É um prato de parede. De cerâmica. Mede 61 centímetros de diâmetro. Nele foi recuperada a técnica de sobreposição de vidrados usada por Rafael Bordallo Pinheiro, nos finais do século XIX. A superfície foi desbastada com jatos de areia até se chegar à forma de um rosto. Feminino e anónimo. Batizado de Quimera, tem a assinatura de Alexandre Farto. Vhils, o artista contemporâneo habituado a pintar caras em prédios de vários andares e nas paredes de todo o mundo.

“Esta figura feminina é como uma fénix que renasce das cinzas, à semelhança da Fábrica Bordallo Pinheiro, que passou por tempos conturbados, mas soube dar a volta por cima. A celebração destes 135 anos é mais uma prova disso”, referiu Alexandre Farto, aka Vhils, ao SAPO24, a propósito da peça limitada a 135 unidades, tantas quantos os anos de vida da fábrica de cerâmica nas Caldas da Rainha, fundada em 1884.

“Mas também é um rosto anónimo com o qual nos podemos identificar, que também simboliza todos os funcionários da fábrica, gerações e gerações de artesãos, os do presente e os do passado, que continuam a contribuir para a visão e o legado de Raphael Bordallo Pinheiro”, continuou na sua explicação sobre as razões da escolha de uma figura feminina e o que representa.

Desenhado para a coleção WorldWide Bordallianos (o terceiro artista a fazê-lo depois de Paula Rego e Nini Andrade Silva) tem um custo de 3.900 euros. Vhils mergulhou quase dois anos no universo do mestre Bordallo Pinheiro; mesclou artes e ofícios, partilhou conhecimento e técnicas, dividiu trabalho e interagiu com os artesãos. Aprendeu a “admirar o grau de especialização dos seus processos de trabalho, o seu saber fazer, que vem passando pelas gerações, muitas vezes mesmo em famílias, a dedicação e o empenho com que criam peças tão originais”, descreveu. “Trabalhar com eles foi muito enriquecedor, revelaram uma enorme abertura em todas as fases, da definição da ideia à aplicação prática, e criámos, juntos, uma peça de que muito me orgulho”, resumiu. E que nenhuma é repetível.

Para Alexandre Farto aka Vhils, entrar na fábrica, no seguimento do convite feito, “fez crescer o respeito e a admiração que eu já tinha pela figura do artista multidisciplinar que foi Raphael Bordallo Pinheiro (1846/1905)”. Uma “descoberta incrível” que ajudou o pintor e grafitter português a perceber, para além dos “processos de trabalho” o “impacto que teve na democratização da arte, nacional e internacionalmente”, sublinhou. “E também na esfera social, da empregabilidade das pessoas ao envolvimento que gerou na comunidade”, concluiu o pintor nascido em 1987, um pouco mais de oito décadas depois da morte de Bordallo.

O SAPO24 aproveitou a efeméride e a homenagem feita a todos os que trabalham e trabalharam no universo cerâmico de Bordalo e visitou o museu da Fábrica (que foi a antiga fábrica), a loja e a atual unidade industrial nas Caldas da Rainha.

O Zé Povinho, as rãs, os gatos e as couves que contam a história da cerâmica

Numa visita guiada pela mão de Elsa Rebelo, Diretora Artística da Bordallo Pinheiro, somos informados, à cabeça, que a outrora Fábrica das Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro (1884), agora Museu e Loja, “não está assente nos terrenos originais”, explica, embora, tal como a sua antecessora, construída a metros de distância, bordeje o Parque D. Carlos I, uma vasta e verdejante propriedade que alberga o Hospital Termal e o Museu José Malhoa, entre outros pontos de atração histórico-cultural.

Natural de Lisboa, Raphael Bordallo Pinheiro, desenhador, caricaturista, ilustrador, decorador, jornalista, professor e ceramista, entra nas “Caldas” pela mão do irmão, Feliciano, frequentador das Termas. O “barro branco de faiança” e a “calcite” foram os elementos que convenceram o caricaturista que usava o lápis como um arma de intervenção política e social a meter as mãos no barro e revolucionar as artes tradicionais da cerâmica.

