A cerimónia de homenagem teve lugar no “Atelier Marcel Hastir”, um local simbólico da resistência belga durante a II Guerra Mundial, cinco anos após a morte de Miguel Portas e, por coincidência, no dia seguinte ao Presidente da República ter condecorou postumamente, por proposta do primeiro-ministro, com a grã-cruz da Ordem da Liberdade aquele que foi o primeiro eurodeputado do Bloco de Esquerda (eleito pela primeira vez em 2004).

No tributo, intitulado “Building Bridges – Construindo Pontes”, participaram, entre outros, a eurodeputada do Bloco Marisa Matias, o comissário português Carlos Moedas, a líder do Grupo da Esquerda Unitária no Parlamento Europeu, Gabi Zimmer, e eurodeputados de outras forças políticas, como Carlos Zorrinho e Pedro Silva Pereira, do PS, e José Inácio Faria, do Movimento Partido da Terra.

Em declarações à Lusa, Marisa Matias observou que “foi coincidência” a homenagem ter lugar imediatamente após a condecoração póstuma, “justa e mais que merecida”, considerando que o primeiro-ministro, António Costa, e o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, “estiveram muito bem”, porque Miguel Portas “foi um lutador pela liberdade a vida inteira”.

“Esta homenagem chama-se «construir pontes» porque era também uma das características principais do Miguel: não se fechar e tentar juntar muita gente à volta das causas que defendia, e derrubar muitos muros”, disse.

Marisa Matias acrescentou que esta homenagem a “um construtor de pontes”, de quem todos têm “muitas saudades”, ganha um significado e simbolismo ainda mais vincado “no contexto atual”.

Também o comissário europeu da Investigação, Ciência e Inovação, Carlos Moedas, sublinhou, em declarações à Lusa, que, “exatamente como a Marisa disse, (Miguel Portas) era um homem que construía pontes, era um homem interessante na maneira como fazia política, e como, na sua maneira e nos seus pontos de vista, aquilo que queria era unir as pessoas”, algo que considerou ser vital nos dias de hoje.

“Eu penso que esta ideia de construir as pontes que hoje tanto precisamos é aquela que nos pode ou não levar para um caminho em que todos aqueles que acreditamos na liberdade possam estar unidos, numa luta que hoje não é de esquerda ou de direita. É uma luta entre aqueles que querem fechar o mundo e aqueles que querem abrir o mundo”, disse.

Apontando que “faz falta mais políticos como ele foi”, o comissário também salientou o contexto atual, com a segunda volta das eleições presidenciais em França como pano de fundo.

“Quando vemos o que se está a passar hoje em França e quando vemos uma mulher como Marine Le Pen, aquilo que ela pensa, aquilo que ela defende, eu acho que nós temos que unir todos aqueles que não pensamos dessa maneira. Porque assusta-me, para o futuro dos meus filhos, o racismo e a xenofobia. Assusta-me as pessoas pensarem que se fecharmos os nossos países e tivermos apenas com aquilo que é nosso que vamos ser melhor. Assusta-me pessoas que pensam dessa maneira”, declarou.

Miguel Portas, o primeiro eurodeputado eleito pelo Bloco de Esquerda, morreu no dia 24 de abril de 2012, poucos dias antes de completar 54 anos, num hospital de Antuérpia, na Bélgica, vítima de cancro.

A Ordem da Liberdade destina-se a distinguir "serviços relevantes prestados em defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e à causa da liberdade".