A única coisa sobre a qual o Guilherme pensa tanto (ou mais) do que na morte — ele, o homem que teme o infinito, inconformado com ausência que é fruto do seu ateísmo, mas que também acha a imortalidade irá chegar e que a vai falhar só por pouco — é na comédia.

Foi a comédia que em fevereiro de 2017 o tirou da frente dos computadores, o fez trocar a engenharia informática pelo palco e pelo blog, a full time. É lá que minimiza os medos. Em tour pelo país com o seu segundo solo, “Só de Passagem”, Guilherme Duarte diz que “isto sou eu quase a tentar convencer-me de que se a gente se rir valeu a pena”.

Foi nesta tour que foi confrontado pela primeira vez com pessoas a abandonar a sala do espetáculo devido a um piada. Aconteceu em Vila do Conde e em Guimarães. Esse é o mote para falar do humor propriamente dito, de storytelling e one liners, dos tempos e contratempos, das inseguranças e do treino, da necessidade de falhar e de praticar.

Afastado da Netflix há seis meses, para não se deixar influenciar pelos especiais, tem sido no Maxime Comedy Club, na Praça da Alegria, em Lisboa, que tem estado em contacto (e dado palco) a outros humoristas, dos maiores aos menos conhecidos do público.

Uma aventura que lhe permite assistir à evolução da cultura de humor em Portugal, um país onde, “apesar de tudo, há um bom clima para se fazer humor”. Mas há ainda caminho a fazer: “um comediante americano com um ano de carreira atua mais vezes do que um gajo com 20 anos cá. Se calhar, porque atua cinco vezes por noite todos os dias”. Por cá, “semana a semana já é muito”. É daí nasce este título, do bom e do mau que a Netflix traz a um país em que a cultura de comédia em bares ainda está a crescer e o humor a amadurecer.

Numa conversa sobre medos, humor e o país, fica ainda o desejo de um dia poder fazer um espetáculo para pessoas surdas, um projeto que tem há muito tempo na algibeira e que quer concretizar em breve.

O teu novo solo chama-se “Só de Passagem”. Assim que vi o cartaz lembrei-me de uma coisa que a minha avó me costuma dizer. Todos os natais ela dá um grande abraço aos netos e diz que não sabe se cá vai estar para o ano. Sempre que o faz ri-se, encolhe os ombros e diz: “mas também não faz mal, nós não somos daqui, estamos só de passagem”.

Lá está. Como estamos de passagem e isto é curto, às vezes muito curto, outras vezes menos curto, e rir acaba por ser das coisas que nós levamos mais. Aqueles risos com a família, com os amigos, esses bons momentos... Acredito que no fim da vida são esses momentos que ficam e não outras coisas com que perdemos tempo, 'picuinhices'. Não levamos porque, no meu entender, não vamos para lado nenhum. Mas acho que é isso, como estamos só de passagem é aproveitar para rir e passar bons momentos.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

O título é também um exercício de psicanálise?

É um bocadinho olhar e perceber porque é que me meti nisto da comédia. Acho que o facto de ter algumas ansiedades em relação à morte, e ter sempre essa perspetiva de que vou morrer, que é uma coisa chata e que não me apetecia nada, foi uma das coisas que me fez enveredar pela comédia.

A morte é uma coisa que te desconcerta?

Desconcerta, desconcerta. Isto sou eu quase a tentar convencer-me de que se a gente se rir valeu a pena. Desde os meus 12 anos que me lembro de pensar muito nisso. E por não acreditar em nada depois da morte... Não sou daqueles ateus que vive confortável com isso. Aliás, pelo contrário, acho que ser ateu me causa mais ansiedades.

É a noção do infinito?

Não dá para imaginar, é um conceito tão abstrato que o teu cérebro não consegue perceber. É o não existir. Por outro lado, não deve custar nada … porque... não existes. Por outro lado, isto é bom, a vida é boa, não me posso queixar, só gostava que fosse maior.

Mas imagina que a vida era infinita, não corríamos o risco de sermos uns acomodados?

Também deve ser chato. Uma vez li uma metáfora que dizia: "imagina o que é leres um livro que nunca tem fim", não fazia qualquer sentido. Ou comeres uma sobremesa que não termina. Apesar de às vezes te apetecer mais, é o facto de terminares a sobremesa que te dá prazer. Tento pensar às vezes um bocadinho nisso e em como faz sentido morrer, até porque é uma causa natural da evolução da espécie. Se não, não estaríamos cá. Mas ainda tenho muito a esperança de apanhar a imortalidade com a inteligência artificial. Ou de fazer o download da consciência para um sistema, ainda estou com alguma esperança. Acho que vamos falhar isto por pouco.

