“A Expo’98 foi vista como um laboratório de estratégias urbanísticas e arquitetónicas que, ao longo dos vinte anos seguintes, foram reproduzidas em transformações profundas que se verificaram de Bragança a Albufeira e, com particular intensidade, na Área Metropolitana de Lisboa (AML)”, afirmou Paulo Tormenta Pinto, professor de arquitetura no ISCTE e coordenador do projeto de investigação “Grandes Trabalhos — Operações Arquitetónicas e Urbanísticas depois da Exposição Universal de Lisboa de 1998″.

Além do impacto na AML, a Expo’98 funcionou como modelo para a requalificação urbana e ambiental de “mais de 30 cidades de norte a sul de Portugal”, através do Polis – Programa de Requalificação Urbana e Valorização Ambiental das Cidades, criado pelo Governo em 2000.

“A Expo corresponde ao regresso da importância do desenho urbano: trata-se de um planeamento desenhado, na Expo tudo é desenhado”, indicou o professor do ISCTE, destacando a forma como “este ímpeto transformador, que conjuga vários investimentos, caiu bem à sociedade portuguesa” nos anos 90 e nas duas primeiras décadas do século XXI.

Os resultados preliminares deste projeto de investigação apontam para uma difusão da importância do espaço público como elemento estruturador e qualificador das cidades, que “parece ter sido motor de muitas transformações, associado a uma ideia de ‘qualidade de vida’, que até então não tinha sido prioritária na administração local e central”.

Em Lisboa, o projeto urbano da Expo’98 promoveu a reconversão de uma zona industrial numa nova área da cidade, através de “uma transformação das frentes de água, num processo contínuo até hoje”.

Neste âmbito, o modelo implementado nos quatro quilómetros da zona do Parque das Nações foi usado como exemplo para os 20 quilómetros em contacto com o rio Tejo, através da transformação das zonas portuárias em espaços com maior diversidade de usos, eliminando progressivamente a “barreira entre o rio e a cidade”.

Esta mudança na capital “é mais rápida e intensa depois de 2008, data do Plano Geral de Intervenções da Frente de Rio de Lisboa”, em que foi estabelecido um acordo entre a autarquia e o Porto de Lisboa para a gestão da frente de rio da cidade, libertando várias áreas para usos mistos e usufruto público.

“É uma mutação que conjuga intervenções como a do Cais do Sodré, a do Campo das Cebolas ou a de Santa Apolónia com edifícios notáveis, como o novo terminal de cruzeiros”, avançou Paulo Tormenta Pinto, ressalvando que ao longo da frente ribeirinha da região de Lisboa há muitos terrenos em que ainda não é claro qual será o seu destino, pelo que “são lugares em espera”.

Na valorização do espaço público, a reconversão das cidades portuguesas iniciada a partir de 1998 através do modelo da Expo apostou em infraestruturas de uso comum, na pedonalização de áreas centrais, no incentivo ao uso das bicicletas e em alguns casos soluções inovadoras de mobilidade.

De acordo com o coordenador deste projeto de investigação, as transformações do espaço público têm por base o “combate à desumanização das cidades e a um quotidiano dominado pelo automóvel”.

“Verifica-se uma grande preocupação em definir espaços de encontro e de socialização com circulação pedonal. Tenta-se uma reposição de padrões urbanos que tinham sido perdidos pela cidade moderna, como o da circulação das pessoas em espaços comuns que propiciam o encontro, a conversa e a convivência”, explicou Paulo Tormenta Pinto.

Os resultados deste projeto de investigação vão ser o mote para a conferência “Transformações e Lugares em Espera – As frentes de água na Área Metropolitana de Lisboa”, que se realiza na próxima quinta-feira, a partir das 14:30, no Teatro Thalia, em Lisboa.

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