Em primeiro lugar devo dizer que gostei muito do livro seu livro, pois as biografias geralmente são muito desinteressantes, porque são escritas por académicos que não têm qualidade literária, e não passam de relatos monótonos de factos e datas. Por outro lado, parece-me que tentou ser imparcial, no sentido de justificar psicologicamente a razão das brutalidades as arbitrariedades de Sebastião José.

De facto, a vida pública dele é uma espécie de vingança, de revanche, por uma juventude muito difícil, porque ele não era nobre propriamente, embora fidalgos da casa real, mas também não era um plebeu e a sua família foi maltratada na tentativa que fez de reaver propriedades a que teria direito. Isso é que o fez ser mais tarde ser tão vingativo; os seus excessos são o peso desse passado, e também da vida como diplomata, em que tantas dificuldades que lhe foram levantadas aumentaram um trauma que já existia. A carreira aprofundou um conflito já existente. Não penso, claro, que isso seja justificação para toda a violência de que foi responsável. 

Mas penso que uma biografia literária, como também notou, consegue precisamente o que uma biografia escrita por um especialista não consegue. Ambas são sempre complementares. Esta biografia era impossível sem o trabalho de muitos historiadores, mas acho que a abordagem literária permite, por um lado, que o autor seja um investigador, e por outro lado, uma espécie de psicólogo.

O historiador está interessado em estudar a época, o momento, a integração no percurso da História, enquanto o psicólogo está interessado em fazer um retrato centrado no personagem. Tentei não dar uma explicação total, deixar isso aberto ao leitor, e também tentar que alguns fatores sejam equacionados pela primeira vez.

Uma questão muito interessante em relação ao Marquês de Pombal é que as opiniões são contraditórias. Os republicanos gostavam tanto dele que lhe fizeram a maior estátua que há em Lisboa - e que, constrangedoramente, foi inaugurada em 1932, já no tempo da ditadura, e o Salazar não quis ir à inauguração.

O que leva ao outro lado. Salazar não gostava dele.

Salazar, que era um tirano como ele – e já vamos falar nisso – não gostava dele, porque o Pombal era anti-jesuíta e - eu tenho essa impressão, não sei se você concorda, que ele de fato não era anti-religioso mas também não era religioso. Quer dizer, a religião para o Pombal era apenas uma das formas de exercer o poder.  É interessante essa contradição, que nunca se resolveu. 

Acho que integrou muito bem aí a maneira como o Marquês de Pombal continua a ser lido hoje em dia. Identifico magnificamente essa divisão sobre ele na sociedade portuguesa, até recentemente. Mas acho que essa divisão existia dentro dele próprio. 

Houve sempre duas perguntas que construíram a minha investigação; a primeira, quando é que o Marquês de Pombal começou a ser ele próprio. Ou seja, como acontece connosco, quando é que temos a noção da nossa identidade. É uma pergunta interessante que o biógrafo pode fazer, quando é que ele tem noção da sua existência, quando é que a sua identidade se formou, quando quer isto ou não quer aquilo. Como Martinho Lutero, monge agostiniano, que a certa altura (em 1517) descobre que “Eu não sou isto, eu quero ser outro”, e contesta a Igreja Católica com as suas famosas “95 teses”. 

E depois, a segunda coisa é quando ele se transforma num monstro. Tive sempre a sensação de que ele era extremamente reativo. Ou seja, como diplomata, aprende a ser reativo porque tem que mostrar que faz o seu papel, e cria uma estratégia para o seu papel como embaixador, primeiro em Londres e depois em Viena.

Quando volta para Lisboa, primeiro mostra-se ministro competentíssimo, ele que era taxado de incompetente como embaixador. Mas depois, a partir do terramoto, a minha pergunta era outra; quando é que ele de facto começa a ser este monstro que nós conhecemos, este tirano. Porque tem um programa a cumprir; mas muitas vezes me parece que ele navega à vista. 

Por exemplo, essa sua pergunta, será que ele era anti-clerical? Eu não sei até se ele era anti jesuíta, porque de facto as suas relações de amizade com os jesuítas foram bastante fortes. Mas teria nele - e aqui voltamos outra vez à parte que o biógrafo pode ver - teria entrincheirado nele um certo anticlericalismo. Porquê? Uma relação conflituosa com o tio, que era padre; isso começou logo desde cedo. E o tio deve-lhe ter dito – disto não tenho provas, são suposições – quando o pai morreu: “Ou o menino vai estudar para padre, ou vai organizar a sua vida, não pode andar aqui sem trabalho.”