Mas se isso acontecesse já não estavas aqui “só de Passagem”.

Já não, mas se fores imortal podes sempre escolher não viver, podes provavelmente morrer de outras formas. Desligas a ficha.

Já estás a pensar o depois da vida?

Adormeces cem aninhos, depois acordas passado esse tempo para ver como é que isto está. Mas também deve ser uma chatice. Acho que não estamos preparados para isso, acho que o mundo não está preparado para a imortalidade.

Porquê?

Acho que quando acontecer — porque acho que vai acontecer, não daqui a muito tempo — vai ser para os ricos. E acho que isso vai causar uma anarquia total, porque se há pessoal que para subsistir já recorre ao crime, imagina quando a subsistência é a imortalidade. Vai causar um gap gigante entre ricos e pobres. Vão ser tempos conturbados.

Há uma frase do RAP que diz que somos o único animal que sabe que vai morrer e que se ri. Também achas que estas duas coisas estão interligadas?

Há várias teorias do riso, umas mais datadas, desde Aristóteles e a teoria da superioridade, e outras mais recentes. Não sei se está totalmente provado que somos os únicos que riem, não sei se os golfinhos e os macacos não riem.

Tu usas o riso para te distrair da morte...

Uso, mas não sei se em termos evolutivos essa característica do riso nasceu daí. Não sei se quando éramos seres mais primitivos e quando começámos a ter noção da morte se o riso surgiu aí ou não. Mas o riso e o choro são as únicas emoções que partilhas com uma tribo que não fale a nossa língua ou que nunca tenha tido contacto com o resto da humanidade. O riso e o choro são transversais a todas as culturas.

É a universalidade do riso, portanto.

Acho que não há países ou tribos que se riam de outra forma. É uma coisa tão espontânea que nem consegues... O choro se calhar é mais facilmente falseável do que o riso, agora 'aquela' gargalhada dá para perceber bem quando é que é ou não genuína.

"Se fosse tudo uma liberdade completa e ninguém ficasse ofendido era difícil fazer um humor mais irreverente e transgressivo"

Imagina que alguém fora deste planeta, alguém que nunca viu nada disto, se senta à tua frente e te pergunta o que fazes. Quão estranho achas que seria explicares que o teu trabalho é fazer pessoas rir a falar de temas como a morte?

Não sei como é que conseguiria explicar isso... quer dizer, eu sei! Às vezes as pessoas dizem que só podes gozar com uma doença se a tiveres. E temos todos esta doença: vamos todos morrer. Então gozar com a morte devia ser a coisa mais natural do mundo, porque é aquele humor autodepreciativo. Se eu fosse um gajo imortal a gozar com a morte, se calhar as pessoas olhavam um bocado de lado, "este gajo está aqui a rir-se da nossa desgraça". E não é isso, estou-me a rir da minha própria desgraça e do meu medo.

Sentes que há alguma desgraça sobre a qual não possas fazer piadas?

Já me surgiram piadas sobre tragédias em que pensei "será que isto tem assim tanta piada?". Isto vai ofender ou tem piada suficiente para contrabalançar essa parte ofensiva? Às vezes acho que não, acho que é uma coisa que posso dizer no café com amigos em que o contexto ali é que somos todos uns javardos, uns animais, mas toda a gente se conhece e sabe que a intenção é boa. Se for transpor isso para as redes sociais não vai compensar. Mas não tenho nenhum tabu, acho que nunca houve nenhum assunto que dissesse "não, é demasiado forte". Se a piada for boa, faço.

"Mandar bocas quando tens 500 pessoas na sala a rir e a aplaudir e achares que tu é que tens razão é um bocado presunçoso."

O limite é ter graça.

Não pode haver outro para um humorista. Não acho que seja um bom princípio ao partires para a escrita de comédia dizeres-te que não podes tocar em certos assuntos. Tal como acho que normalmente não é bom querer falar de alguns temas, porque depois podes cair no "tenho uma mensagem para passar" e esqueceste das piadas. Mas não pode haver tabus, se concedes num, "epá, não posso fazer do cancro". Ok. Então não posso fazer piadas sobre SIDA, também não posso fazer sobre tuberculose. A gripe também não, mata muita gente por ano. E pronto, aí já não tens doenças. Se não posso brincar com doenças também não posso brincar com deficiências ou com a morte, e depois vou fazer piadas com quê? Já não dá. Começas-te a castrar.

