"Há pessoas que para rezar baixam os olhos, escondem nas mãos o rosto, voltam-se para o interior. E a oração configura-se como uma imersão, um mergulho semelhante à imagem oferecida pelo pequeno poema de Matsuo Bashô:

Silêncio
Uma rã mergulha
Dentro de si.

A oração é uma pedra que se afunda no interior vasto a que acedemos. Há outras pessoas, porém, que abrem esforçadamente os olhos ao rezar, que finalmente os abrem numa tentativa de olhar a vida no seu flagrante espanto, no seu rasgão dilacerante e no seu prazer vivo. Quer umas, quer outras estão certas. Todas as formas de rezar são insuficientes. Todas são eficazes. A arte de rezar é a arte de ser, apenas isso".

Quem o escreve é o Cardeal José Tolentino Mendonça, no seu livro "Rezar de Olhos Abertos". Aqui, o verbo rezar atinge uma outra definição, mais profunda do que aquela que surge nos dicionários. Rezar não é somente dizer orações, preces ou súplicas religiosas. Não é pedir alguma coisa ou agradecer o que se alcançou. É viver, dia-a-dia, aprendendo a ser. E, atualmente, ser traz novos desafios.

Se no livro "O Que é Amar um País. O Poder da Esperança", lançado em agosto, Tolentino Mendonça refletia sobre a pandemia e o que a humanidade poderia aprender com tudo o que esta trouxe, nesta nova obra surgem vários textos — orações — que ajudam a refletir sobre pequenas coisas da vida de cada um — desde a dificuldade em lidar com as segundas-feiras às crises, as financeiras ou as do quotidiano.

Assim, este não é um livro sobre a oração, mas sim um "caderno de práticas de oração", reunindo um conjunto de textos escritos pelo Cardeal ao longo do tempo e agora publicados. E, em cerca de 200 páginas, há de tudo. Vejamos, pois, o que nos contam alguns fragmentos — encadeando-os entre si num retrato dos nossos dias.

"As segundas-feiras"

Hoje é sexta-feira. Apesar dos tempos de pandemia e dos horários diferentes para muitos, não deixa de ser sinal de ter o fim de semana à porta. Significa, pois, parar a rotina habitual. Avizinham-se dois dias para tudo o que não há lugar durante a semana. E, inevitavelmente, abre-se caminho para a temida segunda-feira, o dia em que tudo volta a acontecer. Mas será realmente assim?

Para Tolentino Mendonça, rezar pode ser refletir sobre este malfadado dia — e ver nele mais do que habitualmente se vê.

"Não sei bem se a vida é diferente às segundas-feiras de manhã. Se depois do domingo, diante da semana que começa, sobrevém mais um sentimento de fadiga ou de ânimo, se estamos com mais sono ou com mais ímpeto, mais contrariados ou mais entregues, mais próximos ou mais distantes. Isso não sei bem. Mas parece-me que as segundas-feiras insinuam uma hipótese de regresso ao ponto de partida, configuram-se como um recomeço, um quilómetro zero que somos chamados a abraçar como uma oportunidade", pode ler-se.

Desta forma, em que podem ser transformadas as segundas-feiras? Como agir nestes novos inícios? Para o Cardeal, é preciso não pertencer à espécie dos "sonâmbulos repetidores" — e, se nos sentirmos "a voltar a cada semana ao mesmo sítio", é preciso identificar novas jornadas, com "vastidão", "desejo" e "disponibilidade para o amor".

"As perguntas que nos assustam"

Ultrapassada a dificuldade dos dias da semana, há sempre algo que fica à espreita. O ser humano, no seu dia-a-dia, vai ganhando vários receios. Temos medo de muita coisa — perguntas incluídas. Quantas vezes uma pergunta assusta por ser inusitada? Ou por obrigar a dar uma resposta que nunca foi dita em voz alta?

"Há perguntas que nos assustam e, se calhar, não deviam. Há interrogações que procuram, em nós, não apenas as informações, mais sérias ou mais triviais, que estamos prontos educadamente a dar, mas também aquela concreta verdade de nós que custa reconhecer", começa por apontar o Cardeal.