Ou vai para padre ou para militar, não é?

Exatamente. Militar ele acabou por ser. Mas imagine que a fuga para a sua quinta de Soure estivesse ligada a um conflito com o tio, que era padre. E, apesar do tio e ele se virem a dar bem no final, ao princípio deram-se muito mal. E depois, em Viena, os conflitos com a estrutura católica são do pior que ele pode imaginar. (Sebastião José foi para Viena mediar um conflito entre a Santa Sé e a Imperatriz Maria Tereza, e o Vaticano, chefiado por um eclesiástico português, Sampaio, foi muito agressivo com ele.)

Bem, a Santa Sé era apenas mais um Estado, mais um governo, funcionava com interesses completamente terrenos, materiais, não é?

Sem dúvida. E com maldades e histórias inacreditáveis. Mas ele defrontava-se não só com os problemas da Santa Sé, mas também com o padre português Sampaio, que estava em Roma, e ainda com os representantes que estavam em Viena e na Corte de Lisboa. Houve um momento, em Viena, em que todo o mundo ligado à religião e ao poder estavam a limitá-lo por completo. Imagino que isso deixou uma ferida. Essa parte não incluí na biografia porque isso implicaria muito mais páginas e uma investigação não tanto material, mas mais em termos (do significado) das palavras.

José Couto Nogueira (E) entrevista Pedro Sena-Lino (D), autor de “De quase nada a quase Rei”

Acha que ele ser maçon tinha alguma coisa a ver (com a sua postura)?

Porque ele era maçon iniciado em Inglaterra, portanto do Rito Escocês Antigo e Aceite, que era uma maçonaria não tão anti-religiosa, mas mais uma máquina de Poder. De qualquer maneira, era maçonaria, e ele tem bastantes “tiques” de maçon.

Por exemplo, acreditar no progresso, querer diminuir as desigualdades, acabar com a distinção dos cristãos-novos, permitir que os nobres das casas altas casassem com os das casas inferiores – isso são tudo atitudes do ideário maçónico. Você não explora muito esse lado dele, não sei se porque não quis, se por ser muito difícil ter acesso à documentação.

O ponto foi exatamente esse. Eu procurei as vias que pude, e foi-me dada uma data da sua iniciação maçónica, mas depois os contactos diretos que procurei para obter um documento, não consegui. Sem dúvida que há alguns aspetos que estão ligados à maçonaria, e os seus próximos, sobretudo em Londres, eram todos maçons, mesmo na Royal Society. Mas não obtive nenhum documento que me dissesse que, sim senhor, ele esteve nesta ou naquela reunião, o que seria uma prova. Mas naquilo que me é permitido eu consigo deduzir que há de facto algumas...

Muito provavelmente em Lisboa também usaria as suas ligações maçónicas, ou, ou ia buscar maçons ou fazia-os.

Sem dúvida. Mas, para mim, só para completar o seu ponto, além das medidas que muito bem notou, há uma coisa notória: eu conheço o palácio de Oeiras, que ele mandou construir, e que tem muitos símbolos maçónicos, inclusive o seu selo pessoal. Aí a evidência é estridente.

Pois, se calhar também era por isso que o Salazar não gostava dele. Como sabe, ele odiava os maçons, porque era um poder onde não tinha influência.

Aliás, a propósito, eu acho o Pombal bastante semelhante ao Salazar em muitas coisas. Um tipo que vem de baixo e que de alguma maneira se vinga abusando do poder. Evidentemente que há a diferença de épocas – o Salazar não podia mandar pessoas para a roda, mas mandou para o Tarrafal, que é mais ou menos a mesma coisa. Mas eles são parecidos; por exemplo, o Salazar era muito meticuloso e você mostra é que o Marquês também era assim, tinha tudo anotado, as contas, a persistência... Isso, aliás, favoreceu-o muito. Não concorda?

É muito curiosa a sua questão. Se me permite, só quero voltar um bocadinho atrás, à questão da religião, que não ficou fechada. Essa pergunta (se era religioso ou não) foi levantada logo em vida dele, quando já está em desterrado em Pombal, quando se defende das acusações que lhe fazem. Em Londres, sem dúvida nenhuma que é religioso, porque, como embaixador, tem uma capela aberta e sente que tem que defender um direito (dos católicos num país anglicano). Que ele é anti-clerical, sim, agora se é religioso não tenho a certeza. Tem um interesse espiritual nas coisas, sim, por mais pragmático que fosse. Ele integra as coisas num mecanismo maior. Isso pode estar ligado a outras visões que ele tivesse, como as da maçonaria.