Então a pergunta é: como é que é ser comediante numa altura em que piadas são confundidas com opiniões e figuras de estilo interpretadas literalmente?

É giro. Estaria a ser hipócrita se achasse que esse clima não me ajudou também a crescer. Tocar em alguns temas sensíveis — em que passo às vezes a minha opinião e às vezes opiniões completamente contrárias às que eu tenho — só porque acho que tem piada fazê-lo, e o facto de isso causar alguma confusão a quem lê ou quem vê, porque não é capaz de interpretar bem, por não saber a minha real intenção, acabou por gerar polémica e buzz nas redes sociais e fez com que as minhas coisas chegassem a mais pessoas. Eu não o faço por isso, faço-o para ter piada, mas sei que tocar nisto [em determinado assunto] vai ofender muita gente e vai fazer rir outras pessoas. Essas pessoas que às vezes ficam ofendidas e decidem ir lá barafustar também me ajudaram a crescer e a vincar a minha persona humorística, sendo que sou um bocado uma besta às vezes. Portanto, seria hipócrita dizer que o politicamente correto está a castrar. Desde que não vá parar à censura — bloquear páginas e programas e despedir pessoal —, desde que não vá para aí o politicamente correto pode ser nosso aliado, porque os humoristas têm de estar na frente a esticar a linha. Se fosse tudo uma liberdade completa e ninguém ficasse ofendido era difícil fazer um humor mais irreverente e transgressivo. Vivemos é num ambiente em que se resvala muitas vezes para a censura, especialmente nas redes sociais. Nos Estados Unidos e em Inglaterra até em comedy clubs às vezes não se pode fazer piadas. E aí sim, aí já me preocupa, mas em Portugal acho que apesar de tudo há um bom clima para se fazer humor.

Recentemente foste confrontado com uma situação, e pela primeira vez na tua carreira: tiveste pessoas a sair da sala durante o teu solo por causa de uma piada.

Sim, foi giro. Eu vi-os a sair, no espetáculo em Vila do Conde, sem dizer nada e disse para o público "temos dois desistentes e é assim que se devia fazer nas redes sociais: não gostas, vais à tua vida". E nisto o gajo volta para trás e diz "para ouvir parvoíces, ouço em casa". “Então, estava a elogiar-te e afinal és um coninhas?”, disse eu. Estava a ver que o gajo vinha a palco, que ia haver porcaria, mas foi-se embora e depois acabou por ser o mote do espetáculo todo. Por um lado, respeito quem vai a um espetáculo sem saber ao que vai, acho que é bom ter esse espírito de descoberta e respeito perfeitamente uma pessoa não estar a gostar e ir-se embora. Agora, mandar bocas quando tens 500 pessoas na sala a rir e a aplaudir e achares que tu é que tens razão é um bocado presunçoso.

Não ficaste nervoso?

Fiquei a pensar como é que ia lidar com aquilo. Por um lado, ele está no direito de se ir embora, mas eu tinha que o destruir naquele momento, não podia ficar por baixo. Tinha de ganhar a discussão. Foi um momento de alguma tensão, mas acho que ficou uma história gira para contar.

Depois isso voltou a acontecer em Guimarães, no espetáculo seguinte e na mesma piada, não foi?

Sim, eu disse no fim: “obrigado, neste ninguém saiu”. E alguém do público "epá, saíram duas pessoas!". E eu perguntei se tinha sido naquela parte e eles disseram que sim e eu: "ainda bem, está forte esta parte".

A piada era sobre o quê?

Nem era uma piada específica, era um beat sobre casais que, como vemos às vezes nas notícias, violam e matam o próprio filho. Percebe-se perfeitamente a minha opinião, aquilo é horrível, são pessoas doentes, mas a questão é: como é que se conheceram? Foram feitos um para o outro, têm o mesmo gosto mórbido! E era por aí, explorar isso, como é que surgiu o tema, quem é que lança a ideia. Tu vês claramente que não estou a gozar com as vítimas, até podia estar a fazer a piada pela piada, mas estou a tentar marcar a minha posição. Estou a levar o público para um sítio onde se calhar nunca foi.

Não ficaste a pensar que se calhar devias eliminar aquela piada?

Se saíssem 500 pessoas e ficassem duas sim, se calhar pensava que era uma piada estúpida. Mas como as outras pessoas se riram e eu, quando escrevi aquilo, achei que tinha piada e que era um ângulo engraçado. Houve quem me mandasse mensagem a dizer "quando tu começaste fiquei muito desconfortável, mas depois dei por mim a rir a perceber o que é que estavas a dizer". Sei que não vou agradar a toda a gente, nenhum humorista na história agradou e não é minha presunção fazê-lo. Acho que é perfeitamente legítimo as pessoas não gostarem e irem-se embora. Agora, saiam é caladinhas.

