Argentina, 13 de janeiro, 2006. A 21 quilómetros de Buenos Aires, numa sucursal do Banco Río nos subúrbios de Acassuso, cinco indivíduos tomaram de assalto as instalações daquele banco, que hoje pertence ao grupo espanhol Santander, e fizeram 23 reféns. No local estavam mais de 300 elementos de várias forças de intervenção (equipados com armas e escudos) e um sem número de câmaras transmitiam o assalto para toda a Argentina. No topo dos edifícios adjacentes, ocultos, estavam 4 atiradores (snipers).

No filme Infiltrado (2006), de Spike Lee, os assaltantes, liderados pela personagem interpretada por Clive Owen, entram mascarados de pintores num banco com intenção de o roubar. Já em 'A Casa de Papel', os assaltantes entram todos com fato-macaco vermelho e máscaras de Dali. Neste assalto da vida real, não assumiram o fato-macaco dos pintores-assaltantes da trama cinematográfica ou a versão vermelha, mas estavam igualmente disfarçados. Dois estariam encapuçados, um estava de fato e gravata, um vestido de médico e outro com uma peruca ruiva — que dizia que se chamava "Susana".

O assaltante de fato e gravata, de acordo com o jornal argentino La Nacion, no entanto, estava "demasiado seguro para a circunstância em que se encontrava". Nervosismo? Nem vê-lo. "Tira-me já essas pessoas dos telhados senão mato um refém ao vivo e a cores em direto", ameaçou num tom semelhante àquele aplicado por Sonny Wortzik de Al Pacino em Dia de Cão (1983). E iniciava desta forma aquilo que foi uma odisseia real, embora pudesse servir de base para um filme, e que durou mais de 7 horas.

Durante esse período tiveram lugar entregas de pizzas e sumos em troca da libertação de reféns e cantou-se os parabéns a uma delas. Se já viu 'A Casa de Papel' é provável que isto lhe pareça familiar. Até que a polícia irrompeu banco adentro para apanhar os responsáveis. No entanto, não apanhou ninguém para além dos reféns — é que estes já tinham fugido em lanchas de borracha por um túnel subterrâneo com ligação ao sistema de escoamento pluvial. Ainda a pensar nas semelhanças com a série espanhola?

"Fugimos como uma espécie de mágicos. Quando entraram [no edifício] para nos deter, não estávamos. A imprensa dizia que estávamos escondidos. Mas fugimos por um túnel que construímos durante ano e meio", revelou Luis Mario Vitette Sellanes, o ladrão que estudou teatro para falar com o negociador da polícia, conhecido como o "uruguaio" e que fez o assalto de fato e gravata.

Consigo levaram dinheiro e pertences de 145 cofres individuais, no valor de 15 milhões de dólares, mas deixaram uma mensagem caricata: "Num bairro de ricalhaços, sem armas nem rancores, é só dinheiro e sem amores". Ninguém ficou ferido ou sofreu abusos, embora tudo fosse encenado para que essa sensação fosse transmitida à equipa da polícia responsável por negociar com os assaltantes.

Fez este domingo 13 anos desde que se deu um dos maiores roubos da história na Argentina e do qual só se recuperou um milhão de dólares, de acordo com o El País. No entanto, os cinco membros do grupo que levou a cabo o roubo acabaram mais tarde detidos, embora não passassem mais de cinco anos na prisão, visto que o tempo da pena foi reduzido porque utilizaram armas de brincar durante o crime.

Tal como acontece na série espanhola La Casa de Papel (produzida pela Antena 3, mas difundida mundialmente pela plataforma de streaming Netflix), há uma mente por detrás de todo o plano e que assume a figura central do assalto, ainda que não esteja fisicamente presente no ato em si. Na série, dá pelo nome de Professor (interpretado por Álvaro Morte) e montou um plano para roubar a Casa da Moeda em Madrid. Na realidade, na Argentina, o responsável foi Fernando Araujo, de 44 anos.

De facto professor, pintava quadros no seu atelier e praticava a arte marcial jiu-jitsu. Hoje, diz, está longe do mundo do crime. Escreveu o argumento para um filme acerca do assalto e que voltou a dar aulas de artes marciais. Define-se como um homem espiritual, fã de astronomia e de xadrez — e fuma marijuana enquanto pinta os seus quadros e ouve Mozart.

"Subestimei-o. Era um grande orador, mas como vestia roupa suja, tinha barba grande e fumava marijuana, dava imagem de ser um boémio fantasista e não um homem que queria cometer um assalto", revela Rubén Alberto de la Torre, o primeiro a entrar no banco, de peruca e disfarçado de médico, ao El País. Para além de ter sido o primeiro a entrar no banco, conta que o fez a gritar “Mãos ao Alto!”.

Araújo dizia que podia ter sido escritor, engenheiro, arquiteto, filósofo ou até gerente de uma grande empresa. E planeou o assalto durante anos. Foi minucioso, mas tinha uma certeza que revelou à sua equipa: "Temos que ganhar a opinião pública". A ideia era simples: enganar a polícia, levar a crer que eram delinquentes dispostos a matar os reféns, mas apenas para ganhar tempo para que conseguissem esvaziar os cofres do banco e fugir sem serem vistos. No fundo, algo muito próximo da premissa de La casa de papel (2017), a primeira série espanhola a ganhar um Emmy.

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