Östlund falava na apresentação da obra com que venceu a Palma de Ouro do último Festival de Cannes, antes da projeção no cinema Monumental, no âmbito do Lisbon & Sintra Film Festival (LEFFEST).

“Gosto de sociologia, porque olha para o ser humano quando falha, quando é mal sucedido”, porque faz “uma abordagem comportamental do que somos” e “permite aprender alguma coisa”, a partir dos erros, disse o realizador sueco, no início da sessão, pedindo às pessoas presentes que vissem “O Quadrado”, com o olhar de sociólogos.

O filme, uma sátira, desenrola-se enquanto um museu prepara uma instalação de arte contemporânea, “O Quadrado”, com a ação centrada no curador e na progressiva falência das suas relações, desde a equipa que o acompanha, à jornalista que o entrevista, da agência de marketing que faz a promoção da mostra, a uma criança que se sente injustamente acusada do roubo da carteira e do telemóvel do protagonista, e que o confronta, enquanto este vai perdendo o controlo da narrativa.

“O cinema, geralmente, tem tendência a descrever as personagens de uma maneira simplista: há o protagonista e o seu antagonista”, o herói e o vilão, “uma maneira simples e não verdadeira de abordar o modo como funcionamos”, disse Östlund.

“O Quadrado”, o filme, partiu de uma instalação que o cineasta fez com a produtora Kalle Boman para o Museu Vandalorum, “O Quadrado”, uma área que declararam “um santuário de confiança e solidariedade”, dentro da qual “todos são iguais em direitos e deveres”.

No filme, porém, o espaço fecha-se sobre as personagens. Östlund reconhece que joga com convenções assumidas por agentes de arte contemporânea, para alimentar a sátira, com situações reais que o inspiram, mas é a dimensão humana que o preocupa, a possibilidade de erro, a dificuldade na escolha.

“Interessam-me os dilemas, é o tipo de situações que amo”, disse o cineasta, após a projeção, confessando uma certa identificação com o protagonista, Christian, que, logo à partida, dá conta dos seus limites: a falta de meios para responder à concorrência dos colecionadores privados.

O curador “tem muitos fios a prenderem-no”, mas só “quando perde o trabalho, acaba por se libertar e assume as consequências dos seus atos”, disse o realizador.

Östlund gosta de situações complexas, gosta de trabalhar com a equipa sobre o argumento, na multiplicação de ‘takes’, processo que lhe permite correr mais riscos, durante a rodagem, garantiu.

Em “Força maior” (2015), prémio Un Certain Regard, em Cannes, dirige a desintegração de uma família, quando o pai foge, perante a ameaça de uma avalanche de neve; em “Play” (2011) aborda casos de ‘bulliyng'; na curta-metragem “Händelse vid bank” (“Incidente num banco”, 2009), Urso de Ouro em Berlim, inspira-se num assalto a que assistiu; em “De ofrivilliga” (“Involuntário”, de 2008), centra-se no fracasso das personagens das muitas histórias que interliga.

No encontro com o público de Lisboa, Östlund destacou os momentos de tensão preferidos em “O Quadrado”: o diálogo entre a jornalista e o curador, interpretados respetivamente pela norte-americana Elisabeth Moss (“West wing”, “Mad man”, “The Handmaid’s Tale”) e o dinamarquês Claes Bang (“Borgen”, “A Ponte”); o chimpanzé que habita a casa da jornalista; o “assalto” ao jantar de gala do museu pelo ator que simula os gestos de um orangotango – opção que o realizador disse ter gostado de levar a Cannes, num confronto entre os trajes de cerimónia do filme e os da plateia do festival.

“O Quadrado” estreia-se nas salas portuguesas de cinema na próxima quinta-feira.

O filme lidera as nomeações para os prémios da Academia Europeia de Cinema, a entregar em 09 de dezembro, a par de “Corpo e alma”, da realizadora húngara Ildikó Enyedi, que também será exibido extracompetição, no LEFFEST, a decorrer até ao próximo dia 26.

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