"Quando terminei o outro solo fui a muitos barzinhos testar para ganhar estaleca, às vezes é mais fácil fazer rir mil pessoas numa sala do que quarenta num bar."

É o maior medo de um humorista: não ter graça quando está em palco?

Não há nada pior do que fazeres uma piada e veres as caras das pessoas a olhar para ti do género "epá, foi mesmo seca". Isso é o maior medo. Tu estás ali um bocadinho para despertar reações e até o encolher de ombros é um riso, um riso que as pessoas não querem extravasar, mas por dentro estão a achar piada. O pior é o silêncio, que é sinal de que não tiveste piada nenhuma.

Estava a perguntar porque tu dizias, antes do teu primeiro solo, que ficavas "todo borradinho". E agora?

Ainda fico, sim. Curiosamente, o único espetáculo em que eu não fiquei muito nervoso, ou tão nervoso como é habitual, foi na estreia deste novo solo no Porto, não sei porquê. Alguma coisa se passava naquele dia, não sei se alguém me pôs um calmante numa bebida sem me dizer, mas eu estava tranquilo.

Foi um momento de inconsciência?

Era tanta coisa para me preocupar que acabei por não me preocupar com muito. Agora sinto mais pressão, porque se os espetáculos anteriores correram bem tu queres sempre que este corra, pelo menos, tão bem como os outros. Fico sempre nervoso. Umas vezes muito, outras vezes médio, mas nunca consigo estar completamente relaxado.

Não sentes o amadurecimento do outro solo para este?

Em termos de nervos, não. Acho que é a mesma coisa.

E de comédia?

De comédia, acho que sim, principalmente ao nível da entrega. Acho que em palco estou melhor. Em relação ao texto é diferente, o espetáculo é muito diferente do anterior. Pessoal que foi ver os dois disse-me que gosta ainda mais deste. Se calhar este está mais consistente em termos de cadeia de riso. O outro, se calhar, surpreendia mais porque ninguém me tinha visto ao vivo num espetáculo a solo, foi o primeiro. Em termos de entrega estou melhor. Também fiz por isso, quando terminei o outro solo fui a muitos barzinhos testar para ganhar estaleca, às vezes é mais fácil fazer rir mil pessoas numa sala do que quarenta num bar.

É neste solo que acabas por ficar mais ligado ao humor negro?

Não, não. E quem for ver [o espetáculo] percebe. Tenho a parte das bojardas, que são piadas, na maioria, de humor negro. Mas depois falo de coisas como não querer ter filhos, da minha juventude, de quando fumava ganza ou de ir a uma casa de meninas sem querer, aí tem zero de humor negro. Depois tem a parte da morte e do suicídio que já vai mais para aí. Mas isso às vezes é um bocado catalogar. Tu podes fazer piadas sobre a morte e não ser humor negro, depende muito de qual for o alvo da piada e a piada. Eu gosto muito de humor negro e gosto de misturar, mas não gosto de fazer só humor negro, nem é por aí o meu caminho.

Tentas ter alguma coisa além do riso?

Não me preocupo muito com a mensagem. Acho que a única mensagem com que neste espetáculo me preocupo é mesmo as pessoas saírem de lá a pensar 'olha, foi giro. Ri-me e realmente temos de nos rir mais vezes, ir a mais espetáculos e aproveitar melhor a vida'. É a única mensagem que está por trás, não tenho nenhuma pretensão.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Estás a fazer a curadoria do Maxime Comedy Club, como é que tem corrido?

Tem corrido surpreendentemente bem. Estávamos com algum receio, porque é sempre difícil, e já se tem tentado muito em Lisboa, onde é mais difícil ter público recorrente, mas temos tido. A sala é incrível, o público tem aderido muito bem, tem comprado os bilhetes ainda antes de saber quais é que são os comediantes que vão e esse é o objetivo a médio/longo prazo: é garantir essa qualidade, mesmo que vocês não conheçam as pessoas.

"É essencial que o público perceba que há esse processo e que nós não chegamos a palco e dizemos coisas de que nos lembramos e que são todas hilariantes. O público que acha isso é o público que depois diz que 12 ou 15 euros é caro para um bilhete. Não percebe que há um ano de trabalho por trás, de reescrita, de testes."

Falhar é importante?