Isso também está dentro do mundo daquela época, você leu as cartas, eles escreviam sempre invocando Deus e a Previdência Divina. Isso, fazia parte do estilo, se não parecia mal, não é?

Claro que sim.

É interessante que, ao mesmo tempo que ele era um tirano, é a primeira vez em Portugal que aparece uma visão do estado moderno, já Nouveau Regime. Acreditava na industrialização – até mudou o nome do Terreiro do Paço para Praça do Comércio.

Não acha que ele tinha uma visão muito mais moderna do que a do seu tempo, em termos de que o Estado deve interferir no comércio e indústria, deve ser economicamente organizado, deve ter contas? Porque no Ancien Regime, os bens do Rei e os bens do Estado, era tudo a mesma coisa. São políticas muito avançadas para o seu tempo; era realmente progressista em certas coisas.

Sem dúvida. Há uma coisa que é importante relembrar; nós nunca tínhamos tido um ministro principal, um Primeiro-ministro que ele foi, embora ainda não se chamasse assim, e que tivesse vivido no estrangeiro e confrontado outros poderes diferentes dos que havia em Portugal. Porque é que na biografia estabeleço uma relação com o compositor Handel? Para mostrar que um músico, também estava dependente do poder duma Companhia comercial (das Índias Orientais). O Handel foi obrigado a compor aquelas melodias que os acionistas da Companhia associavam ao Oriente, assim como o Marquês teve de acomodar o poder deles tantas vezes. 

Sem dúvida que a sua visão do Estado é completamente diferente, porque ele viveu em Inglaterra, um país em que o poder do Governo não era tão grande como em Portugal, e onde havia estruturas que funcionavam. Mesmo em Viena, ele encontra um Poder que está a ser refeito pelos Habsburgo, como o faz Maria Teresa, com pactos e alianças dentro das várias nações de que ela é dirigente. E há uma delegação dela nos ministros. Então, ele entende que essa é a estrutura. Devo dizer que ele fala sempre nisso, na estrutura arquitetónica do Estado. Compreende que o Rei tem de existir como cabeça do Estado e seu representante. É também por isso que o atentado (contra o Rei) é um choque, porque ele não consegue conceber que a estrutura do Estado possa ser posta em causa.

Acha que o atentado era contra o Rei, não era contra ele?

Isso podemos discutir a seguir. Mas eu concordo consigo: ele tem uma visão completamente moderna, mas muitas coisas que ele segue são coisas que viu em Londres, e sobretudo as reformas de Viena, que segue passo a passo.

Contudo, Viena ainda era muito Ancien Regime, e Londres já não era tanto, porque os ingleses tiveram aquela evolução parlamentar no século XVII, tinham um Primeiro-ministro executivo e um Rei com poderes reduzidos. Como costumo dizer, o último Rei de Inglaterra que teve opiniões, cortaram-lhe a cabeça (Carlos I, em 1649). A partir daí os reis ingleses foram-se afastando, até chegar ao ponto actual, em que não têm poder nenhum.

Mas você acha que ele foi mais influenciado, em termos ideológicos, pelo que viveu em Viena, ou em Londres?

O eixo do meu livro é a cronologia da vida do Marquês. Claro que estudei o homem que é embaixador e que depois é Secretário de Estado, partindo da juventude difícil. Mas penso que as maiores influências na vida dele, no estrangeiro, foram sempre o Walpole (o primeiro Primeiro-ministro do Reino Unido), um exemplo que ele vai imitar – e eu pego neste ponto muitas vezes – e foi a Maria Teresa (Imperatriz do Sacro Império Romano Germânico) pela admiração que tinha por ela, e também porque o modelo da corte de Viena era muito mais próximo do modelo português.

Em Inglaterra, ser culto era sinal de ser nobre, porque os nobres tinham tempo para se cultivar, enquanto em Portugal era ao contrário. No manual militar do Conde de Lippe (convidado por Pombal para reorganizar o exército, em 1762), ele escreve que os sargentos têm de saber ler e escrever porque os oficiais, sendo nobres, não precisam...

Mas então, quando Pombal cai e se dá a “viradeira”, há um recuo do país em termos de indústria e comércio, porque tudo o que ele tinha feito, eles quiseram liquidar. Só mais tarde, com a Revolução Liberal, em 1820, voltam as tentativas de industrialização e modernização do Estado. É assim, não é?