Logo à entrada, na loja, espaço minúsculo para tanto espólio, os olhos perscrutam um “best off” de Bordallo. O gato assanhado, o cão, as rãs, o mítico Zé Povinho, os pratos coloridos, as couves, louça diversa, um legado que se estende ao irmão, Manuel Gustavo e se prolonga pela contemporaneidade, representada, por exemplo, com as sardinhas do Santo António ou os cartoons do António.

Numa manhã, como tantas outras, escuta-se português com sotaque brasileiro e inglês dos Estados Unidos das América. Em casal, ou em grupo, serpenteiam, tal como elefantes numa loja de louça, por entre a vasta arte made in Portugal. Tiram fotografias e consultam preços.

Deixamos as compras e seguimos para a fábrica (museu), propriamente dita. À medida que se caminha pelas salas recuamos até à infância das nossas bisavós. Sente-se e respira-se influência bizantina, renascentista, hispano-árabe e naturalismo.

Escuta-se história. Zé Povinho, que nasceu antes da fábrica, a Maria Paciência, o escarrador agiota, a caricatura do político no parlamento em que gira tudo à volta umbigo, o Adamastor, o mapa cor-de-rosa, são “traços da nossa história pela cerâmica”, elucida Elsa Rebelo. Em relação às “couves”, as tais que nos remetem para memórias de napperons rendilhados, relembra que houve um tempo que “era de vergonha”. Mas não no grupo. “Entendemos que estão bem em todo o lado”, sorri.

Raphael era “crítico da igreja”, mas “gostava dos Franciscanos (figura do Santo António), alerta. Os azulejos tinham “relevo e eram pintados à mão” e estavam nos edifícios de fábricas. “Há uma influência hispano-árabe e da renascença”, caracteriza.

Para além das peças, o lado social esteve sempre presente na mente do mestre. Da fábrica fez um laboratório. “Foi pioneira”, explica. “O primeiro centro de formação do país onde recebia subsídio estatal para formar jovens (operários)”, revela. A ambição do criador era maior que as fronteiras portuguesas. Se a internacionalização é uma imagem de marca, Bordallo abriu as portas da nobre arte ao mundo na Expo Paris, 1889, ano da Torre Eiffel, na qual foi responsável pelo pavilhão de Portugal. “Produziu animais gigantes” e regressou com a “Medalha de Ouro e Prata”, um canudo visível numa das paredes. “Havia sempre uma portugalidade”, atesta.

Entre crises, a arte que segue os mesmos passos desde o século XIX

A fábrica teve “altos e baixos”, “aberturas” e “fechos”. As “crises” bateram, ciclicamente à porta, e a narrativa de falência e recuperação confundem-se num só, sempre com a preservação do legado histórico a inclinar o prato da balança para a última. A tal fénix reproduzida no prato de Vhils.

O filho, Manuel Gustavo após a morte do pai e a venda da fábrica em hasta pública, “recuperou os moldes na justiça”, mantendo a “propriedade intelectual”. Mais recentemente, em 2008, e perante a ameaça desta história chegar ao fim, todo o espólio mudou de mãos para o Grupo Visabeira (donos da Vista Alegre). E com esta transferência começa mais um capítulo da vida do legado de Bordallo.

Se nos tempos idos, na antiga fábrica, dos fornos a lenha, “à noite duas pessoas olhavam pela cozedura”, atentos à “cor da chama”, hoje, no novo e enorme espaço, na Zona Industrial das Caldas da Rainha, tudo é diferente. Ou talvez não seja assim tanto.

A industrialização chegou e com ponta de state of the art, mas a arte da cerâmica, continua a seguir os passos desde 1884. Primeiro, o desenho nasce no papel. Modelação, moldes criados, enchem-se de barro, segue-se ornamentação das peças. Primeira cozedura, pintura, aquece, pinta, pinta, aquece e última ida ao forno. Por fim, se perfeita, está finalizada.

