1. UMA DANÇA INTRINCADA

Pensar em quanto tempo resistiria a civilização humana à perda dos insetos tem tanto de terrível como de inconcebível. Terrível, porque, como previu o biólogo E. O. Wilson, o colapso da exploração agrícola arável e dos ecossistemas levaria à nossa extinção apenas em parcos meses. A maioria dos peixes, mamíferos, aves e anfíbios cairia no oblívio antes de nós, seguida pelas plantas floríferas. Após uma explosão inicial suscitada pela morte e pela putrefação, também os fungos morreriam. «Em algumas décadas, o mundo regressaria ao estado de há um milhão de anos atrás, constituído sobretudo por bactérias, algas e algumas plantas multicelulares muito simples1», escreveu Wilson.

E, contudo, é inconcebível. Um cenário tão terrível dificilmente pode ser compreendido, uma vez que os insetos teimaram em sobreviver através das cinco extinções em massa que assolaram a Terra nos últimos 400 milhões de anos. Como nunca existiram sem eles, os seres humanos nunca consideraram propriamente a sua ausência ou mesmo a sua diminuição.

No entanto, uma profusão de conclusões recentes tem revelado declínios significativos na abundância e na diversidade de espécies em locais por todo o mundo. Sem motivo aparente, estão em queda, com os seus números a diminuírem em taxas surpreendentes em diferentes locais de investigação – em alguns locais em metade, noutros em três quartos, e num local, a aparentemente benigna zona rural da Dinamarca, numa redução tão cataclísmica quanto 97 por cento. A evidência crescente da diminuição das populações de insetos força-nos, pela primeira vez na nossa história, a considerarmos as consequências desastrosas do seu declínio. Este livro explorará a crise em curso no mundo dos insetos, o que está a causá-la e o que pode ser feito para conter a perda dos microimpérios que sustentam a vida no nosso belo planeta turbulento e juncado de plástico.

É Desta Que Leio Isto: Em junho recebemos David Machado

Nascido em Lisboa em 1978, o David Machado tem obra tanto em literatura infantil como em ficção contemporânea, sendo que já recebeu diversos prémios na primeira área.

O seu conto infantil "A Noite dos Animais Inventados" recebeu o Prémio Branquinho da Fonseca, da Fundação Calouste Gulbenkian e do jornal Expresso, em 2005. Já "O Tubarão na Banheira" foi distinguido com o Prémio Autor SPA/RTP 2010 de Melhor Livro Infantojuvenil.

Conta ainda no seu catálogo com obras como "Uma Noite Caiu Uma Estrela", "Histórias Possíveis", "Eu Acredito", "Acho que Posso Ajudar", "Os Livros do Rei", "Viagem ao Centro do Escuro" e "O Meu Cavalo Indomável".

Este último é uma das obras que vai ser servir de mote para a conversa, assim como o recém-lançado "Os Reis do Mar", destinado a um público mais juvenil e na senda do que já tinha escrito em "Não te Afastes".

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Numa desconcertante reconfiguração rápida do nosso mundo, o que antes era infinito parece agora perturbadoramente vulnerável. Sem insetos, os mais ricos do mundo talvez pudessem utilizar os recursos necessários para prolongar uma aparência do estado atual das coisas. No entanto, para a maioria da humanidade, esta perda seria uma provação agonizante que se sobreporia a qualquer guerra e rivalizaria até com a destruição iminente do colapso climático. «A maioria da vida na Terra desapareceria se não tivéssemos insetos, e, se restassem alguns seres humanos, eles não estariam muito contentes», diz Dave Goulson, professor de Biologia na Universidade do Sussex. «Penso que talvez seja um pouco exagerado supor que todos os seres humanos morreriam em poucos meses, mas decerto que milhões de nós passaríamos fome.»

Os insetos têm estado envolvidos numa dança intrincada com quase todos os aspetos do ambiente terrestre durante milhões de anos, formando uma subvalorizada fundação para a própria civilização humana. Multiplicam os nossos alimentos, são eles mesmos alimento de outros seres vivos à nossa volta, tratam dos nossos desperdícios putrefactos, eliminam pragas indesejadas e, o que é crucial, alimentam o solo, a camada de 15 centímetros que envolve o nosso globo e que sustenta toda a humanidade. Rachel Warren, professora de Biologia Ambiental na Universidade de East Anglia, compara a nossa profundamente entretecida dependência dos insetos à Internet. «Num ecossistema, tudo está ligado pela sua rede de interações», afirma. «Sempre que perdemos uma espécie, cortamos algumas ligações nessa rede. Quanto mais ligações cortamos na rede, menos resta desta Internet, até que por fim ela deixa de funcionar.»

