O projeto, realizado no âmbito de Passado e Presente – Lisboa, Capital Ibero-americana de Cultura 2017, é da autoria do Gabinete de Estudos Olisiponenses da Câmara Municipal de Lisboa (CML).

Contactada pela agência Lusa, uma das curadoras do projeto e responsável pelo Gabinete de Estudos Olisiponenses, Anabela Valente, sublinhou que "um dos problemas do presente na América Latina é o racismo, e tem uma origem histórica, a escravatura, em que Portugal foi um dos principais culpados".

O projeto "Testemunhos da Escravatura. Memória Africana" foi realizado pelo Gabinete em conjunto com 41 instituições da capital - de museus e bibliotecas, a tribunais e fundações - e selecionou cerca de 200 peças e documentos relacionados com esta atividade comercial lançada pelos portugueses no período dos Descobrimentos.

Anabela Valente recordou que o Gabinete de Estudos Olisiponenses foi convidado a apresentar projetos no âmbito da Capital Ibero-americana de Cultura 2017, que refletissem os problemas atuais da América Latina, e decidiram abordar um acontecimento com 400 anos que "continua a ter impacto no presente".

"Foram os portugueses que iniciaram a escravatura no século XVI, e por isso quisemos falar sobre as consequências negativas que chegaram até hoje. Lisboa foi o palco principal", apontou a investigadora.

O Gabinete contactou instituições da capital que tivessem peças ou documentos ligados à escravatura e 41 aderiram, expondo-as com a respetiva contextualização histórica.

"Há muitas memórias nos museus, mas normalmente não estão tratadas dentro do tema da escravatura. Nós pedimos às instituições para escolherem as peças, e realçar esta ligação para lançar a reflexão sobre o tema", disse à Lusa Anabela Valente.

Como havia instituições que não tinham espaço para mostrar as peças, algumas só estarão acessíveis 'online', no site testemunhosdaescravatura.pt, que estará ativo a partir de sábado, quando o projeto for apresentado, às 15:00, no Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa.

De acordo com a responsável pelo Gabinete de Estudos Olisiponenses, nas exposições estarão "muitas peças que nunca foram mostradas ao público, e que darão um novo olhar sobre a temática".

O tráfico, o combate e abolição da escravatura, as questões económicas, as vivências e os quotidianos do escravo, o racismo, a legislação, tradições culturais e religiosas, e a iconografia do africano são algumas das matérias tratadas nas exposições.

Questionada sobre se haverá algum tipo de "tabu" nos museus portugueses para abordar a escravatura, Anabela Valente disse que não existe, mas "há uma atitude natural de mostrar o melhor, e não o pior da História de um país".

"A escravatura nunca foi suficientemente discutida em Portugal, sobretudo do ponto de vista do escravo. Em Lisboa todas as famílias tinham escravos, das mais pobres às mais ricas", recordou, sobre um fenómeno que "está a aumentar nos dias de hoje".

"De acordo com os últimos dados, o lucro do tráfico de pessoas já ultrapassa o das drogas", salientou.

No sábado, será inaugurada a exposição "Prisão para Escravos", no Museu Nacional de Etnologia, e a exposição "Um Museu. Tantas Coleções!", no Museu Nacional de Arqueologia.

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