Nesta sexta-feira, Úria voltou aos kimonos, Capicua trouxe um robe turco que só aguentou vestido uns longos (e quentes) 2 minutos. “Podes tirar, como ato simbólico do desconfinamento”, brincou Samuel.

A quarta conversa, que junta o cantautor de Tondela a um colega de profissão, pode ter sido a mais séria (nos temas), mas não deixou de trazer o lado descontraído de dois amigos em plena cavaqueira.

O alento do desalento

De um ‘onde é que estavas no confinamento’ para o prazo de validade da produção artística (ou editada) nas vésperas e durante a pandemia. Samuel Úria elogiou um texto escrito por Capicua para a revista Visão, pela “sinceridade na ausência de otimismo”. “Deu-me algum alento (…) o simples facto de haver pessoas a querer enfrentar as coisas sem o falso positivismo”, revelou.

Capicua aceitou o elogio e demorou-se a explicar o que pretendia com o texto, regressando à crise de 2008 e fazendo um ponto de comparação com 'o que nos espera'.

"Estou um bocadinho preocupada, isto é dramático. Não só do ponto de vista profissional, mas também geracional. Pouco tempo depois de sairmos da faculdade levámos com a crise de 2008: nunca vais comprar uma casa, não vais ter filhos antes dos 40 e vais andar com esse chaço em terceira mão o resto da tua vida".

"A crise de 2008, apesar de ser uma tragédia para tanta gente e para a nossa estabilidade e aspiração de futuro, foi boa para a música portuguesa. Havia muita gente, como eu, que tinha estudado para ser outra coisa, mas que não tinha emprego. ‘E pá, se é para ser pobre, bora ser feliz, bora fazer música’. Mas não tenho a certeza que depois da Covid-19 e destes meses no deserto, se levarmos com uma crise económica forte, como se espera, se no fim de tudo, se ainda vai haver músicos. Acho mesmo que corremos o risco de o mercado sofrer tanto que, se os que estão no topo da cadeia alimentar baixam as calças, tudo se desvaloriza".

"Artisticamente, um disco é um objeto desvalorizado, não ganhamos dinheiro a vender discos. As pessoas estão habituadas a ouvir música de graça. O que nos valia era os concertos, mas agora não os temos. Se quando voltarmos a tê-los, o mercado estiver tão degradado que andamos a vender concertos ao preço da uva mijona, não sei o que vai acontecer".

Nadar com tipo o Camões

Samuel Úria insiste no futuro: Como será? Como é que os músicos farão em relação ao excesso de oferta, de edições e concertos? Como é que um álbum editado neste período mantém a sua atualidade na espuma dos dias? Recorde-se que Capicua editou no final de janeiro o seu terceiro álbum de originais, "Madrepérola".

“Vai ser complicado tentar combinar os reagendamentos com as novidades. Há pessoal que está a guardar os discos para quando isto acabar ou regressar à normalidade. Por outro lado, há montes de coisas que já estavam marcadas e vão ser reagendadas. Vai haver um boom de coisas”, respondeu Capicua. A rapper assumiu, depois, não querer estar a lançar coisas por uma questão estratégica, como se estivesse a dizer: "Estou aqui, olhem para mim".

 "Tenho a minha dignidade, se calhar vou fazer outras coisas. Não quero entrar no jogo de estar a tentar nadar com o meu disco na mão, tipo o Camões com os Lusíadas" — visualizem.

A gente só se diverte imenso uma vez

Falando em dignidade e ainda dentro do tema das pressões da indústria, Samuel Úria (muito jornalista, deva-se dizer) perguntou depois se Capicua nunca sentiu "pressão editorial" para fazer outro "Vayorken"?

A resposta foi negativa e sustentada pela construção de um público diversificado, que não está à espera apenas de hits radio friendly.

"Primeiro não contava que aquela música fosse um êxito, transversal às gerações e aos públicos. Sempre pensei que fosse uma coisa para o pessoal da minha geração, dos anos 80. Aquela que sabe quem é a Jane Fonda e que viu as aulas de aeróbica (...) Senti que se ficasse escrava dessa fórmula, ia-me boicotar a mim. Eu tenho um concerto que umas vezes é bastante político e outras é emocional, não fazia sentido todo o público ir à espera de 'Vayorkens'.

"Nunca tive vontade de trabalhar para aquele hit de rádio que esvazia de sentido o resto do concerto. O que consegui foi manter uma variedade e é disso que me orgulho mais no meu percurso: ter um público variado. Se vais sempre na mira do sucesso de rádio, vais falhar redondamente. Da mesma forma que aquilo foi um sucesso nada programado, forçar uma repetição ia ser desvirtuar a minha identidade".

O Norte, essa entidade de Bragança a Viseu

Como em todas as conversas, chegou a altura da pergunta da redação do SAPO24. Desta vez a questão esteve associada a um termo recentemente utilizado por Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto. O que te ocorre quando ouves o tema portofobia? Ele existe?

Mais uma vez, a resposta foi negativa: "Não acho", respondeu Capicua.