É, mesmo para o pessoal consagrado. Ainda não há muito essa cultura cá em Portugal. É preciso perceber que para chegar a um solo é preciso bater muito texto e falhar muitas vezes e mandar 20 piadas terríveis ao lado para uma que corre bem e que depois vai para os solos.

Já falhaste muito?

Então, não? Muitas vezes. E sinto sempre necessidade depois dos solos de ir para sítios com texto que ainda não está muito bem trabalhado e de me sentir triste e ir para casa a chorar.

Já foste para casa a chorar?

Não (risos), por acaso não, a chorar não, mas muitas vezes fui para casa a pensar 'foi tão horrível', e encolhia-me na cama com vergonha. Acontece, mas faz parte.

E o que fazes quando isso acontece?

Trabalho mais, reescrevo, tanto perceber ‘ok esta piada se calhar é boa, preciso só de mudar aqui isto e de dar mais energia na entrega’. É essencial que o público perceba que há esse processo e que nós não chegamos a palco e dizemos coisas de que nos lembramos e que são todas hilariantes. O público que acha isso é o público que depois diz que 12 ou 15 euros é caro para um bilhete. Não percebe que há um ano de trabalho por trás, de reescrita, de testes...

Mas em certa medida o objetivo é esse, não é? Parecer que não houve trabalho nenhum.

É afinar ao ponto em que está tudo fluído, sim. Quando um realizador vai ver um filme a história é tão boa que ele não está a reparar nos aspetos técnicos, mas depois de ver o filme pensa nisso e sabe. Ou seja, no espetáculo não quero que as pessoas pensem nisso, mas quando saem do espetáculo é importante pensarem 'epá, o gajo para ter feito isto deve ter testado imensas vezes, aquilo está bom, faz tudo sentido'.

"Acho que a Netflix tem coisas boas, dá-te a conhecer uma série de gajos que não conhecerias a pesquisar no YouTube e que ali aparecem-te nas sugestões. Tem uma coisa má que é: nós somos comparados com os gajos."

O que achas deste momento? A malta parece estar a consumir comédia como nunca

Acho que é incrível, acho que é muito bom. Lembro-me de que no ano passado, quando comecei a marcar o solo e falava com outros gajos que diziam 'epá, em março vai haver dez solos. Isto se calhar vai prejudicar'. Eu dizia: 'vai prejudicar alguns, que há pessoal que vai ter de fazer escolhas porque não pode ver todos e não há dinheiro para tudo, mas se calhar vai haver quem me conheça, que leve os amigos’. Porque alguém diz, ‘olha vou ver o Guilherme’, e outro responde 'eu vou ver o Batáguas’. ‘Ai é? Então eu vou contigo ver o Batáguas e tu vens comigo ver o Guilherme’. E acabas por ganhar público. Pode haver saturação de mercado, mas acho que ainda não. É muito bom isto de haver pessoal que veio do digital a encher salas em todo o país.

A Netflix teve um papel importante nisto?

Ainda não, acho que foi mais o YouTube. A Netflix ainda acaba por ser um bocadinho residual cá, acho que o pessoal viu mais Louis C.K. no YouTube do que na Netflix. Acho que a Netflix tem coisas boas, dá-te a conhecer uma série de gajos que não conhecerias a pesquisar no YouTube e que ali aparecem-te nas sugestões. Tem uma coisa má que é: nós somos comparados com os gajos.

E quando é que a comédia portuguesa pode chegar lá? Já lá está um solo, do Salvador Martinha.

Um comediante americano com um ano de carreira atua mais vezes do que um gajo com 20 anos cá. Se calhar porque atua cinco vezes por noite todos os dias por semana. Ou seja, chega ao fim do ano com mil atuações e cá devem ser muito poucos os comediantes que têm mil atuações. E isso nota-se, porque tu vês um solo do Louis C.K. e ele faz aquilo há 30 anos, faz 500 ou mil espetáculos por ano, fez 300 ou 400 vezes aquele texto até filmar, fez uma tour de 150 datas e portanto a qualidade vai ser sempre maior, porque o stand-up vem muito com a experiência. Não quer dizer que depois não possa haver virtuosos como o Bo Burnham, que é novinho e que se calhar não andou muito pelos bares, começou também na net e consegue montar ali um espetáculo incrível.

É isso que falta? Prática e cultura?

