. 

CCV: Acho que sim, sim. Acho é que há uma predisposição genética para isso. Depois pode ser adulterada, como eu que tomo medição para o défice de atenção.

JD: Ou álcool… 

CCV: Comigo não resulta. Nem drogas nem álcool, mas para algumas pode.

MFS: Há bocado falavas do conceito de felicidade artística. Não sentes que às vezes há uma certa romantização nos artistas do contrário de felicidade? Uma certa ideia de que os artistas são muito solitários, que precisam muito do processo de se isolarem, de se refugiarem nos seus próprios processos, no álcool, num coração partido ou o que for, para conseguirem produzir?

CCV: Sinto. Mas nem assino por baixo a ideia de que o artista é feliz, que a vida é incrível e que sofrer com os problemas dos outros ou com a falta de criatividade é uma coisa da cabeça, que isso se resolve e temos todos vidas incríveis. Também há esse culto dos "problemas da nossa cabeça", que acho que pode resultar em falta de exigência. Mas também não sou aquele artista decadente, como Charles Bukowski. Essa ideia irrita-me e afasta-me. Não acho que venha daí, até acho que é uma capa para justificar seres má pessoa e menos empática. Mas realmente a ideia do sofrimento, acho que é verdadeira. Quanto mais vais ao fundo – e ao fundo é sentires que és o pior humorista que existe; que não és valorizado pelas pessoas que estão à tua volta, não só pares como amigos; que não estás a produzir nada de interessante; que já passou o teu timing, que és fraco e não vais conseguir fazer mais nada de relevante – é importantíssimo para sair uma coisa nova. Quase uma metamorfose. Todos nós temos 3 ou 4 meses em que andamos numa miséria, feios, sem vontade para fazer coisas. Pelo menos a mim acontece-me. É quase impossível produzir uma coisa de novo não passando pelo processo de degradação, acho eu. Vagueio entre períodos de euforia extrema e períodos de tristeza profunda, sem drama nenhum, é só aceitar. Também não gosto de desvalorizar. É mais, "epá, sofre um bocadinho e utiliza isso".

MM: Há algum desses períodos que seja mais fácil de ser criativo ou ter inspiração?

CCV: É uma equipa. É ténis a pares, porque são os dois precisos. Tu só mudas efetivamente como pessoa depois de ires lá abaixo, questionares muito e perceber que já fizeste tanta porcaria, não sabes mesmo nada disto, estás longe de fazer alguma coisa interessante de que tu gostes, e veres as coisas dos outros. É ir abaixo porque isso faz-te ter outros dramas. Depois traduzes isso na coisa que vais fazer nesse momento de euforia, onde as ideias estão a aparecer e tu pensas que sabes fazer tudo. Acho que são precisos oito meses dessa tristeza. Estou a dizer isto mas já me estou a arrepender porque não gosto da ideia de "ah mas eles também sofrem. Não conseguias ter a ideia da vida de um artista". Não, não, lixado é fazeres o que não gostas, trabalhares oito horas e o patrão ser um cabrão contigo. Isso é que é duro.

MFS: Do que resulta desses processos, a quem é que tu mostras aquilo que tu fazes antes de lançares?

CCV: Mostro sempre ao Pedro Durão, que escreve comigo, que não só está exatamente na mesma frequência que eu, tem sempre ideias muito boas e tem muito mais referências que eu. Eu quando estou na dúvida se já alguém fez aquilo, pergunto-lhe. Ele acrescenta muitas ideias e é brutalmente honesto. "Estás a fazer isto para seis pessoas só". Às vezes sou eu que tenho mais essa parte do "ya, puto, isto é bom e eu sei que vamos ter de traduzir esta emoção para uma miúda de 18 anos que está a ver as tendências do YouTube, alguém no Twitter vai dizer que isto não é tão interessante porque estamos a explicar demais, mas tem de ser que esta série tem de resultar. Não estamos na RTP2, temos de fazer isto para ter alguma visibilidade". Eu faço esse debate com o Pedro Durão e depois também mostro a alguns amigos meus, que são honestos. Eu sei exatamente retirar de bom aquilo que estas três ou quatro pessoas me dizem. Às vezes dizem coisas más e eu não oiço. Se dois amigos dizem "epá, isto aqui não sei quê", eu digo "pois, não percebeste".

JD: Eu tenho uma teoria, que se calhar é só minha, de que tu quando fazes alguma coisa queres agradar a um grupo reduzido de pessoas. O que quero dizer é que tu podes ter o maior sucesso, mas se aquelas três pessoas gostarem...