Sem um polinizador, uma planta morre sem ser substituída. As aves que se alimentavam dos frutos da planta ou o veado que pastava nos seus rebentos começam a diminuir, e seguem-se os animais que se alimentavam destes. «Toda a rede alimentar se desintegra», diz Warren. «Julgo que os seres humanos não conseguiriam de todo sobreviver nesse mundo.»

A importância desta dependência não conseguiu suscitar grande devoção pelos insetos. Apesar de 3 em cada 4 espécies animais conhecidas na Terra serem insetos2, entre as suas muitas categorias apenas as borboletas são consideradas com algo parecido com afeição. As vespas são uma terrível ameaça estival, as formigas, um exército invasor combatido com sprays tóxicos na cozinha, e os mosquitos, tudo desde um aborrecimento irritante até uma ameaça letal. A maioria do milhão de espécies identificadas de insetos que resta é considerada por muitas pessoas, se chegar a ser considerada, como sendo de uma obscuridade bizarra ou inútil.

Há cerca de 7530 tipos de moscas assassinas Asilidae, criaturas que passam a sua curta vida a picar outros insetos com uma robusta probóscide de modo a paralisá-los e liquefazer os seus órgãos internos. Apenas esta horda compreende mais espécies do que todo o conjunto dos mamíferos – macacos, elefantes, cães, gatos, gado doméstico, baleias, todos. Uma mosca chamada Cephalopina titillator desenvolve-se nas narinas de camelos infetados, e é apenas uma especialista entre 150 espécies de moscas-varejeiras, ao passo que há pelo menos meio milhão de espécies de vespas parasitoides, criaturas tão detestadas por Charles Darwin que ele escreveu numa carta «não me consigo convencer de que um Deus bondoso e omnipotente» as tivesse criado. O que se perderia realmente se todas estas abomináveis vespas e moscas, talvez todas as moscas em geral, simplesmente desaparecessem?

«Desfazem-se das moscas? Desfazem-se do chocolate3», declara Erica McAlister, curadora sénior do Museu de História Natural de Londres e defensora manifesta das moscas que certa vez participou num evento de kart de entomologia vestida como uma. Apropriadamente, ela foi bem-sucedida a perseguir um colega disfarçado de fezes. «As moscas são polinizadores verdadeiramente importantes no que se refere a cenouras, pimentos, cebolas, mangas e muitas outras árvores de fruto. E chocolate. Trabalham durante mais horas do que as abelhas e não são tão sensíveis ao frio. Estamos finalmente a dar-nos conta de tudo isto.» Há aproximadamente 160 mil espécies de dípteros – uma ordem comummente conhecida por moscas de duas asas –, que incluem as moscas-domésticas, mosquitos, melgas e moscas-da-fruta. O número de espécies de moscas é quatro vezes maior do que o de todos os diferentes tipos de peixes nos oceanos do mundo. Talvez este grupo variado mereça ser visto como um conjunto de engenheiros ambientais admiravelmente afinados, em vez de como pragas incómodas a rondar por cima das nossas cabeças ou a fazerem manchas castanhas nas bananas nas fruteiras.

Mosquitos minúsculos, cada um deles do tamanho de uma cabeça de alfinete, rastejam até às pequeninas flores das plantas do cacau em África e na América do Sul e mantêm a indústria global do chocolate, de 100 biliões de dólares. As moscas-varejeiras (Lucilia sericata), as moscas da carne (Sarcophagidae) e as moscas-soldado Stratiomyidae desfazem animais mortos, folhas putrefactas e excrementos – gratuitamente. Os cientistas utilizaram larvas de varejeiras no tratamento de feridas gangrenadas, sem antibióticos4, ao que passo que tem sido extraído óleo das larvas das moscas-soldados-negros para ser transformado numa forma de biodiesel para carros e camiões.5 «Realizam tarefas maravilhosas, todo o tipo de coisas de que nem nos apercebemos», diz McAlister. «Podem imaginar se não o fizessem? Estaríamos a nadar num pântano de fezes.»