Faltam as duas coisas, falta o público perceber que o humorista tem que errar para evoluir e dar tolerância ao erro. É como o guarda-redes que faz dez defesas boas, mete um frango e o pessoal só se lembra do frango. Às vezes no humor é isso, fazes dez piadas muito boas, mandas uma ao lado 'Ei! Já perdeste a piada'. Mas eu acho que isso vai mudar, quanto mais stand-up houver, seja comedy clubs, seja espetáculos grandes, o público também vai percebendo essa evolução. E depois falta maturidade no mercado. Nos Estados Unidos desde os anos 60/70 que o stand-up é uma coisa. E cá não, cá começou no "Levanta-te e ri!", começou na televisão, e a cultura de bares e comedy clubs começa agora a surgir.

E vemos muitos nomes do "Levanta-te e ri!" com algum receio em fazer stand-up. O Bruno Nogueira esteve 10 anos afastado, o Ricardo Araújo Pereira já não faz...

Não é o foco. E também provavelmente não precisam do dinheiro, também há esse fator. Para quem vem da net, em que o conteúdo que fazemos é todo gratuito, o palco acaba por ser uma forma de capitalizar esses seguidores e de conseguir monetizá-los. Para quem já começou na televisão e tem uma série de eventos, marcas, se não se sente confortável não se submete a essa tortura, que acaba por sê-lo.

Mas tu percebes esse medo?

Como público fico desiludido. Não fui ver ainda o Bruno Nogueira e adorava que o Ricardo Araújo Pereira tivesse um solo também. Mas como comediante percebo que chegar aquele nível e arriscares uma coisa diferente, apesar de eu achar que iria ser sempre bom e que não há razão para esse medo, percebo o receio.

Mas são o quê? 10 minutos horrorosos a entrar para o palco?

Diria que é uma hora. Quer dizer, é mais. Quando marcas as datas normalmente não tens o texto pronto, e há essa do 'pronto, já tenho o prazo', e parece que estás a trabalhar numa empresa e tens data de entrega. Depois há a tortura de vender bilhetes. E depois há a tortura de uma hora antes de entrar em palco, que é um crescendo de ansiedade e, por norma, toda a gente diz que está tudo nos primeiros cinco minutos. Se correrem bem, a partir daí estás tranquilo em palco. No dia a seguir, se estiveres espetáculo, é igual, é a mesma tortura.

créditos: Paulo Rascão | MadreMedia

Voltando ao Maxime, era indesculpável em Lisboa não haver um comedy club?

Não fomos o primeiro. Havia o Lisboa Comedy Club, que acho que estava a funcionar bem, mas que fechou por outros motivos. Depois tens o Cais a rir, no Cais do Sodré, que também costuma ter stand-up todas as sextas-feiras. Vais tendo um barzinho ou outro com eventos pontuais, o Chafarix, em Santos, também tinha todas as quintas. Começa a haver algumas tentativas, a diferença é que um comedy club lá fora está aberto de segunda a domingo. Todas as noites, vários espetáculos por noite e cá semana a semana já é muito.

Mas ainda assim há uma grande diferença Lisboa/Porto, o Porto parece ter mais...

Se viveres no Porto e não te importares de fazer 40 quilómetros podes ver comédia todas as noites. Tens Paços de Ferreira, Famalicão, tens no Porto dois ou três sítios, tens o Hard Rock agora com o Raminhos. E quem atua no Porto consegue atuar, se calhar, cinco vezes por semana. Há mais essa cultura. Acho que teve a ver com o pós-Levanta-te e ri!. Os humoristas que eram do norte fizeram melhor a coisa, porque juntaram-se mais, pelo menos é o que me contam, não foram cada um para seu lado, fizeram quase uma cartelização até dos cachets. 'vamos cobrar todos isto, que assim podemos movimentar-nos todos no mercado'.

Falando nesse momento em que uma pessoa sobe a palco, faz um open mic... Quando é que tu te apercebeste que tinhas piada?

Ainda hoje duvido, duvido sempre. Não posso duvidar muito, se não, não subia a palco. Há muita gente que diz 'epá, acho que não tenho piada'. Se achas que não tens piada, não sobes a palco. Quem sobe a palco tem de ter confiança pelo menos no que escreve. E durante muito tempo foi assim, achava que tinha piada a escrever, em palco duvidava muito. Não houve um clique, a primeira vez que eu fiz stand-up as pessoas riram-se, mas eram familiares e amigos da malta, portanto era batota. Depois fiz noutro barzinho e o pessoal riu-se, depois fiz noutro barzinho e foi uma merda. Depois fui fazer outra vez: 'olha, riram-se'. E é sempre uma montanha russa, até que começas a ter mais atuações que correm bem do que as que correm mal. Há muitas semanas em que penso que não consigo escrever mais nada, estou em burnout. Já falei as histórias todas que tinha, já não consigo ter piadas tão boas como aquelas que tive e essa constante renovação de material e criação é o mais difícil.