CCV: É a definição certa. Às vezes nem são pares, são só pessoas que tu reconheces alguma cultura e te criticaram em certo ponto da carreira. E às vezes é só uma única pessoa e estás a trabalhar que nem um louco para aquela pessoa te validar. Mas eu não acho isso fatal, até é interessante. Contudo, não me posso dar a esse luxo nem quero. Eu gosto, mais do que agradar aquela pessoa, irritá-la. Fazer uma coisa que aquela pessoa percebe e não alienar 200 mil – e isso é que me dá prazer. É um trabalho quase de relojoeiro: como é que isto vai ser interessante para alguém que tem uma cultura de séries gigantesca e não vai achar que isto é só mais uma coisa ou que estou a usar um clichê para passar esta emoção. De repente as 200 mil pessoas perceberam de outra maneira e isso é o que me dá mais pica.

JD: Só para mudar aqui radicalmente de assunto. Sentes que estás a recuperar e a dignificar a moda dos chinelos com meias?

CCV: Sabes que eu acho que se calhar me vou arrepender, no futuro. Eu agora acho que não só é confortável, como gosto, esteticamente. Acho interessante, provocador. E gosto mesmo, nem foi uma coisa assim tão pensada.

JD: Mas não estás de chinelos e meias agora, ou estás?

CCV: [Mostra chinelos e meias] Olha que estou. Eu estou sempre assim. Eu sou um ator do método. Eu só não ando assim para ir ter com avós, às vezes família em batizados e não sei quê. Percebo as críticas, aceito, reconheço. O Cavaco foi muito gozado na altura por usar meias brancas com fato. Respeito, aceito, estou a perceber. Mas vamos à guerra. Cada vez que saio de casa com isto eu sinto que posso. Eu quero usar e sinto-me bem, não é por ser vedeta. Acho que usaria isto à mesma em qualquer outra profissão.

MM: É uma moda perfeita, até para a pandemia. Nós estivemos não sei quanto tempo todos de calções e a trabalhar de meias. Tu simplesmente trouxeste o outfit para fora.

CCV: O meu primo já utiliza isto há anos. Sem meias, mas pronto. Eu peguei.

JD: Lá está, acrescentaste qualquer coisa. 

CVV: Agora acho que só vai durar até setembro. Depois vou passar para mocassins. Já estou a revelar aqui.

JD: Mas mocassins, calção e meia?

CCV: Não, epá, polémico. Estou a negociar ainda com a minha equipa de design. Estou a pensar em mocassins com berloques lá à frente ou sapatos de vela. Polémico. Estou a tentar romper com uma imagem que cultivei durante seis anos e o sapato de vela pode lá voltar, mas estou a estudar essas duas hipóteses. Vai chegar uma altura em que vou ter de deixar de andar de ténis.

MM: Temos agora um dilema para ti: imagina que a Netflix te dizia que podias ter um especial de stand up ou uma série documental na plataforma, pagando o mesmo. O que é que escolhias?

CCV: Uma série. Eu nunca me senti muito confortável a fazer stand up, acho que não é bem a minha praia.Acho que tens de ter uma predisposição para fazer isso bem, que é o exemplo do Bruno Nogueira e de outras pessoas, em que a voz, o acting, as pausas são perfeitas. Eu senti sempre que trabalhava muito mais do que os outros e era sempre pior do que muita gente. Depois, o stand up para mim é muito limitador em termos criativos. Agora quando fiz a peça "O Resto da Tua Vida" [depois da série no YouTube, esteve em cena uma peça com o mesmo nome], utilizei raios laser, confetes, fumo, asas de anjo, cantei. E tudo isso é o que o Bo Burnham faz, mas eu não sou músico portanto nunca na vida vou poder fazer uma coisa parecida com aquilo. Mas essa ideia de performance, além do stand up, é uma coisa que me dá muito mais prazer e eu vejo-me mais a fazer isso. Mesmo assim, entre fazer uma coisa ao vivo ou uma série, prefiro uma série.

MFS: Estamos quase a terminar, mas só porque nós somos um espaço que fala de séries, de filmes e de podcasts, o que é que tu andas a ver, ouvir ou ler?

CCV: Uma série que me surpreendeu muito foi "Patrick Melrose". Representa tudo aquilo de que eu gosto em qualquer obra artística: frescura, soco no estômago, provocação e, ao mesmo tempo, não te perdes na narrativa. Não é nada consensual no sentido da estrutura, mas qualquer pessoa percebe aquilo e é angustiante de ver. Depois, cada episódio é um filme. Eles fazem os erros todos que fazem qualquer pessoa que estuda cinema mandar-se da cadeira, mas eu gosto disso.

Eu agora estou a ler a biografia do António Champalimaud, feita pelo Jaime Nogueira Pinto. Polémico. E o livro da Maria Filomena Mónica, que acho que é "O Olhar do Outro", sobre todos os estrangeiros que estiveram cá em Portugal. Gosto dessa ideia de perceber até que ponto a imagem que nós temos de nós próprios é real ou não, e acho que ela é muito imparcial nesse sentido. "Os Ricos", dela, também li e gostei muito. E "Os Pobres" também.

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