O acordo até surpreendeu pela importância dos postos de governo que Merkel aceitou serem geridos pelo SPD, sobretudo os Estrangeiros e as Finanças. Mas, apesar desse acordo celebrado como um avanço firme para uma Alemanha mais europeia e uma Europa mais forte, a maior potência do continua sem governo em plenitude política de funções vai para cinco meses. Há óbvia paralisia na tomada de decisões principais na Alemanha e sobre a evolução da Europa.

A demora pode vir a ser ainda maior, no caso de o referendo interno, em 4 de março, aos 464 mil militantes do SPD resultar em recusa da coligação. Nesse caso, a convocação de novas eleições gerais na Alemanha será a mais provável etapa seguinte. Com grande incerteza pela frente, porque para além da crise interna no SPD, há a contestação interna na CDU à liderança de Merkel.

A turbulência no SPD tem como causa profunda a crise de identidade em que o partido está mergulhado há já 15 anos. Schulz, que tinha conquistado protagonismo na liderança política do Parlamento Europeu, era visto há um ano como o comandante capaz de estancar a hemorragia de votos no SPD. O partido que tem sido âncora do centro-esquerda na Alemanha, em 15 anos, caiu 20 pontos percentuais, passou de 40% para 20%. Perdeu 10 milhões de votos, ao cair de 21,5 milhões para, em setembro último, 11,4 milhões.

O SPD anda desde o começo deste século à procura da cor: é vermelha? é rosa? Gerhard Schroeder, último SPD que foi chanceler da Alemanha (1998-2005), conduziu reformas que puseram fim à velha matriz do partido e implicaram o abandono de conquistas que eram consideradas intocáveis: parte da proteção do trabalhador frente ao despedimento, menos subsidio de desemprego e menos Estado Social.

Os eleitores tradicionais do SPD sentiram-se traídos. Muitos passaram para uma dissidência à esquerda, Die Linke, liderada por Oskar Lafontaine. Contestavam que o SPD fizesse a política da CDU, de Merkel, que ganharia as eleições de 2005, e que continua até agora como chanceler.

Merkel, campeã por uma dúzia de anos nos barómetros alemães de popularidade e confiança, com liderança que lhe deu a reputação de mulher mais poderosa no mundo, está agora em maré baixa dentro do partido CDU que lidera desde 2000, quando sucedeu a Kohl. As críticas a Merkel apareceram a seguir às eleições de 24 de setembro último, em que a coligação CDU/CSU, com 33%, teve a votação mais fraca dos últimos 60 anos. A contestação interna cresceu, disparou nos últimos dias, após ser anunciado que Merkel tinha concedido ao derrotado SPD ministérios principais como as Finanças, os Negócios Estrangeiros e o Trabalho. Merkel é acusada pelas suas tropas de ter enfraquecido a CDU/CSU para conseguir continuar no poder.

O debate sobre a sucessão de Merkel deixou de ser tabu, está aberto. Vai intensificar-se se o acordo para a grande coligação central for rejeitado pelos militantes do SPD. Mesmo que a coligação avance, Merkel será pressionada dentro do seu campo partidário para impulsionar a sucessão a meio do mandato. Há vários nomes no ar para a sucessão, com três mulheres no topo: Annegret Kramp-Karrenbauer, Ursula von der Leyen e Julia Klochner.

Os efeitos da globalização, o lugar de cada pessoa na sociedade, o valor do trabalho e o da solidariedade, mas também a responsabilidade e a iniciativa individual são o centro da discussão sobre a vida na Alemanha, num quadro que tem em fundo o novo, reduzido, Estado Social e o afluxo de migrantes.

A incerteza alemã tornou-se enorme.

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