“Apesar de tomar rigorosamente à letra tudo aquilo que o Fernando Pessoa disse do Ricardo Reis, José Saramago não esquece que o homem é o lugar das contradições”, afirmou a docente da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (UC).

Ao citar o sociólogo e crítico Augusto M. Seabra, disse que Saramago, na obra que escreveu em 1984, “instaura a diferença no âmago da semelhança, reconstrói a criatura de Pessoa, pintando-a com outras tonalidades possíveis e levando-a, desde as páginas iniciais do romance, a protagonizar um processo de humanização que a tornará sua”.

Essa criatura será “a sua personagem, o seu Ricardo Reis, que, embora o mesmo, é um outro”, acentuou.

Ana Paula Arnaut intervinha no primeiro dia do congresso internacional “José Saramago: 20 anos com o Prémio Nobel”, iniciativa da Universidade de Coimbra, que decorre nesta cidade até quarta-feira, na qual apresentou uma dissertação intitulada “Ricardo Reis: o mesmo e o outro”, integrada na mesa plenária “Personagens e identidades”.

“Para compormos o retrato do 'outro' Ricardo Reis, de Saramago, que é também o 'um', de Pessoa ou vice-versa, há que entrar no jogo, tão ao gosto do poeta modernista, e fingir tão completamente que chegamos a fingir aceitar como pessoa a pessoa que deveras o é”, disse, tendo em mente o célebre poema pessoano “Autopsicografia”.

Trata-se, pelo menos, da pessoa “que deveras o é na realidade da criação pessoana e na realidade reajustada do universo alternativo que o romance saramaguiano também consubstancia”.

Neste contexto, Ana Paula Arnaut, especialista na obra de José Saramago, fala de um escritor “consabidamente empenhado em não ficar indiferente ao espetáculo do mundo” em que viveu, em 1936, ano em que deflagrou a guerra civil de Espanha e em que, em Portugal, ocorreu o levantamento contra a ditadura de Salazar que ficou conhecido como Revolta dos Marinheiros.

Ou daquele mundo "em que, talvez num futuro não muito distante, teremos que habitar se não nos regermos pelos valores elementares da liberdade, da igualdade e da fraternidade”, referiu.

Na sua opinião, por outro lado, não parece “difícil aceitar que a diferença entre este Ricardo Reis e o 'original' decorre não só da dimensão carnal que vive, em nítido abandono do estoicismo por que o 'outro' pauta a sua vida”.

Os redimensionamentos e remodelações propostos em “O ano da morte de Ricardo Reis”, de José Saramago, “contaminam, seguramente, de forma indelével, os esquemas cognitivos previamente existentes sobre o heterónimo”, defendeu, numa comunicação em que, além de Augusto M. Seabra, cita outros estudiosos de Pessoa e Saramago.

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