Vítor Formiga está há 37 anos no universo bordalliano. Enquanto conversa está atento a modelar um prato de sopa. Proíbe a fotografia. Está no armazém de molde, um espaço fechado dentro de uma redoma de vidro, que alberga “2 mil peças”. A empresa tem um total de “7 mil referências”. Orgulha-se de ter conseguido recuperar moldes de “1900”, alguns dos quais ao encher os ditos de barro para se retirar o ADN. Há ainda “alguns por recuperar”, avisa. E moldes com “30 partes”. E de tamanhos vários.

A cerâmica é feita de pausas, embora os ritmos de produção remetam-nos para a vida apressada do século XXI. As “imperfeições” são tratadas, cuidadosamente, “por mão humana”. Na sala de ornamentação, onde tudo começa, nascem peças delicadas. Seja cão ou gato, prato ou jarra, a célebre lagosta, com patas, caudas e antenas ou minúsculas pétalas que fazem parte de um todo de uma peça de cerâmica constituída por inúmeras ornamentações que obrigam a minuciosa junção. Folha a folha.

O espaço é enorme. E o trabalho, segmentado, harmonicamente desenvolvido, é dividido por áreas de atuação. “Cada operária (o) sabe o que faz”. O quadro eletrónico ajuda a saber, com indicações precisas do estado da nação contabilizado ao minuto. O que está a ser feito e quem está a fazer.

De regresso ao processo. Depois de encher o molde com barro líquido quente, a peça, retirada do molde, repousará nas prateleiras à volta. Há vários exemplos acabados de desenformar. Bananas (da Madeira), gatos e saladeiras. Formas, nuas e cruas, ainda sem cor, seguem para a ornamentação. O banho de vidro é a paragem seguinte. Os funcionários da secção de pintura, curvam-se perante a arte que lhes chega às mãos. Os pincéis, ora traço fino, ora mais largo, são usados com o cuidado de uma pena.

Um cemitério cerâmico e um mundo de peças Bordallo

Antes de seguirem para aquecimento, as peças passaram por várias fases: moldadas, coladas, aparadas, ornamentadas, vidradas e pintadas. O trabalho tem muito de manual. Mas a perfeição exigida obriga, por vezes, à separação do trigo do joio feita ao som de pratos. A mão que aperfeiçoou todos os detalhes cerâmicos é a mesma com que, sem pejo, atira jarros, pratos, vasos e tudo o mais para dois contentores onde, com estrondo, quebram e, doravante, jazem num cemitério de louça. Um gesto com um Q de terapêutico este blitz do serviço do tempo da outra senhora.

Depois de embalada e carimbada com a rã (“figura que nasce como imagem de marca, em 1908, pela mão do filho, Manuel”, recua a diretora artística), segue para venda. Uma venda que se divide em obras da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro e do seu filho, Manuel, onde são colocados selos “Arte Bordallo”, ou as novas coleções criadas por artistas nacionais e internacionais convidados pela empresa - Bordallianos como o caricaturista António, Joana Vasconcelos, e, mais recentemente Alexandre Farto, e os brasileiros, Vik Muniz, Tunga ou Martha Medeiros.

Escuta-se um som. Uma buzina à hora certa (17h00). É tempo de saída. Alinhadas (os), as artesãs (ãos) que hoje continuam a história iniciada há 135 anos surgem de cada um dos cantos da nova e tecnologicamente avançada unidade de produção.

Uma história que continuará viva enquanto saírem das Caldas da Rainha, para Portugal e para o mundo, a inesgotável fileira de cães, patos, gatos, uns mais assanhados que outros, terrinas, peças de fruta, saladeiras, sardinhas, lagostas, couves, travessas, jarros, fruteiras e tudo o mais do nosso imaginário da fauna e flora. E sem esquecer o ícone, Zé Povinho. E a nova Quimera. O tal rosto feminino criado por Alexandre Farto aka Vhils. Que resume, em 61 cm, 135 anos de vida da obra de um mestre.

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