As moscas são polinizadores misteriosos, mas prodigiosos. Segundo McAlister, a Volucella zonaria, uma vigorosa e grande mosca-das-flores com riscas pretas e amarelas no abdómen, semelhantes às do abelhão, é «basicamente um tanque voador». É capaz de polinização vibratória, o que significa que se pode agarrar às pétalas e vibrar violentamente, libertando o pólen que está firmemente alojado nas anteras de uma planta. Poucas abelhas conseguem fazer isto, pelo que sem moscas não haveria uma cornucópia de tomates e mirtilos com que nos regalarmos.

Algumas plantas dependem completamente de determinadas moscas. Na costa ocidental da África do Sul, há uma criatura extraordinária, a Moegistorhynchus longirostris. Tem uma probóscide não retrátil que mede até 7 centímetros, várias vezes o comprimento do seu próprio corpo, e que é um acessório incómodo que lhe dificulta o equilíbrio ao voar. Ela esvoaça em torno de plantas que desenvolveram flores tubulares perfeitamente ajustadas à comprida antena da mosca, realçando assim uma teoria evolutiva formulada por Darwin6 depois de, em 1862, lhe terem enviado umas orquídeas de Madagáscar que armazenavam néctar em pecíolos excecionalmente longos. Darwin sugeriu que uma mariposa com uma língua absurdamente longa devia ter evoluído a par desta planta – uma espécie que foi descoberta apenas décadas depois da morte do teórico da evolução. «Se essa mosca da África do Sul desaparecesse, oito espécies de plantas morreriam de imediato», diz McAlister. «As moscas têm um gigantesco passado de polinização que tem sido amplamente ignorado.»

Mesmo nos seus próprios termos, as moscas podem fascinar – algumas espécies apresentam ofertas comestíveis a potenciais parceiros de acasalamento, ao passo que outras realizam danças intrincadas. Michelle Trautwein viveu um momento essencial enquanto aluna de arte quando apresentou uma vasta ilustração biológica de um plecóptero, uma ordem de insetos com corpos alongados, longas antenas e dois pares de asas membranosas. «O professor de arte detestou-a», recorda Trautwein. O professor preferiu claramente o trabalho de um aluno que espalhara comida de gato húmida sobre uma tela branca. «Lembro-me de ter pensado: “Pronto. Estou fora.”» Trautwein «apaixonou-se por moscas» e é hoje uma destacada entomologista na sua disciplina, na Academia de Ciências da Califórnia.

Se os plecópteros não podem ser tipicamente gabados como classicamente fotogénicos, há moscas que poderiam reivindicar essa adulação. A mosca-soldado Lecomyia notha, de Queensland, Austrália, tem um exoesqueleto iridescente que lembra uma opala, num tom entre o roxo e o azul. Outra mosca, com um abdómen dourado brilhante7, recebeu o nome Plinthina beyonceae, inspirado na cantora Beyoncé. «A entomologia é um campo muito bonito e esteticamente agradável», afirma Trautwein, que tem desenhado moscas, e insetos em geral, porque eles parecem «alienígenas na Terra».

«Há milhões e milhões e milhões deles, ainda nem sabemos quantos», diz Trautwein. «Cada um deles é como uma forma de vida alienígena com uma história de vida pormenorizada, muitas vezes tão pormenorizada que poderíamos apresentá-la como ficção se o quiséssemos.» Por mais estonteantemente diversos que os insetos sejam, eles partilham um desenho corporal notoriamente consistente que abrange três segmentos – cabeça, tórax e abdómen –, três pares de pernas articuladas, olhos compostos, antena e um esqueleto externo.

Esta estrutura fornece a plataforma para feitos que causariam perplexidade geral se fossem realizados por animais maiores. A formiga Adetomyrma venatrix pode fechar as suas mandíbulas a 322 quilómetros por hora, o movimento animal mais veloz na Terra. As suas primas, as formigas africanas Megaponera analis8, têm sido observadas a transportar colegas feridas de volta ao ninho para cuidarem delas, como paramédicos de seis patas. Algumas lagartas geram o seu próprio anticongelamento para se protegerem do frio. As abelhas-do-mel entendem o conceito de zero e conseguem somar e subtrair números9. Mas estas criaturas – tão numerosas que são igualmente desconhecidas e aborrecidas, com uma aparência tão esquisita que inspiram as formas de seres maléficos em filmes de terror e tão vitais que pereceríamos sem elas – parecem estar agora a sofrer uma silenciosa crise existencial.