Sim, sim. E, sabe, uma das coisas que mais me impressionou, que foi das primeiras que li, foram as cartas que ele escreve à Dona Mariana Vitória, enquanto regente, e depois à Dona Maria I, precisamente preocupado com quem vai suceder-lhe. Essas cartas são obviamente lidas de duas formas; por um lado porque ele quer manter o seu poder, mesmo indiretamente; mas também há uma genuína preocupação de manter as políticas que estão estabelecidas. Ele tem a noção de que o que vem a seguir não vai manter as linhas claras do seu exercício. Refere que uma reforma só consegue ser permanente, ao longo do tempo, e se for cortada abruptamente não vinga. Essa é a questão principal.

Em relação aos nobres, é interessante que um dos motivos para ele ser promovido para embaixador em Londres, é precisamente porque o D. João V não quer nomear ninguém da grande nobreza. Portanto, ele é uma solução que aparece por várias outras circunstâncias, mas também para não se enviar um nobre. Não havia nenhum nobre das grandes famílias em nenhum cargo directivo nem em nenhuma embaixada, no tempo do D. João V. E isso foi mantido no tempo do D. José. Depois a Dona Maria compensa um pouco – o seu primeiro Governo é metade/metade, dois ex-pombalistas e dois membros dos grandes do Reino. Foi um equilíbrio que ela tentou estabelecer.

Mas sem dúvida que ele tem a noção de que é preciso refundar a nobreza, porque percebeu que sem estudar nunca teria conseguido chegar a lugar nenhum. Ele servia-se dos pergaminhos do passado, mas ao mesmo tempo de um estudo muito apurado. Tinha a noção daquilo que em França separava a nobreza intelectual da nobreza de espada, e que em Portugal não era como nós imaginávamos. Esse é o modelo que identifica consigo próprio. É importante o elogio que faz do Marquês do Louriçal, porque está a fazer um auto-retrato, indiretamente. Como se dissesse: “Eu não sou um nobre militar, eu sou outro tipo de nobre.”

Eu penso que não há nenhum desprezo da parte dele pela nobreza; pelo contrário, fez imensas medidas que ajudaram a nobreza; a Companhia dos Vinhos do Porto está nas mãos de muitas casas nobres. Achava que a nobreza tinha de se reformar e estar perto do poder real. É uma visão que ele partilha com o D. João V e com o D. José.

O D. José, apesar de tudo, tem uma posição importante nisto; quando recebe o poder nas suas mãos, subdivide-o. Tem a noção que é uma cabeça intocável, acima dos pormenores da governação.

Voltemos ao seu livro. Há uma frase sobre o Pombal que gostei muito: “O seu trono invisível é uma sobreposição de cadáveres.” Além da beleza literária, define bem a situação. Ele é que reinou, porque o D. José assinava de cruz. Simpatizava com ele e não queria chatices. “Deixa, que o Pombal trata disso.” E o Pombal reinou pela violência, as perseguições dele são duma crueldade... Aliás, uma pessoa que você não dá muito relevo é o Pina Manique, que era o homem de mão dele, o chefe da PIDE da altura. É a primeira polícia política que existe em Portugal, não é? E o Pina Manique sobreviveu à viradeira, continuou no cargo depois da queda de Pombal.

Não falei mais nele porque foi preciso fazer opções e eu quis focar-me no período até ele chegar ao poder total, que é a parte menos conhecida. Mas, sim, o Pina Manique é um homem de mão, como todos os comerciantes, porque ele baseava-se no poder económico e eles mantinham o seu poder porque os colocava em companhias comerciais, “convidava-os” a fazer grandes investimentos. Era preciso fazer um estudo sobre essas figuras, os homens de mão do Pombal, como diz.

Até nisso há semelhanças com o Salazar...