E vai mais longe. "Há questões dirigidas a esse território interior feito de silêncios, adiamentos, cansaços, expectativas rotas, estilhaços, fracassos, frustrações, infelicidades, sonhos que se apagaram sem dar lugar a outros sonhos", refere.

Neste sentido, Tolentino Mendonça conta um episódio, em jeito de oração, para ajudar a refletir sobre o tema.

"Recordo a história que me contou um amigo. Um dia destes, quando voltavam do colégio, a filha de quatro anos perguntou-lhe: 'Papá, as pessoas grandes são felizes?'. Ele subiu a miúda nos braços e colocou-a no seu colo, e só a conseguiu abraçar contra si, longamente. 'Se eu respondo, desato a chorar', era o que pensava".

À pergunta que parece simples aos olhos de uma criança, um adulto pode ter tendência a esconder-se. E o Cardeal não poupa nas palavras: é preciso "perceber a importância das perguntas que nos abalam, em vez de nos tornarmos, com a vida adulta, escapistas profissionais".

"Elogio da crise"

Olhando para a atualidade, há uma questão — que assusta igualmente — que tem vindo a surgir: como se vive outra crise? Todavia, é necessário olhar para o lado e perceber que crise é esta.

"Hoje não são apenas os mercados financeiros ou a política com os seus periclitantes ciclos que recorrem à terminologia da crise. Na nossa própria vida (a meio dela, ou para lá dessa etapa), apercebemo-nos de que avançamos por crises: sejam as grandes crises — quando a perceção de uma devastadora insegurança vital nos leva a colocar tudo em causa —, sejam as pequenas crises do quotidiano a que temos de dar resposta", reflete José Tolentino Mendonça.

Assim, seja como for, estas "podem ensinar-nos alguma coisa, podem ajudar-nos a entrar numa dimensão mais autêntica da própria existência, mesmo sabendo que elas acarretam o risco de nos lançarem também para o interior de uma turbulência que não estávamos preparados para enfrentar", frisa ainda.

Definindo uma crise como "um momento de sofrimento", o Cardeal compara-a a um parto, já que "pode ser ocasião para compreender que o tempo não é um dispositivo trágico sem redenção", sendo sim "aberto e reversível".

"Há sempre uma oportunidade de salvação, qualquer que seja a etapa do caminho. Num mundo desritualizado, e que nos mergulha numa incapacitante pobreza simbólica, muitas vezes são as crises que marcam a possibilidade de um reencontro com as interrogações mais sérias da vida", conclui.

"Nascer de novo"

Nesta lógica do nascimento, o responsável pela Biblioteca Apostólica e pelo Arquivo Secreto do Vaticano explora as várias vidas que existem dentro de uma só, num outro texto que convida à reflexão.

"Enganem-se os que pensam que só nascemos uma vez", começa por dizer Tolentino Mendonça. "Para quem quiser ver, a vida está cheia de nascimentos. Nascemos muitas vezes ao longo da infância, quando os olhos se abrem em espanto e alegria. Nascemos nas viagens sem mapa que a juventude arrisca. Nascemos na sementeira da vida adulta, entre invernos e primaveras maturando a misteriosa transformação que coloca na haste a flor e dentro da flor o perfume do fruto. Nascemos muitas vezes naquela idade avançada onde os trabalhos não cessam, mas se reconciliam com laços interiores e caminhos adiados", enumera, fazendo referência aos diversos momentos do crescimento humano.

E prossegue com os exemplos. "Nascemos quando nos descobrimos amados e capazes de amar. Nascemos no entusiasmo do riso e na noite de certas lágrimas. Nascemos na prece e no dom. Nascemos no perdão e no confronto. Nascemos em silêncio ou iluminados por uma palavra. Nascemos na tarefa e na partilha. Nascemos nos gestos ou para lá dos gestos. Nascemos dentro de nós e no coração de Deus", escreve.