Há algum tempo que o alarme sobre o declínio dos insetos soa intermitentemente, mas não tão alto como agora. Já em 1936, Edith Patch, a primeira mulher presidente da Sociedade Entomológica da América, fez um discurso em que desacreditava o uso crescente de inseticidas nas culturas de frutos e legumes. «Com toda a certeza, pouco destaque popular tem sido dado ao serviço que os insetos prestam à humanidade10», declarou Patch, acrescentando que «são muito poucos os que se apercebem da nossa dependência deles para nos alimentarmos e vestirmos, para parte significativa da nossa indústria e para muito do nosso prazer». Mais prescientemente: «Se o objetivo [da humanidade] for uma destruição total dos insetos perigosos, com o decorrer do tempo, os seus cérebros fornecerão o equipamento para tal empreendimento.»

Nas décadas que se seguiram, a humanidade não acionou conscientemente o seu cérebro coletivo para dizimar todo o tipo de insetos, assim como não decidiu de forma deliberada afundar as suas cidades costeiras e iniciar enormes fogos descontrolados através das alterações climáticas. No entanto, foi esse o resultado. Através da destruição dos habitats dos insetos, da pulverização de químicos tóxicos e do aquecimento crescente do planeta, criámos inconscientemente um cenário infernal para muitos insetos, pondo em risco tudo aquilo para o qual dependemos deles. «Estamos a criar um mundo que é um problema não só para os insetos, mas também para nós, para os seres humanos», diz Pedro Cardoso, biólogo no Museu de História Natural da Finlândia.

Há muito que a extensão exata da crise dos insetos tem sido obscurecida por um nevoeiro de impossibilidades logísticas. Há um milhão de espécies de insetos nomeadas, mas, dado que os insetos são pequenos crípticos e não são extensivamente rastreados, isto não passa de um vislumbre do que está por descobrir e nomear: as estimativas oscilam entre o assombroso número de 30 milhões de espécies11 e o mais realista de 5,5 milhões. «Quem sabe o que anda por aí?», diz Goulson. «Provavelmente todo o tipo de animaizinhos esquisitos e maravilhosos.»

Os taxonomistas, biólogos que dão nome às espécies e descobrem onde as enquadrar no puzzle mais vasto dos seres vivos, deparam com um trabalho de Sísifo apenas para distinguir entre espécies aparentemente idênticas. Para alguns de nós, as formigas são pretas e algumas cor de canela, algumas moscas são grandes e outras são pequenas, e não fazemos mais distinções a partir daí. Os especialistas têm de passar muito do seu tempo a observar os órgãos reprodutivos dos insetos para os classificarem. «Somos tocadores de genitália», diz McAlister, a perita em moscas. «Não há nada de que gostemos tanto como de abrir uma mosca e olhar para os seus tintins.»

O trabalho meticuloso, conjugado com o facto de a taxonomia ser cada vez mais rejeitada como uma versão antiquada da história natural, com os estudantes a serem agora mais atraídos para a biologia molecular, significa que a tarefa de descrever todos os insetos da Terra provavelmente nunca será concluída. Nas palavras de McAlister: «Temos 50 mil pessoas a estudarem um tipo de macaco e uma pessoa a estudar 50 mil tipos de moscas.» Por cada mosca corretamente identificada através da sua genitália, a ciência deixa muitos mais candidatos potenciais na secretária dos taxonomistas. Em 2016, cientistas canadianos concluíram uma análise de ADN de mais de 1 milhão de espécimes de insetos12 e ficaram chocados por descobrirem que é provável que o país tenha cerca de 94 mil espécies de insetos, aproximadamente o dobro da estimativa anterior. Se o Canadá tiver 1 por cento dos insetos do mundo, refletiram os investigadores, o planeta tem 10 milhões de espécies de insetos.

