Por: Catarina Falcão, da agência Lusa, em Avinhão

"Vou estar como diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II [TNDM II] pelo menos durante alguns meses, que serão meses de preparação da próxima temporada, mas, ao mesmo tempo, de preparação de uma transição tranquila, calorosa, competente e que, sobretudo, assegure a estabilidade da missão de serviço público", afirmou hoje Tiago Rodrigues, em entrevista à agência Lusa.

Tiago Rodrigues foi hoje anunciado como o próximo diretor do Festival d'Avignon, o maior festival de teatro e de artes performativas a nível mundial, que acontece anualmente, no sul de França.

O encenador português vai iniciar oficialmente funções a 01 de setembro de 2022, e a primeira edição do festival com a sua assinatura acontecerá em 2023.

Até lá, Tiago Rodrigues vai preparar a sua saída do TNDM II, mantendo um diálogo "estreito" e "transparente" com a ministra da Cultura, Graça Fonseca, e o Conselho de Administração do TNDM II, presidido por Cláudia Belchior, sendo que tanto o Ministério como a administração do teatro sabiam, desde há meses, da candidatura do encenador e dramaturgo português ao festival francês.

"O processo é ainda misterioso porque soubemos da notícia esta manhã e, embora ainda não haja detalhes, o que posso assegurar é que tem havido diálogo muito transparente e próximo com a tutela", sublinhou o encenador à Lusa.

Quanto ao perfil do seu sucessor, para o teatro de Lisboa, Tiago Rodrigues "não tem dúvidas" de que há talento em Portugal para o substituir, seguindo ou não aquelas que foram as suas opções até agora para os destinos do TNDM II.

"Não tenho dúvidas de que há em Portugal muitas e muitos artistas que poderiam cumprir o papel da direção artística do TNDM II com tanta ou mais competência e criatividade do que eu. Estarei aqui para apoiar, seja qual for a escolha do Ministério da Cultura", concluiu.

"Admira" França e não teme escrutínio

"O meu pai, no final dos anos 60, depois de ter recebido a notícia de que o irmão mais velho tinha morrido na guerra colonial, em Angola, e de que ele próprio ia ser destacado para a guerra [nesse país], resolveu exilar-se em França, onde viveu cerca de três, quatro anos, em Paris", contou Tiago Rodrigues em entrevista à agência Lusa, recordando seu pai, o jornalista Rogério Rogrigues (1947-2019), que fez parte da redação do Diário de Lisboa e do grupo fundador do semanário O Jornal, assim como do matutino Público, onde foi grande repórter.

Este exílio, aliado a ter mais família que, por razões económicas ou políticas se instalou em terras gaulesas, levou Tiago Rodrigues a manter "uma relação de grande admiração por França", como um regime democrático que compensou para muitos portugueses "o obscurantismo de mais de quatro décadas de ditadura".

"A minha relação com França é tocada por essa gratidão coletiva, mas também tocada pela forma como França, desde os meus 21 anos, é um dos países onde mais apresentei o meu trabalho, que mais me apoiou, onde mais fui reconhecido, promovido e acarinhado", declarou à Lusa.

Esta ligação torna a sua escolha para dirigir o Festival d'Avignon ainda mais "emocionante", não o levando a recear um escrutínio acrescido por não ser francês.

"Nada na minha história pessoal com França e com o teatro francês me leva a crer que o facto de ser português ou de não ser francês possa vir a influenciar negativamente aquilo que é a aventura de dirigir o festival de Avignon", referiu.

Mas o escrutínio, tal como em qualquer cargo de destaque na cultura, existirá, embora o encenador português assegure que é algo que está habituado, após sete anos à frente do Teatro Nacional D.Maria II (TNDM II).

"Tenho noção de que dirigir o festival é estar sujeito a um escrutínio e a um nível de crítica muito superior a muitos outros cargos, mas é preciso também não subestimar as complexidades e dificuldades de ser diretor artístico do TNDM II", concluiu.

Já prepara o Festival d'Avignon

O encenador Tiago Rodrigues foi abordado no início do ano pelo Governo francês para se candidatar à liderança do Festival d'Avignon, e respondeu com "uma carta de amor" de 18 páginas, onde, entre outras ideias, prometeu manter um debate permanente sobre teatro.

Esta edição em curso "será uma edição de estudo", disse o dramaturgo e encenador em entrevista à agência Lusa. "Será onde, além de espectador ávido, [aquela] em que vou estar sempre com as lentes de quem está a aprender para se preparar para o futuro".

O encenador e dramaturgo português foi hoje anunciado pela organização do Festival d'Avignon, em França, como seu próximo diretor, uma escolha "óbvia" e "doce", com uma proposta cheia de "poesia", apresentada pela ministra francesa da Cultura, Roselyne Bachelot-Narquin.

O "diálogo" com o Governo de Paris, para suceder ao atual diretor, Olivier Py, começou no início do ano quando os gauleses questionaram o encenador português sobre a possibilidade de se mudar para Avinhão.

Após reflexão e contactos com o Governo português, o diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II (TNDM) respondeu positivamente com uma carta de 18 páginas com a sua visão para o festival.

"Ainda é prematuro falar de projetos concretos, embora a minha carta de amor esteja cheia de detalhes, como deve ser uma carta de amor, e cheia de promessas e cheia de convicções", revelou à Lusa.

Acima de tudo, Tiago Rodrigues quer manter a "festa cívica e de democracia cultural", iniciada por Jean Vilar, ator e encenador francês, em 1946.

"O Festival d'Avignon é um dos grandes exemplos mundiais da democratização cultural. Deve continuar a sê-lo e, para mim, é um privilégio e grande responsabilidade contribuir como próximo diretor do festival para que esse trabalho continue", indicou, declarando que a ideia dos cafés em que se debate de forma horizontal todos os temas, inspirada pelo crítico literário e professor universitário George Steiner (1929-2020), está na base das suas propostas.

Ao anúncio do seu novo cargo, vem juntar-se a abertura hoje do Festival com a sua peça "O Cerejal", de Tchekhov, na Cour des Palais des Papes, local emblemático do teatro mundial, num momento em que o certame regressa, após a edição de 2020 ter sido anulada devido à pandemia.

"O teatro tem destes acidentes felizes. Quando pensámos, eu e a [atriz] Isabelle Huppert, numa primeira conversa, que aconteceu em Lisboa, na Baixa, em fazer um dia 'O Cerejal', nada nos levava a crer que pudesse surgir num alinhamento de astros tão perfeito como este dia 05 de julho de 2021", explicou.

A peça, que fala da incerteza e de uma situação de mudança social na Rússia do início do século XX, é apresentada numa altura em que a pandemia não desapareceu, fazendo também reinar a incerteza sobre o futuro da Humanidade.

"Este texto de Tchekhov, fosse ele encenado por Jean Vilar em 1947, fosse encenado nos anos 90 do século passados, fosse encenado em 2021, é sempre um texto que tem uma capacidade enorme de ser a essência da poesia de Tchekhov e dar-nos a sensação que está a falar sobre nós, no nosso tempo", concluiu.

Dramaturgo, encenador e ator, Tiago Rodrigues soma uma carreira de mais de duas décadas, contando com a presença regular em palcos internacionais, tendo sempre por base Portugal, através da companhia que criou, Mundo Perfeito, ou à frente do Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII), que dirige desde 2014.

Tiago Rodrigues vai assumir funções a 01 de setembro de 2022 e a primeira edição do Festival d'Avignon organizada pelo encenador português vai acontecer em julho de 2023.

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