Ah, pois é! Mas acho que tem toda a razão no que diz sobre a violência, sem dúvida nenhuma. Essa violência chocou-me quando começa como diretiva, porque, ao ler as cartas que ele manda aos ministros e aos embaixadores sobre os jesuítas, são de uma violência tremenda. Para mim, a questão foi só esta: ele está em Lisboa, com o irmão no Brasil, com o grande amigo Tarouca em Viena a escrever-lhe, e ele compreende que não tem maneira de resolver o Brasil sem expulsar os jesuítas. Mas percebe que não pode só expulsá-los, senão o conflito vai ser muito maior. E depois há o conflito pessoal com o jesuíta Malagrida. (Gabriel Malagrida, visto como um místico de grande influência em Portugal, que sempre pregou publicamente contra o Marquês.) O que aconteceu foi que ele removeu sempre todos os obstáculos que achava necessário para uma fazer as suas reformas. Mas também há muito de improvisação na expulsão dos jesuítas. Aquilo que eu conto, baseado no diário do frei Manuel do Cenáculo, é dramático, é o pior já visto da nossa governação.

Ele tinha uma obsessão com os jesuítas, não é?

Sim, mas a obsessão não me pareceu uma coisa pessoal. Ele viveu lá fora, conheceu o ambiente anti-jesuítico que existia em Inglaterra e alimentou-se com a muita literatura anti-jesuítica que circulava na altura, e que ele alimentou depois. Há um estudo muito importante duma professora alemã que fala disso, os textos eram enviados para os jornais que viviam de querelas anti-jesuíticas. Ele aproveitou o ar dos tempos.

Uma coisa que eu não percebi: as inúmeras cartas privadas, trocadas entre os grandes atores políticos, eram um método de influenciar a opinião pública, mas eram divulgadas como? Copiadas, ou saíam na imprensa?

Há várias maneiras. Em relação às cartas privadas, por exemplo, das cartas para os filhos, no seu período final, existem muitas cópias, por um motivo óbvio, os filhos copiavam as cartas entre eles para partilharem as notícias do pai, e depois passavam de mão em mão para os partidários. Ele tinha sempre essa ideia... Se vai ser levado para Coimbra (para ser julgado), quer ter um público favorável. Isso vai puxar pelos seus partidários. Ele tem a noção que tem partidários; e aquelas cartas inglesas, por exemplo, ele pensa que é o elo que vai ligar os ingleses aos portugueses e se for removido, podem servir de contestação. Ele tem a plena noção que as jogadas da D. Maria a coligar-se com os espanhóis são perigosas. E tem razão, porque isso vai-se provar mais tarde! Precisa de puxar pelo seu “lado inglês”. Mas antes disso há as cartas para os jesuítas – isso está estudado pela professora Vogel, eu cito-a – é muito interessante, porque havia jornais anti-clericais e sobretudo anti-jesuitas na Alemanha e em França e o que ele faz é enviar cartas por outros, como o padre Fratel, e muitas outras revistas por ele, que alimentavam esse público. As cartas eram divulgadíssimas, publicadas em jornais especializados apenas nisso. As “Nouvelles du Portugal”, por exemplo, que se baseavam nesses escritos. 

Ele alimenta o seu público. É uma figura conhecidíssima lá fora, fazem-se medalhas com o rosto dele. Tem a perfeita noção de que é preciso manipular a opinião pública, como o Walpole, que sabia que precisava de fazer isso nos jornais e no Parlamento. O Pombal não tinha Parlamento, só tinha os jornais.

Você investigou durante três anos, como diz no seu livro. Parece pouco tempo para tanta documentação. Não não deve ter feito outra coisa, durante esse tempo. Eu nunca li nenhuma carta original dessa época, mas não deve ser muito fácil de perceber a letra...

Sim, sim, sobretudo as cartas oficiais dele são muito complicadas, o português é terrivelmente complicado.

Aliás, pelas transcrições que estão no livro, até é um português mais bonito, as frases muito bem trabalhadas.

É muito rocambolesco. Se comparar com outros colegas, portugueses ou doutros países, que escrevem com simplicidade, ele faz cartas muito grandes e muito complicadas. O meu trabalho como investigador – juntaram-se duas vias da minha vida, como investigador e como escritor – foi baseado em correspondência, sobretudo do século XVII, e assim acabei por conhecer bem as expressões. Fui muitas vezes a Londres, que é mais próxima de Bruxelas.

Mas a documentação dele não está na Torre do Tombo?

Está, mas há muita coisa na Biblioteca de Londres. Foi muito fácil para mim apanhar o comboio para Londres, onde há cópias da correspondência oficial, mesmo do período de Viena. Há cópias de tudo. Os ingleses gostavam dele e guardaram cópias quase até dos palitos que ele usava para limpar os dentes!

Gostava de fazer duas perguntas pessoais...

Mas ainda não lhe respondi ao assunto do Salazar...