Inclusive com o que já está descrito, é evidente que vivemos num mundo de invertebrados. Apenas 5 por cento de todas as espécies animais conhecidas têm espinha dorsal. O mundo está cheio não de pessoas, ovelhas, ou mesmo ratazanas, mas de besouros – 350 mil espécies, e a contagem continua. O que sabemos sobre todas as populações de insetos em geral também não suscita de imediato pensamentos de escassez. A Smithsonian Institution calcula que haja cerca de 10 quintilhões (é um 10 seguido de 18 zeros) de insetos no mundo13. Um enxame de locustas pode conter 1 bilião de indivíduos. Apenas a região sul de Inglaterra alberga 3,5 triliões de insetos voadores migrantes por ano14, uma massa de corpos com um peso equivalente ao de 20 mil renas voadoras.

A Crise dos Insetos
créditos: Bertrand Editora

Livro: A Crise dos Insetos

Autor: Oliver Milman

Editora: Bertrand

Publicação: 23 de junho

Preço: 16,92 €

Se pegássemos em todas as térmitas do mundo e as moldássemos numa bola gigante, este torrão em alvoroço, numa medida conhecida por biomassa, pesaria mais do que todas as aves do planeta15. Antes de as pessoas começarem a aumentar tanto em população como em tamanho na nossa era de modernidade industrializada, era provável que também todas as formigas do mundo pesassem mais do que os seres humanos do mundo. «A população humana atual está à deriva num mar de insetos16», como escreveu um par de cientistas da Universidade do Estado do Iowa em 2009. «Com base apenas em números e biomassa, os insetos são os animais mais bem-sucedidos na Terra.»

Os insetos são surpreendentemente resistentes e adaptáveis, também. A formiga do deserto do Sara Cataglyphis bicolor pode sobreviver a temperaturas de até 70 °C, enquanto, no extremo oposto, as larvas dos mosquitos Belgica antarctica, endémicos da Antártica, conseguem resistir a -15 °C e até um mês sem oxigénio. As minúsculas moscas Ephydrae podem viver e reproduzir-se nas nascentes quentes do Parque Nacional de Yellowstone, que cozinhariam um ser humano. Têm sido encontrados abelhões a 5500 metros acima do nível do mar17, uma altura ultrapassada apenas pelo cume do monte Kilimanjaro. As libélulas conseguem manter-se estáveis em ventos fortes que derrubariam até o helicóptero mais avançado. Um escaravelho-bosteiro Onthophagus taurus é tão forte que, se fosse um humano, seria capaz de manter no ar 6 autocarros de 2 pisos.

Podemos dizer que a família dos insetos abrange o bizarro. Os insetos inspiram e expiram através de orifícios nos seus exoesqueletos chamados espiráculos e veem através de olhos compostos e complexos, que permitem a criaturas como as libélulas terem um campo de visão de 360 graus. Há abelhas sem ferrão que se alimentam do suor e das lágrimas humanos, uma espécie de borboleta tem um olho no pénis18 e alguns pulgões podem dar origem a crias que já contêm os seus bebés – dão verdadeiramente à luz os seus netos. As populações de insetos são normalmente bastante maleáveis, também, conseguindo gerir grandes altos e baixos ao lidar com condições instáveis. Porém, ainda que alguns insetos sejam muito numerosos, isso não significa que sejam completamente descartáveis – todos têm algum tipo de papel na polinização, ou na decomposição, ou na cadeia alimentar.

Se começarmos a eliminar enormes quantidades de insetos, o ambiente e toda a teia da vida, inclusive a humanidade, ficarão a funcionar mal. O colapso pode ainda aumentar por si mesmo – cerca de 10 por cento dos insetos são parasitas, frequentemente de outros insetos. Se algumas vespas não conseguirem encontrar lagartas que funcionem como suas escravas e hospedeiras para ovos, ou se algumas moscas não se conseguirem apoderar do cérebro de uma formiga e depois decapitá-la, também elas estarão ameaçadas. Este cenário perigoso tem-se tornado nítido à medida que os cientistas começaram a formar o puzzle da vida dos insetos. Foi disparado um sinal de alerta em 201419, com um compêndio da investigação disponível que concluía que um terço das espécies invertebradas documentadas pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) está em declínio, com o decréscimo desta população a ascender a 45 por cento no total ao longo das últimas quatro décadas. As perdas são aproximadamente o dobro das dos vertebrados.

