Em Março deste ano, a Polícia Federal do Brasil denunciou que várias empresas do ramo, a JBS, que detém as marcas Seara, BRF e Friboi, entre outras, estavam a adulterar os prazos de validade da carne vendida no país e no estrangeiro. Mais de 30 empresas estavam envolvidas em esquemas fraudulentos, vários responsáveis foram presos, as notícias de que o Brasil estava a vender carne podre correram mundo e um sector que representava mais de quatro milhões de empregos e um negócio de 8 mil milhões de dólares em exportações perdeu, de um dia para o outro, 93 milhões de dólares por dia.

«Foi duro, foi terrível», diz Ricardo Santin, vice-presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que reúne 147 membros de 13 sectores da cadeia de produção. O maior custo de todos foi o da quebra da confiança.

Depois do impacto inicial, os últimos meses têm sido passados a tentar reganhar a confiança do consumidor. Sobretudo daquele que está longe, nos países importadores. Os números explicam porquê: o Brasil é o segundo maior produtor de frango do mundo e o maior exportador. São 60 milhões de toneladas exportadas, receitas de 94 mil milhões de dólares. E é o quarto maior produtor de carne de suíno do mundo e o quarto exportador. O que significa 9,3 milhões de toneladas exportadas e receitas de 19,3 mil milhões de dólares.

Os mercados de destino são, no caso do frango, sobretudo China, União Europeia (Reino Unido, quase tudo), Japão, Emirados Árabes Unidos, Hong Kong, Rússia e Coreia do Sul. No caso da carne de suíno, Rússia, Hong Kong, China, Uruguai, Angola e Argentina, principalmente.

O Brasil está numa situação económica difícil e as vendas do sector representam 7,2% do comércio global. O relatório divulgado, já com um ano, foi meio vingança, meio vaidade, mas veio pôr em evidência falhas do sistema de segurança alimentar.

As notícias podem ter sido exageradas. Mas se a carne não estava podre, como agora garantem os responsáveis da ABPA, a verdade é que ninguém vai ao supermercado comprar produtos fora do prazo de validade. E houve outras transgressões. Mesmo que o esquema estivesse confinado ao mercado interno, isso não é desculpa. Não para os mais de 208 milhões de consumidores brasileiros. E para os restantes, a dúvida ficou instalada.

O presidente da ABPA, Francisco Turra, garante que o Brasil aprendeu uma lição com a Operação Carne Fraca: «Quem é global não pode errar. Não podemos permitir que alguém cometa irregularidades. Houve equívocos e práticas que passaram a ser punidas.»

O lado positivo, se há um, é esse: aumentaram os controlos de qualidade, não só sobre a distribuição, mas também sobre toda a cadeia de produção. Hoje, todo o processo é mais inspecionado e transparente. E é isto que a ABPA e o Brasil querem mostrar ao mundo, que é seguro comer carne brasileira.

A “guerra” com a União Europeia

É como diz a canção: «Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, mas que beleza».Qualquer agricultor consegue três colheitas por ano, duas se tiver muito azar; uma árvore com nove anos já presta para corte, quando noutros países pode ter de esperar 36 anos; é o segundo maior produtor de soja do mundo; a avicultura e a suinicultura são sustentáveis; o Brasil tem 14% das reservas de água do mundo, a produção está concentrada no sul e o país não está a produzir na Amazónia, a pegada de carbono por cada tonelada de carne produzida é de 1.2 (a pegada de carbono é medida em toneladas de CO2 por ano). Mas estas são apenas algumas vantagens.

«Condições temos de sobra», diz Francisco Turra, recordando a «fauna e flora espectaculares» e as 260 espécies de peixe de água doce em Mato Grosso. «O agro-negócio está para o Brasil como o petróleo para alguns países». Além do mais, garante, as histórias sobre a desmatação são «balelas» e «66,3% do território está como Deus nos deu». Além disso, lembra Turra, os proprietários têm de deixar 85% da sua terra para floresta.

É por isso que o Brasil não entende as exigências da União Europeia em relação à sua carne e já apresentou uma queixa junto da Organização Mundial do Comércio (OMC). E logo agora que a Operação Carne Fraca está em vias de se resolver, há um novo conflito à vista: é que o Reino Unido é o segundo maior importador de carne de frango do Brasil e, com o Brexit, a UE pode alterar as quotas.

O embaixador Roberto Jaguaribe lembra que «as nossas [Brasil] negociações com a União Europeia estão em dificuldade há 17 anos». Agora, ao que parece, as coisas até estão melhor. «Há sete anos que se começou este processo de negociação, o interesse é europeu e brasileiro. Com oscilações dos dois lados. Os dois lados têm responsabilidades no processo, elas não se podem imputar exclusivamente à Europa, de jeito nenhum. Mas ultimamente, quem estava dando para trás era a Europa. E foi quando o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP) ficou comprometido que a UE, até por outras razões como a disponibilidade de negociadores, mostrou um interesse mais vivo para se voltar para o Brasil. Mas nada está concluído, estamos encaminhando ainda».

Há várias questões em jogo. O Brasil não consegue chegar a acordo quanto a alguns critérios que a UE define como fundamentais para poder importar carne. Os responsáveis dizem que a União Europeia ficou para trás e não sabe o que é sustentabilidade.

Além disso, há as quotas. O Reino Unido é o segundo maior importador de frango do Brasil, mas estava inserido no sistema de quotas da União Europeia. Agora, com o Brexit, ninguém sabe muito bem como as coisas vão ficar. «Não mexam nas nossas quotas», diz Roberto Jaguaribe. Francisco Turra, Ricardo Santin e o ministro da Agricultura do Brasil, Blairo Maggi, dizem o mesmo. Os grande opositores são a França e a Polónia, que vão levantando todos os entraves possíveis.

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