Eu acho que tocou aí num ponto muito importante. Eu tento levantar um pouco essa lebre, mas não é o meu papel neste livro, a questão se não há um modelo do ministro probo português.

Aliás eu até sublinhei uma frase em que fala do Pombal, que parece que está a falar do Salazar. Cito: “Um homem de vida parcimoniosa, servidor abnegado e enérgico até ao auto-esquecimento, de preparação técnica intocável, dotado de visão estratégica, corajoso na defesa do Estado e do bem geral contra os inimigos internos e externos.” Isto podia-se dizer do Salazar, do ponto de vista de quem o defende, evidentemente.

Apanhou-me! Porque eu queria mostrar que esse é exatamente o modelo que depois alguém vai recuperar. E não é só o Salazar. Se pensarmos noutros ministros que sucederam ao Pombal, vão usar esse tipo de imagem. Se repararmos, o Walpole também passa a mesma imagem na História inglesa; procura exatamente mostrar essa dedicação, até porque o cargo (de Primeiro-ministro) não existia. Alguém que tem de ser um grande tribuno no Parlamento, que tem de saber gerir a maioria, que percebe que a maioria não tem só a ver com o seu partido, mas que também é preciso criar consensos, gerir o papel com o Rei, ter mão na estrutura do Estado. Essa imagem de Primeiro-ministro britânico, aqueles que lhe sucederam estão a seguir o mesmo modelo, mas não conseguem.

Para dizer a mesma coisa, o Marquês de Pombal ficou no imaginário pelo facto de ele ser visto pelos republicanos, mais tarde, como alguém que vem do nada – e para ele os pergaminhos eram muito importantes – mas percebe-se, pela sua gestão do dinheiro e dos assuntos correntes, que é um homem que passou dificuldades, e que tem a noção de que gerir uma coisa bem gerida, com princípios claros – com noções de contabilidade, sabia (o que são) as partidas dobradas, fez questão de abrir uma escola de comércio porque achava que saber gerir é importante. Quando ia a Oeiras fazia contas com os rendeiros. Essa é outra das ideias mal feitas sobre ele, que se tinha dedicado ao contrabando e tinha posto dinheiro de parte, o que não é verdade. O que se percebe é que (em Londres) ele andava a comprar coisas para toda a gente e que o dinheiro não lhe chegava. Isso foi uma das maldades que lhe fizeram.

Mas, para explicar a analogia com o Salazar, esta ideia do homem que vem do campo, que se preparou sozinho, no caso do Pombal,  que tem uma visão do Estado correcta e aplicável, a ligação entre o mundo das leis e o mundo real, e depois é um homem que se dedica completamente à sua “missão”. Isto faz-nos pensar em vários primeiros ministros depois dele que usaram este modelo.

Mas esse também é um ponto que me interessa: a biografia de um político que esteve tanto tempo no poder, mostra a forma como os políticos hoje em dia ocupam os lugares. Ou seja, quem se senta na cadeira do Pombal, tem as marcas do Pombal na cadeira! Muitas das coisas que eram fantasmas e obsessões dele estão presentes ainda hoje na forma como os políticos gerem o poder.

Pois, o poder corrompe, e o absoluto corrompe absolutamente.

Mas então, as coisas pessoais que eu gostaria de lhe colocar é o seguinte: achei estranho, porque não é costume, quando você agradece “à minha irmã, ao meu editor”, etc, agradece também aos seus inimigos: “por último, um agradecimento a todos os que tentaram perturbar e impedir este livro.” Quer especificar, ou não?

A carapuça servirá a alguém, se calhar. Eu só queria dizer que não é “nonchalance”, não é ironia, acho que todos ocupamos papéis na vida uns dos outros.

Pois, eu acho estranho que alguém tenha querido perturbar um trabalho destes, mas deve acontecer... Acontece sempre.

E qual é a biografia seguinte? Quer dizer, ou não?

Não posso dizer, infelizmente. Não é permitido. Mas será da mesma época.

Pois, gostei muito de ler o seu livro. Não li as outras biografias do Pombal. Aliás, a da Agostina (Bessa Luís) está esgotada, mas, conhecendo o trabalho dela, posso imaginar. Quando à do Camilo (Castelo Branco), não sabia que ele não gostava nada do Pombal.

O livro do Camilo é um exemplo de como matar a memória de uma pessoa. De uma violência terrível contra o Pombal.

Isso condiz com a personalidade do Camilo que eu conheço doutras atitudes, que era um bocado retorcido. Mas isso são outras histórias. 

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