Obrigas-te a escrever?

Obrigo, até porque tenho crónicas na Antena 3 duas vezes por semana e no SAPO24. Logo aí tenho três obrigatórias. E para o blog e para o Facebook obrigo-me a escrever quase todos os dias, nem que seja uma piada solta. Às vezes vou para o Twitter só despejar porcaria. Depois para stand-up depende das alturas. Agora não estou a escrever nada, porque estou com o solo, mas mal acabe, daqui a um ou dois meses, tenho de começar a escrever coisas novas.

O que é que te faz mais rir?

A minha cadela quando caga na cozinha e vem ter comigo com as orelhinhas para trás. E estar com os amigos e com a família. A partir do momento que comecei a fazer [humor] sou um péssimo consumidor de comédia.

Não és aquele tipo de pessoa que vê todos os especiais da Netflix?

Depende, não vejo um especial de Netflix há mais de seis meses. Quando comecei o processo de escrita do solo larguei porque não queria ficar contaminado. Há muito tempo que não descubro pessoal novo. Vi o After Life, do Gervais.

Gostaste?

Gostei, foi fixe. Acho que foi a mais fraca que ele já fez, mas ainda assim está muito bom.

Em Portugal quem é que são os teus ídolos?

Se perguntares a qualquer comediante ele vai-te dizer os mesmos três: o Herman José, o Ricardo Araújo Pereira e o Bruno Nogueira. Acho que é isso.

Não foges à regra?

Não, estão no pódio. Depois há uma série de gajos que me marcaram e que me fizeram rir. O Jel e o Vasco, no Vai Tudo Abaixo, marcaram o panorama do humor e às vezes não lhes é reconhecido esse valor. O Bondage, que fazia Na Casa Deste Senhor, uma cena muito mais subversiva, que é genial e que acho que foi uma das coisas mais bem feitas em Portugal de humor. E depois gosto muito do Hugo Sousa, é dos melhores gajos a fazer isto, o Salvador Martinha, o Luís Franco Bastos, o Rui Sinel de Cordes... essa segunda vaga. Eu acho que estou na terceira vaga.

A vossa geração, em comparação com uma primeira geração de um Fernando Rocha, já não usa tanto one liners. Há uma outra forma de fazer humor?

Mesmo lá fora os comediantes mais consagrados hoje em dia fazem mais storytelling, o Bo Burnham, Jim Jefferies, Louis C.K.... One liners tens o Jimmy Carr, o Anthony Jeselnik e são de humor negro, específicas. Cá, da nova geração, também não há muita gente a fazer. O Daniel Carapeto tem momentos de one liners, e é muito bom, mesmo no Twitter.

Mas por que razão é que achas que houve essa mudança?

Fazer um espetáculo só de one liners é muito difícil, gabo a coragem de quem consegue fazer isso. Primeiro tens de te lembrar delas — é fácil lembrares-te de uma história que tem um princípio e um fim e das piadas que tens pelo meio. Lembrar-te de uma sequência de one liners é tramado e porque cada piada tem de ser melhor do que a anterior, enquanto na história gerir os ritmos é mais fácil.

Como é gerir esses ritmos? Não há um medo de poder perder o público a meio de uma história.

Tenho sempre esse medo, mas é ir testando. E às vezes tu percebes: fazes a história, achas que a punchline é muito boa e não funciona no fim. Pensas que a punchline é que é má e depois tiras palha do meio ou metes aquilo de uma forma diferente e já agarras mais a atenção do público e eles já se riem mais no fim. É testar. Um gajo escreve, pensa que está muito giro, vai para palco e depois ninguém se ri. É o tal masoquismo, a tortura passa por aí. Gosto muito de one liners, mas mesmo como espectador, um espetáculo de one liners cansa-me um bocado.

"O riso dos outros em nós, para o humorista que recebe o riso em palco... isso deve libertar aqui uma cambada de endorfinas, provavelmente parecido como quando injetas heroína."

Cansa?

Cansa mais. Até porque rir é cansativo, fisicamente, tens de dar ao público partes para eles respirarem um bocadinho para não se cansarem.

É uma questão de controlar o tempo? Deixar rir, respirar, aplaudir...

Costuma-se dizer que é o timing, e que é aquela parte que não se ensina. Não se ensina, mas treina-se.

E é uma felicidade grande em palco quando vês as pessoas a rirem-se e vês que isso funciona?