"Vivemos num país muito centralizado e só quem está fora de Lisboa é que percebe como ele é monocéfalo. Se nós, no Porto, podemos ter razão de queixa, imagino quem está em Vila Real de Santo António ou em Bragança", lembrou.

"Não acho que haja portofobia, acho que às vezes há uma tendência para uma espécie de tribalismo que identitariamente acaba por galvanizar as hostes. E que acho que não favorece o nosso espaço democrático e cívico. É um bocadinho voltar àquelas caricaturas do bairrismo básico, que nunca caracterizou, na verdade, o Porto", continuou.

"Estudei em Lisboa, e ainda vivo parte do meu tempo lá, e não sinto que haja portofobia. Existe algum desconhecimento daquilo que é o Porto. Os lisboetas têm uma noção um pouco vaga do que é o norte. Tipo uma entidade que vai de Bragança ao Porto, passando por Vila Nova de Cerveira a Viseu", brincou.

Hip-hop, Lisboa vs. Porto

Continuando em dicotomias regionais, voltamos novamente à música e ao hip-hop. Samuel Úria quis saber se ainda existe uma escola do Porto e uma de Lisboa, com as suas diferenças e características específicas.

Segundo Capicua, "essa diferença, que havia no início", e que era temática e estética, "já se esbateu".

"No Porto, o hip-hop era mais filosófico e existencialista; em Lisboa, como era mais misturado com a música dos PALOP e influenciado pelo hip-hop americano, falava de temáticas mais político-sociais", explicou.

Mas, entretanto, "o hip-hop teve uma grande expansão e há uma diversidade maior", disse. Para Capicua, "no Porto já não há essa marca, mas há uma atitude que se mantém".

Atitude, influenciada sobretudo pelos Dealema (grande influencia da rapper, assumiu): "Eles criaram uma cena no Porto, sobretudo o Mundo Segundo, que continuamos a cultivar como herança".

"[O Mundo] criou festas, deu beats aos rappers que, como eu, estavam a começar, e gravou a maior parte da segunda geração de rap do Porto. Ficámos muito marcados por aquela atitude muito underground, muito preocupada com a transmissão da cultura. E com uma forma de estar em público muito espontânea, nenhum de nós é muito performativo. Não temos roupa de palco, somos o que somos".

Samuel Úria interveio, depois, com o desejo de que uma "cultura da confrontação", associada ao estilo, fosse transportada para o mainstream. Ou seja, Samuel quer mais beefs na pop e no rock [e o que seria vê-lo a trocar galhardetes com, hum, Benjamim?] Mas Capicua rapidamente afastou essa possibilidade, e explicou porquê:

“Isso é difícil acontecer nos outros estilos de música porque no hip-hop não é uma questão estética, é quase de ADN. O hip-hop é uma cultura competitiva em todas as suas dimensões. Há concursos de graffiti, battles de b-boys ou de improviso. Vindo da margem, o espírito competitivo é o que faz a cultura evoluir tecnicamente. Há um espírito de autosuperação e de superação dos nossos pares que nos atira para a frente".

Como é que o bicho mexeu

Capicua foi uma das intervenientes, ao longo dos últimos dois meses, do programa (já lhe podemos chamar assim?) de Bruno Nogueira no Instagram, "Como é Que o Bicho Mexe".

Quem acompanhou, recorda-se que foi a própria que trouxe à conversa nomes como Nélson Évora ou Quaresma numa temática que envolvia Bruno Nogueira ter, por um dia, um órgão sexual diferente daquele com que nasceu. Ou que, na véspera do 25 de Abril, declamou Sofia de Mello Breyner feat. Sérgio Godinho em "Liberdade".

Desses diretos, assumiu vir a ter saudades: "Aquilo foi para mim terapia de grupo. Houve dias muito bons, mas também houve dias mesmo miseráveis. Nesses dias só os lives do Bruno Nogueira, e o meu bebé, é que me fizeram rir", disse.

Somos o ratinho que não parou

Para terminar, já em tempo suplementar, Samuel Úria voltou a vestir de jornalista: Que lições podemos retirar e que aproveitamento artístico podemos fazer deste período pandémico?

Para a rapper, podemos retirar "muitas lições", mas preferiu concentrar-se numa coisa que a desiludiu.

"Pensar que esta quarentena podia ter sido um tempo de abrandamento. Nós somos mesmo aquele ratinho da roda. Não saímos de casa, mas estamos sempre ligados: a ver diretos ou a fazer aulas de ioga. Não conseguimos parar o ruído. Não sei se é por sermos crias do capitalismo — ‘crise é oportunidade, temos de trabalhar’ — se é a nossa cena judaico-cristã — da culpa de estar sentados no sofá sem fazer nada. Não sei o que é, mas gostava que tivéssemos sido capazes de abrandar. E não conseguimos.


"Conversas de roupão com Samuel Úria" é a nova rubrica do SAPO24. Nas próximas sextas-feiras, pelas 16h00, o músico estará à conversa com um convidado escolhido por si no nosso Instagram.

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