"O bom senso" 

Contudo, é possível dizer-se que, para conseguir ver estas etapas, é necessário preservar o bom senso — e rezar de olhos abertos, como indica o título da obra. O Cardeal José Tolentino Mendonça refere, a título de exemplo, uma "pequena provocação" que o fez sorrir, observando a montra de uma loja.

"Havia uma gaiola e, dentro dela, em vez de um pássaro, alguém colocou uma pedra. Isto fez-me pensar em como enchemos a vida de pequenos equívocos, querendo que umas coisas sejam outras e exigindo que elas nos ofereçam aquilo que, simplesmente, não nos podem dar", começa por referir.

Neste sentido, lembra o filósofo francês René Descartes, que dizia que "certamente o bom senso será a coisa mais bem distribuída no mundo, porque todos pensam que têm que chegue". Para Tolentino, rezar também é "pedir alguns dons elementares, entre eles o bom senso".

"O bom senso de reconhecer os limites e saber esperar com delicadeza o momento justo. O bom senso de escuta. O bom senso da palavra refletida. O bom senso de conservar o humor", refere, como nota a uma forma diferente de ver o mundo.

"A arte da fraternidade"

Além de se tomar sentido ao que acontece, olhar para o lado também é ver o outro, que corre por vezes apressado ao nosso lado — o que faz com que também não o vejamos na sua plenitude (nem sejamos vistos).

"'Tudo bem?', perguntamos enquanto esbarramos de passagem. 'Tudo bem?', devolvem-nos de raspão. Às vezes nem dá tempo para se ouvir a rotineira resposta: 'Tudo'. Mas dá para perceber que os nossos encontros não são encontros. Cruzamo-nos, caminhamos ou sentamo-nos lado a lado, colaboramos em projetos, tomamos um café que parece feito de minutos roubados, repetimos a historieta banal que hoje está a circular e, e dizemo-nos 'Até logo', 'Até já'", reflete o Cardeal.

Todavia, Tolentino Mendonça afirma que não é a isso que a humanidade é chamada, mas sim "a ser testemunhas de que cada vida é uma história sagrada, de que cada coração bate de forma única". Desta forma, é preciso aprender "a arte da fraternidade" — para olhar e ver.

Em tempos apressados, pelo meio da pandemia, quantas vezes deixamos de a praticar?

"Não podemos viver sem esperança"

Por sua vez, além da pressa, os dias convidam também a que a esperança seja arrumada num cantinho. Para que isso possa ser combatido, José Tolentino Mendonça apresenta um exemplo, numa oração que, mais uma vez, conta uma pequena história.

"Não podemos viver sem esperança, mas esta não é uma tarefa nem evidente, nem fácil. Precisamos de uma educação para a esperança. A esperança não é um lenitivo que adormece a dor até que ganhemos coragem para tratar a sério da vida, mas uma força que impregna já o presente e nos motiva para a transformação da história", começa por dizer. A esperança é, então, "um dinamismo concreto, uma laboriosidade no aqui e no agora, um fazer aberto ao futuro".

"Sobre o seu significado profundo e como se pratica, há aquela história do velho monge que se propunha alcançar o cimo de uma montanha e que, numa das etapas iniciais do caminho, pernoitou numa estalagem. O estalajadeiro reparou na sua fragilidade e tentou dissuadi-lo, enumerando os perigos que o espreitavam. O monge, porém, respondeu: 'Tenho a certeza de que chegarei lá'. 'E como é que um homem fraco como tu pode ter semelhante certeza? Para mais, vem aí um inverno duro'. O ancião retorquiu: 'Coloquei lá em cima o meu coração e por isso sei que, mesmo assim inseguros, os meus passos hão de chegar lá'".

Com esta pequena narração, o Cardeal deixa visíveis valores que podem ser aplicados a muitos episódios de cada dia. E, no geral, todas estas orações agora publicadas em livro têm algo a dizer a cada um — acredite-se ou não em Deus.


O livro "Rezar de Olhos Abertos", de José Tolentino Mendonça, está publicado pela Quetzal Editores e disponível nas livrarias a partir de hoje, 13 de novembro.

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