É giro quando tu às vezes contas a piada a alguém e eles 'epá, essa punch se calhar é um bocado fraca'. E tu levas aquilo a palco e o pessoal parte-se a rir e é 'vês que eu tinha razão? Vês?'. Ou, às vezes, ao contrário, "tens razão, vou mandar fora isto. Está horrível. Ninguém se ri disto". Mas quando testas uma coisa nova e tens o riso e às vezes até te surpreende, essa é a melhor parte do stand-up.

É? Essa reação do público?

Quando testas texto novo e não sabes se o pessoal vai rir e riem-se e reagem de uma maneira que não estás à espera, essa é a melhor parte. É o vício, não é? Aquilo é uma droga para nós.

O stand-up é uma droga?

O riso é, deve haver estudos sobre isso. O riso dos outros em nós, o humorista que recebe o riso em palco... isso deve libertar aqui uma cambada de endorfinas, provavelmente parecido como quando injetas heroína.

É melhor do que os charros?

Já não fumo há uns cinco anos, sabes? Mas eu acho que é melhor, a sensação é melhor. E às vezes nos dias a seguir estou um bocado deprimido, deve ser essa ressaca... Há um bocadinho aquela adrenalina toda, o corpo fica cansado.

Por isso é que estavas a dizer que daqui a dois meses vais já começar a escrever o próximo?

É, um gajo também tem de fazer dinheiro.

Alguma ideia em mente?

Gostava de fazer um espetáculo só para pessoas surdas. Quando eu e o Ricardo [Cardoso] fizemos o 'Falta de Chá' houve pessoal a dizer: "sigo as tuas coisas e leio, mas agora os vídeos não posso ver". E foi a primeira vez que eu pensei: o pessoal que consome humor na net não tem quase nenhuma comédia em formato de vídeo porque ninguém põe legendas. É uma hora que perdemos por episódio a fazer isso no 'Falta de Chá', mas fazemos. E foi giro depois ver o feedback, ver pessoal a agradecer e outros a dizer que não gostaram - a esses eu respondo sempre que com som tem mais piada. Depois pediram-me nos espetáculos para ter um intérprete em palco e eu disse 'pá, não dá'. Vai estragar a experiência para as outras pessoas. Se for um espetáculo em que tens um camarote e tu queres lá um intérprete contigo, na boa, agora eu não posso ter um intérprete em palco porque vai estragar o espetáculo para as outras pessoas todas, que são a maioria.

E o que estás a pensar fazer? Aprender Língua Gestual Portuguesa?

Não, queria fazer um espetáculo em que só podes entrar se fores surdo. E aí tens o intérprete na sala porque assim não estás a estragar o espetáculo a ninguém. Deve ser giro porque não vou ouvir risos e os aplausos são no ar, também não fazem barulho. Para mim deve ser uma experiência engraçada porque o feedback é totalmente diferente. Se calhar tenho de ter luz na sala, o que eu não gosto de ter, mas preciso para ver as caras das pessoas, perceber se estão a rir ou não. Já ando a pensar nisto há uns tempos... Não sei se já alguém fez, provavelmente lá fora já deve ter sido feito.

O Diogo Faro tinha uma intérprete em palco no espetáculo em Viseu, mas na plateia não havia só pessoas surdas.

O Jim Jeffries tinha um beat em que falava disso, eu já tinha pensado e quando o ouvi entendi logo. Se eu tive um intérprete em palco, quando disser uma caralhada as pessoas vão estar todas a olhar para o intérprete a ver como é que se diz a caralhada em língua gestual. Está-me a estragar o espetáculo porque está a tirar o foco de mim.

Mas não achas que deve ser estranho estar em palco sem receber a resposta sonora do público?

Os surdos mudos não se riem, fazem barulho, mas não é aquele riso típico. Deve ser estranho. E quando tens um intérprete pode ser estranho, tens de ter um trabalho antes, ensaiar, não podes estar ali a traduzir em cima. E os trocadilhos? Perdem-se. Eu tinha uma piada no espetáculo anterior em que dizia que gostava de ter uma filha chamada Custódia para me divorciar e dizer que estou a lutar pela custódia da Custódia. Custódia escrito diz-se da mesma maneira e soa igual, provavelmente em língua gestual não. Custódia de nome é uma coisa, custódia dos filhos é provavelmente outro gesto. Se os gestos não forem homónimos como são as palavras perde-se a piada. Mas olha, se saírem ofendidos não podem dizer nada, o que é a melhor parte (risos).

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