Quase todos os ortópteros, uma ordem de insetos que inclui locustas, gafanhotos e grilos, estão em trajetória descendente, tal como a maioria das espécies que constituem a vasta ordem dos coleópteros, ou besouros. «O declínio destes animais irá recair em cadeia sobre o funcionamento do ecossistema e o bem-estar humano», alertava o estudo da IUCN, enquadrando esta calamidade no que é conhecido como a sexta extinção em massa do planeta – a aniquilação da natureza em curso, sem precedentes desde o desaparecimento dos dinossauros, às mãos das chaminés e dos buldózeres da humanidade.

Este incómodo evento de extinção tem alguns totens impressionantes – tigres, rinocerontes, elefantes, ursos-polares. A situação difícil destes animais, muitas vezes referidos pela expressão pouco atraente de megafauna carismática, domina o discurso dos meios de comunicação e os fundos de conservação. O êxito ou o fracasso do esforço para travar a pilhagem da biodiversidade da Terra é regularmente considerado como dependendo do destino da meia dúzia de animais de grande porte continuamente representados em filmes, publicidade, peluches e logótipos de equipas desportivas.

Notas:

1 Edward O. Wilson, «The Little Things That Run the World (The Importance and Conservation of Invertebrates)», Conservation Biology I, n.o 4 (1987): 345.

2 David Britton, «Why Most Animals Are Insects», Australian Museum, 2020, consultado em 25 de fevereiro de 2021.

3 Janet Fang, «Ecology: A World without Mosquitoes», Nature 466 (2010): 432-434.

4 K. Y. Mumcuoglu, «Clinical Applications for Maggots in Wound Care», American Journal of Clinical Dermatology 2, n.o 4 (2001): 219.

5 Qing Li et al., «From Organic Waste to Biodiesel: Black Soldier Fly, Hermetia illucens, Makes It Feasible», Fuel 90, n.o 4 (2011): 1545.

6 Dave Hone, «Moth Tongues, Orchids and Darwin – The Predictive Power of Evolution», The Guardian, 2 de outubro de 2013, consultado em 25 de fevereiro de 2021.

7 Jennifer Welsh, «Bootylicious Fly Gets Named Beyoncé», Live Science, 13 de janeiro de 2012, consultado em 25 de fevereiro de 2021.

8 Erik Thomas Frank et al., «Saving the Injured: Rescue Behavior in the Termite-Hunting Ant Megaponera analis», Science Advances 3, n.o 4 (2017), consultado em 25 de fevereiro de 2021.

9 Scarlett R. Howard et al., «Numerical Ordering of Zero in Honey Bees», Science 360, n.o 6393 (2018): 1124.

10 Transcrição do discurso de Edith Patch, Bulletin of the Brooklyn Entomological Society, fevereiro de 1938, consultado em 25 de fevereiro de 2021.

11 Nigel E. Stork, «How Many Species of Insects and Other Terrestrial Arthropods Are There on Earth?», Annual Review of Entomology 63 (2018): 31.

12 Paul D. N. Hebert et al., «Counting Animal Species with DNA Barcodes: Canadian Insects», Philosophical Transactions of the Royal Society B 371, n.o 1702 (2016), consultado em 25 de fevereiro de 2021, doi.org/10.1098/rstb.2015.0333.

13 «Numbers of Insects (Species and Individuals)», Museu Nacional de História Natural, Smithsonian Institution, consultado em 25 de fevereiro de 2021.

14 Matt McGrath, «Trillions of High-Flying Migratory Insects Cross over UK», BBC News, 22 de dezembro de 2016, consultado em 25 de fevereiro de 2021.

15 Yinon M. Bar-On, Rob Phillips e Ron Milo, «The Biomass Distribution on Earth», Proceedings of the National Academy of Sciences of the USA 15, n.o 25 (2018): 6506.

16 Larry Pedigo e Marlin Rice, Entomology and Pest Management, 6.a ed. (Long Grove, IL: Pearson College Division, 2008), 1.

17 Ian Johnston, «Bumblebees Set New Insect Record for High-Altitude Flying», The Independent, 23 de outubro de 2011, consultado em 25 de fevereiro de 2021.

18 Damian Carrington, «Humanity Must Save Insects to Save Ourselves, Leading Scientist Warns», The Guardian, 7 de maio de 2019, consultado em 25 de fevereiro de 2021.

19 Roldofo Dirzo et al., «Defaunation in the Anthropocene», Science 345, n.o 6195 (2014): 401.

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